
Com aumento de mais de 57% na taxa de mortalidade infantil, Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas, corre contra o tempo para reduzir o número de crianças que morrem antes de completar um ano de vida. Estatísticas do Datasus indicam que para cada mil bebês nascidos vivos em 2008, 9,18, em média, não sobreviveram. Em 2010, essa taxa pulou para 14,44. O município segue o caminho oposto da região, que registrou queda de 2,22 nesse período, segundo a Secretaria de Estado de Saúde.
É no abraço da filha Maria Cecília, de 8 anos, que a dona de casa Geisa Fernanda Ribeiro, de 32, encontra consolo e força para superar o trauma da morte da pequena Mariana. O bebê morreu em 4 de janeiro com apenas 30 minutos de vida. “Era um sonho meu e do meu marido. Mariana era esperada com muito amor e ainda é difícil lembrar aquele momento”, diz.
Geisa conta que chegou ao hospital com hemorragia e, mesmo assim, o médico a deixou esperando por mais de duas horas, a fim de fazer parto normal. “Só depois outro médico me examinou direito e percebeu que o cordão umbilical estava sufocando a criança. Como ficou muito tempo sem oxigênio, ela teve duas paradas cardíacas ao nascer e não resistiu. Se o atendimento tivesse sido priorizado desde o início e tivesse sido feita uma cesariana, eu estaria com minha filha nos braços”, lamenta.
O aumento da mortalidade infantil mostra que há falhas no atendimento às gestantes e na identificação de crianças em situação de risco. Segundo o coordenador do Núcleo de Estudos Epidemiológicos da Secretaria Municipal de Saúde, Osmundo Santana, o aumento decorre de um problema que afeta o município há anos. A reestruturação do Comitê de Prevenção de Mortalidade Materna Fetal e Infantil será o primeiro passo para redução do índice. “Há falhas no trabalho do comitê, que funciona na cidade desde 2004. Precisamos melhorar, por exemplo, a identificação de gestantes em situação de risco, conscientizá-las sobre a importância do pré-natal e avaliar a qualidade da assistência que elas recebem, antes e depois do nascimento”, diz.
Outro passo importante, de acordo com Santana, é investir na atenção primária à saúde. Ele afirma que o trabalho deve começar já nas unidades de saúde, porta de entrada das gestantes. O epidemiologista explica que os óbitos acontecem principalmente em bebês com menos de seis dias de vida. Em 2008, 24 crianças morreram na cidade antes de comemorar o primeiro aniversário. Em 2010, foram registrados 37 óbitos. Para tentar mudar esse quadro, o núcleo trabalha desde o segundo semestre do ano passado na identificação das principais falhas cometidas pelo município. O relatório final será entregue este mês.
Para o pediatra e coordenador da CTI Infantil do Hospital São João de Deus, Júlio César Veloso, a ampliação no número de leitos é outro caminho para reduzir a taxa. Ele informou que o município conta com oito vagas para toda a região. Um projeto para elevar esse número a 14 já foi discutido. Seriam necessários cerca de R$ 400 mil para investir em equipamentos e funcionários. A verba não foi disponibilizada, nem pelo estado e nem pelo município, e não há previsão de quando essa melhoria sairá do papel. “Mesmo aumentando para 14, sabemos que esse número ainda estaria defasado. Mas a situação no município melhoraria muito”, explica.
Veloso conta que, desde a implantação da CTI Infantil, em 1999, a taxa de mortalidade registrada no hospital caiu consideravelmente, tendo o pico em 2008, quando o município apresentou índices comparáveis a países de primeiro mundo. Ele lembra que alguns os fatores, como gravidez na adolescência e consumo de drogas pelas gestantes, podem contribuir para aumentar a taxa de mortalidade infantil.
