
A fórmula é simples: diante de qualquer atitude suspeita, basta soprar o apito. Esse é o instrumento que os vizinhos têm para informar uns aos outros de que algo não vai bem. O som de um é seguido por vários ao mesmo tempo. E, imediatamente, a Polícia Militar é chamada para conferir se a suspeita tem fundamento. A PM ainda não sabe quantos municípios já aderiram à rede, mas garante que ela está em expansão. Qualquer uma das 853 cidades mineiras pode participar. Para isso, basta que a comunidade procure o batalhão mais próximo. O assessor de imprensa da PM em Minas, capitão Gedir Rocha, diz que a tendência de redução da criminalidade é de 30% a 40%. “Se você começa a apitar avisando que há um estranho, gasta dinheiro? Não, gasta solidariedade, preocupação, zelo e amizade.”
Segundo ele, vários fatores contribuem hoje para a expansão da criminalidade para o eixo fora dos grandes centros urbanos. “Muitas cidades do interior não são interior, com grandes obras, muitas universidades e empresas chegando. Em municípios onde as pessoas se conheciam e se comunicavam, o crescimento está encerrando essas relações. Além disso, há a impunidade na qual as pessoas acreditam e o avanço do crack. Até mesmo a tradição de família, a responsabilidade em saber onde o filho está, com quem ele anda e se ele está na escola ou não acabou”, afirma o capitão. “ A rede dá certo porque a ideia é a retomada da sociedade do espaço que é seu, com a aglomeração de pessoas que querem a mesma coisa: rua limpa, prédios e casas que não sejam pichadas, ruas iluminadas, árvores podadas. E disso a sociedade toma conta”, acrescenta.
Ipatinga (Vale do Aço), Viçosa (na Zona da Mata), Conselheiro Lafaiete, Itabira, João Monlevade e Ouro Preto (Região Central) são exemplos de como a Rede de Vizinhos Protegidos está dando certo. Na cidade histórica, a comunidade do Morro São Sebastião procurou a PM em julho de 2010 por causa de uma série de arrombamentos. Segundo os militares, desde a implantação do projeto, já houve redução de índices de furtos e arrombamentos no bairro.
Primeiros frutos
Em Itabira, a 100 quilômetros de BH, o programa implantado no início do ano no Bairro 14 de Fevereiro também já colhe os primeiros frutos, com a redução de 36% dos crimes contra o patrimônio de janeiro a agosto, na comparação com o mesmo período de 2010. De 22 casos, passou-se para oito. Em 2008 e 2009, foram 17 e 21, respectivamente, também nos oito primeiros meses de cada ano. Em toda a cidade, cuja população é de aproximadamente 110 mil habitantes, foram registrados 287 arrombamentos a casas em 2007; 357 em 2008; 263 em 2009; 360 em 2010 e 231 em 2011. O número de homicídios, que chegou a 13 nos oito primeiros meses de 2007, está em sete este ano.
“A queda nos números demonstra que a rede é uma boa ferramenta no sentido de prevenção, mas só funciona onde há mobilização comunitária. A polícia não está transferindo responsabilidades, mas é importante que a população entenda seu papel no programa, pois ele não é uma brincadeira e deve ser levado muito seriamente”, afirma o comandante do 26º Batalhão, tenente-coronel Edvanio Rosa Carneiro, de Itabira. Ele ressalta que a rede é apenas uma das estratégias de prevenção, entre várias outras.
O operador de equipamentos Nilson Pereira Cunha, de 42 anos, um dos articuladores da implantação do programa no 14 de Fevereiro, comemora os resultados. “A maioria dos nossos moradores é de aposentados e o bairro está na entrada da cidade, o que traz um grande fluxo de pessoas. O marginal pode ser analfabeto, mas vai reconhecer a placa da PM nos portões. Ele pensará que só mora polícia ou que a PM está aqui. Ficará receoso e vai procurar outra área”, diz.
