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Coleções conquistam público infantojuvenil e renovam o interesse pela literatura

Boa oferta de obras literárias, ambiente agradável, participação dos pais na escolha dos livros e debates animados sobre vários temas com os amigos são alguns dos elementos que incentivam alunos de escolas de BH a manter o hábito da leitura

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postado em 02/09/2015 06:00 / atualizado em 02/09/2015 08:03

Sandra Kiefer

Ramon Lisboa/EM/DA Press

No mundo novo dos tablets, WhatsApp e Instagram, seria preciso filmar para crer no bate-papo depois do horário do recreio dentro da biblioteca da Escola Sesi Comar, no Bairro Calafate, na Região Oeste de Belo Horizonte. É de emocionar o flagrante das conversinhas entre alunos de diversas idades, que discutem animadamente sobre... os últimos livros lidos. Os novos leitores confessam estar “viciados” nas coleções próprias para pré-adolescentes, que trazem linguagem leve e temas atuais, temperados com ironia e muita interatividade.

O gosto pelas séries reanimado a partir do fim da década de 1990 pela chamada geração Harry Potter, acabou se estendendo aos novos leitores. Na esteira da fama das bruxarias lançadas pela escritora J.K. Rowling, títulos como o best-seller Diário de um Banana, Nate, Capitão Cueca, Minha vida fora de série e Diário de uma garota nada popular, entre outros, conquistaram a meninada. A verdade é que os leitores iniciantes estão curtindo a “nova” mania da literatura.“Perdi a conta de quantos eu li este ano. Fui para um hotel-fazenda e não fiz mais nada. Passei as férias inteiras lendo”, diz a aluna Bruna Karla Vidal, de 12 anos, que admite estar totalmente “viciada” na coleção juvenil A Seleção.

Interessada em saber qual será o final de cada obra, com média de 300 páginas cada uma, Bruna aproveita para ler dentro da van escolar, nos intervalos das aulas e até nos dias de folga.“Comecei em janeiro e já estou no penúltimo livro da coleção”, conta a estudante, referindo-se ao volume Contos da Seleção, lançado na trilogia da autora norte-americana Kiera Cass, em 2012. No exato momento do comentário de Bruna, a colega de sala retruca: “Tem certeza de que é mesmo o penúltimo livro?”

Rafaella Souza, de 12, tem certeza sobre o equívoco da outra, pois andou se informando a respeito do assunto na internet. “Acho que não. Pelo que pesquisei no site, essa foi uma edição extra feita pela autora, que lançou quatro livros e já avisou que está escrevendo o quinto”, corrige Rafaella, que estuda com Bruna no 7º ano A.

“Meu pai sempre me dá livros no aniversário e no Natal. O último que ele me deu foi Na ponta dos dedos, com 503 páginas. Ainda estou na página 85. Não pude começar antes, porque estava terminando de ler Quem é você, Alasca?”, conta Rafaella, iniciada nos livros infantojuvenis de John Green, que serão transformados em filmes. “John Green agora é uma febre, mas os dois últimos dele me decepcionaram. O problema é que ele escreve romances e gosto muito mais de ficção científica”, argumenta.

Deslocada no meio desse trio de alunas muito “entendidas” em literatura, Beatriz Fernandes, também de 12 anos e do 7º ano B, assume que gosta de ler Monteiro Lobato, especialmente Reinações de Narizinho e A chave do tamanho. A outra colega não consegue disfarçar uma careta: “Ai, acho muito infantil, mas não estou querendo dizer que as pessoas que leem Sítio do picapau Amarelo sejam infantis”. No meio da roda, entra de repente na conversa o precoce Felipe Augusto Fonseca Lima, de 10. Trazendo nas mãos o título Eros e Psique (de João Pedro Roriz), ele explica que está estudando mitologia grega: “Meu preferido é Zeus, lógico! Mas gosto também de Poseidon, porque curto muito o mar, água, piscina”.

Em um canto, Isabel Mutz, de 10, mete o bedelho na conversa, como diria a espevitada boneca Emília. Filha de  professora, a menina confessa que sente vontade de “matar” o irmão Isaac, de 4, que vive desmarcando as páginas dos livros onde a mais velha parou de ler. “Ele pega o livro e finge que está lendo para tentar me imitar. Depois, joga os marcadores para o alto. Mas temos de entender os irmãos mais novos porque eles só querem ser como a gente, não é?”, brinca a menina. Já a colega Beatriz Nicolau, de 9, costuma disputar os livros com a avó dela. “Ela é que acabou lendo A culpa é das estrelas e não me deixou ler, porque é triste demais”.

“Já ouvi falar desse A culpa é das estrelas. Todo mundo acha esse livro triste. A história é tipo um Romeu e Julieta, só que os namorados têm câncer”, dá o pitaco, novamente, o pequeno Felipe. Após ser interrompida abruptamente, Beatriz Nicolau retoma do ponto em que parou, contando que ano passado pegou duas revistinhas em quadrinhos todos os dias, até as edições da biblioteca esgotarem. Ela faz questão de dizer que o único livro que não conseguiu ler foi O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry.

“O que é um bom livro para mim? É um livro que me faz viajar e em que fico presa até terminar de ler. Não consigo nem piscar”, revela Júlia Ferreira, de 12. Com essa frase, ela venceu o último concurso promovido pela bibliotecária da escola, Cristiane Marques, e ganhou o livro Princesa adormecida, de Paula Pimenta. “Antes eu não ligava para ler até ganhar esse livro”, afirma.

Para gostar de ler

Passos para desenvolver o hábito da leitura em seu filho

  • Dê exemplo e leia você também
  • Deixe os livros à mão para ele folhear e incentivar a leitura de histórias.
  • Reserve um horário para a leitura e transforme-o em um momento de prazer.
  • Aconchegue-se com seu filho, leia para ele, mostrando as palavras.
  • Comente sempre o livro com ele. Incentive-o a falar da história e a contá-la para outras pessoas. Isso auxilia no desenvolvimento da linguagem oral e da criatividade.
  • Frequente livrarias e bibliotecas com a criança.
  • Dê livros, gibis ou revistas de presente.
  • Empreste livros para os amiguinhos dele. Estimule a troca e as conversas.
  • Estimule atividades que usem a leitura – jogos, receitas, mapas, fantoches e teatros.
  • Leia em voz alta com ele. Todo material impresso pode ser utilizado para troca e desenvolvimento da leitura. A ideia é brincar de ler e ler como se estivesse brincando.

 

Cristina Horta/EM/DA Press
Três gerações e uma paixão

Quando tinha 9 anos, a estudante Elisa Cândida Alcântara de Sales (hoje aos 15), aluna do 1º ano do ensino médio do Colégio Marista Dom Silvério, herdou do irmão mais velho a coleção inteira de Harry Potter, devidamente lida e aprovada por ele. Aos 29, o irmão Crystofer faz parte da primeira geração de adoradores da série da inglesa J.H. Rowlling, que já vendeu meio bilhão de cópias da história, traduzida para mais de 70 idiomas. “Sou apaixonada por Harry Potter e me acho bem Hermione, que é nerd e está sempre lendo, como eu. Talvez ela seja mais mandona”, brinca a jovem, que lê um livro por semana, em média. Dona de uma coleção de cerca de 400 volumes, Elisa também iniciou a caçula nas histórias do aprendiz de bruxaria: Ana Luiza, de 9, já começou a leitura. “Gosto mais de literatura em série, porque possibilita conviver com os personagens por mais tempo. Fico com dó de acabar”, diz Elisa.

O feitiço da biblioteca

Um ambiente agradável, o incentivo à interação de alunos, uma boa oferta de obras e a participação de pais na escolha dos livros são alguns dos ingredientes utilizados por escolas para despertar o hábito da leitura. No Sesi Comar, além do concurso de frases e redação, o “feitiço” da leitura inclui uma biblioteca com uma seleção atual de livros e diversidade de gêneros, pufes coloridos e estantes na altura dos alunos. “Optamos por oferecer um espaço agradável, descontraído e aconchegante que tem mais a cara dos jovens de hoje. No ambiente da nossa biblioteca, a cultura e a interação social ocorrem de forma natural”, explica a bibliotecária Cristiane Marques.

Outra biblioteca tradicionalmente lotada nos intervalos das aulas é a do Colégio Santo Antônio, que incentiva a participação dos pais de alunos na escolha dos livros. “Os pais vêm buscar as crianças e comentam que a biblioteca está sempre cheia. Já é uma cultura dos nossos alunos”, conta a bibliotecária da escola, Fabiana Lugão. Segundo ela, indicar leituras não é exclusividade dos professores de português ou de literatura do colégio. “No 6º ano, a professora de matemática adotou o livro Leonardo Da Vinci e seu supercérebro, de Michael Cox (Coleção Mortos de Fama) que acabou sendo aproveitado também na atividade de artes”, conta ela, que também promove internamente feiras de livro, conversas com autores e contação de histórias.

“Nosso maior desafio é despertar no aluno o prazer da fruição da leitura, em vez de cobrar uma avaliação daquela obra. Mostrar aos estudantes que o livro é um veículo de conhecimento, que pode possibilitar uma maior expressão de si mesmo e ajuda a entender a sociedade em que ele vive”, sugere Fábio Pereira, professor de literatura da rede Coleguium. “O importante é colocar à disposição a maior variedade possível de livros, dando liberdade para que o aluno se encontre na obra. O melhor livro é aquele que de alguma forma responde a seus questionamentos pessoais”, ensina, lembrando que o hábito de ler ajuda a ampliar o vocabulário e a interpretar textos.

Incentivo à variedade

Viviane Vieira Costa, professora do 1º ano do ensino fundamental da Escola da Serra

“As séries literárias estão abordando temas mais modernos e acessíveis aos adolescentes, com a vantagem de conquistar um público expressivo de leitores. Talvez as obras pudessem ter um pouco mais de capricho com a linguagem, que parece um tanto empobrecida, não sabemos se em função da tradução para o português. Como têm feito muito sucesso, o ideal é conseguir intercalar best-sellers do interesse dos alunos com a leitura dos clássicos. Eu amo ler no papel, mas preciso reconhecer que os e-books e tablets estão ajudando os jovens de hoje a lerem mais. Nos pequenos, o encantamento da contação de histórias, olho no olho, ainda funciona melhor. É possível despertar o gosto pela leitura mexendo com a imaginação das crianças, inventando vozes e interrompendo a história pela metade, deixando o melhor para o dia seguinte.”

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