postado em 15/04/2012 07:45 / atualizado em 15/04/2012 08:00
Nayara Maria se mudou para Belo Horizonte, se matriculou em um cursinho e não desiste do sonho de estudar na UFMG (foto: Renato Weil/EM/D.A Press)
Tidas como formas de compensar a dificuldade de ingresso nas universidades públicas devido ao déficit social histórico do Brasil e à má qualidade do ensino público nacional, as políticas afirmativas de inserção das universidades estaduais e federais, como cotas e bônus no vestibular, não têm cumprido integralmente seu objetivo. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, a participação de egressos do ensino público aptos a reivindicar o bônus no vestibular despencou de 6 mil inscrições para 4 mil no último processo seletivo. A queda de 34% é encarada pela instituição como efeito da ampliação da concorrência gerada pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que nacionalizou o ingresso de alunos e tornou menos efetivos os bônus concedidos a estudantes negros, pardos e vindos da escola pública. “No curso de medicina, a relação candidato/vaga saltou de 30 para 50 com o Enem. Não fossem os bônus, a representação das minorias seria residual”, diz a pró-reitora de graduação da UFMG, Antônia Vitória Aranha.
Desde que os bônus foram criados, em 2008, o índice de aprovados que os usaram se manteve na casa dos 33%, sendo que apenas um terço dos aprovados realmente precisou do incentivo. Dois terços passariam de qualquer forma, segundo especialistas, porque investiram em cursinhos para reforçar o que aprenderam na escola pública. “A concorrência do Enem é responsável por boa parte do desinteresse dos alunos das escolas públicas na UFMG. Isso foi reforçado por outros programas de financiamento e acesso ao ensino superior, como o Prouni e o Fies”, avalia a pró-reitora, citando iniciativas que incentivam o ingresso em universidades privadas.
De acordo com Daniel Cara, coordenador da ONG Campanha Nacional pelo Direito à Educação, a dificuldade de ingresso dos alunos de escolas públicas no ensino superior, mesmo por meio de cotas e bônus, é uma questão estrutural, da fragilidade do ensino médio e não das cotas”, aponta. O especialista, mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP), não condena o Enem. “O exame é uma aposta correta, mas não pode ser a única. Se por um lado aumentou o nível de competitividade, por outro expôs o sucateamento do ensino médio, principalmente na educação pública.” Cara é incisivo ao dizer que os governos estaduais e o federal precisam se articular, investir mais e melhorar o ensino. “Hoje, temos escolas do século 19, professores do século 20 e alunos do século 21. O ensino não se aproxima do estudante e por isso não é assimilado como deveria.”
Se os bônus não atendem as necessidades dos estudantes, as cotas de reserva de vagas apresentam situação mais crítica, como na Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg). Dos 2.474 estudantes que se candidataram às cotas raciais, para deficientes e carentes, 980 entregaram os documentos necessários para a inscrição, 647 se habilitaram e 333 prestaram o vestibular. A instituição não sabe dizer quantos ocuparam as vagas. Mas a situação do curso mais disputado da instituição, o de pedagogia, é emblemática: das 108 vagas ofertadas, apenas 12 foram preenchidas. “A escola pública não dá preparo. Os alunos têm direito às cotas, mas precisam atingir as notas de corte. Pior do que não conseguirem o mínimo é o altíssimo índice de candidatos que não acertam nenhuma questão”, afirma a professora Renata Neves, pró-reitora de ensino e presidente da Comissão Permanente do Processo Seletivo da Uemg.
METAS A desistência de colegas e a opção de vários deles de sequer tentar o vestibular da UFMG, por acharem não ter chances de aprovação, atormentaram a estudante itabiritense Nayara Maria Gonçalves Pedrosa, de 18 anos. Ela insistiu e sentiu o peso da concorrência. Não foi aprovada na primeira etapa do curso de psicologia, em 2011, mesmo com a adição de 15% na nota do vestibular por ter se declarado parda e cursado escola pública. Chegou perto, o que a fez manter a esperança. “A concorrência é muito forte. Foi meu primeiro vestibular e deu para sentir isso. Poucos colegas tentaram a UFMG, por considerá-la difícil. A a maioria desistiu e vai fazer outra faculdade.”
Na segunda tentativa a estudante investiu pesado para enfrentar a concorrência de candidatos que usam notas do Enem. Mudou-se para BH e se matriculou em um curso pré-vestibular. “Faço o cursinho pela manhã e à tarde pretendo estudar das 13h30 às 18h. Vou tentar direito e engenharia civil, cursos que são mais concorridos, mas não vou desistir”, garante a estudante.
Glossário>> Enem – Exame Nacional do Ensino Médio
As provas foram criadas para testar a qualidade do ensino médio, mas suas notas passaram a ser usadas para democratizar as oportunidades de acesso às vagas federais de ensino superior e induzir a reestruturação dos currículos do ensino médio. São feitas provas de ciências humanas, ciências da natureza, matemática, linguagens e códigos e redação. Algumas universidades usam a média das notas para substituir parcial ou integralmente o vestibular
>> Sisu – Sistema de Seleção Unificada
Criado pelo Ministério da Educação para selecionar os candidatos às vagas das instituições públicas de ensino superior que usam a nota do Enem como única fase de seu processo seletivo. A vaga é garantida pelo sistema com base na nota obtida no Enem
>> Prouni – Programa Universidade para Todos
Criado em 2004, tem como finalidade a concessão de bolsas de estudos integrais e parciais a estudantes de cursos de graduação e cursos sequenciais em instituições privadas de educação superior. As faculdades que aderem ao programa recebem isenção de tributos. Os alunos devem ser egressos de escola pública
>> Reuni – Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais
Plano federal de incentivos às instituições públicas de ensino superior que buscam ampliar o acesso (aumentando vagas) e a permanência na educação superior. A meta é dobrar o número de alunos nos cursos de graduação até 2018, permitindo o ingresso de mais 680 mil alunos nas instituições públicas