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Um país diferente

Nunca mais a nação americana foi a mesma depois do 11 de setembro

Até então se julgando inatingíveis, os Estados Unidos perceberam o quanto eram vulneráveis.

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postado em 08/09/2011 15:47 / atualizado em 09/09/2011 08:43

Tatiana Sabadini

REUTERS / Jeff Christensen / Files


“Hoje, nossos cidadãos, nosso modo de vida, nossa liberdade ficaram sob ataque em uma série de deliberados e mortais atos terroristas. Nenhum de nós vai se esquecer desse dia; no entanto, vamos adiante para defender a liberdade e tudo o que é justo e bom no nosso mundo.” As frases fazem parte de um discurso que mudaria os rumos das políticas interna e externa dos Estados Unidos nos últimos 10 anos, e foram ditas em um tom fúnebre por um presidente tenso, poucas horas depois dos ataques de 11 de setembro.


O atentado contra o país, que era considerado a grande potência do mundo, foi um golpe traumático, que provocou uma reação imediata e despudorada. A inesperada insegurança e a guerra contra o terror lançada por George W. Bush e herdada por Barack Obama trouxeram consequências para o governo, para a economia e para o estilo de vida americano. O american way of life nunca mais foi o mesmo.

O diplomata Rubens Barbosa era o embaixador brasileiro em Washington na época, e observou de perto como o atentado mudou o eixo das políticas interna e externa norte-americana. “Os ataques terroristas de 11 de setembro afetaram a alma do povo americano e a atitude do governo de Washington. Os EUA, que viviam um momento de grande afluência e se julgavam inatingíveis, viram que também eles eram vulneráveis. Não acredito que o mundo tenha mudado, mas os americanos mudaram a agenda internacional: segurança e terrorismo tornaram-se as principais preocupações da comunidade internacional”, afirma.

Depois dos ataques, a política americana se voltou para a guerra contra o terror. Na época, Bush quis mostrar força e responder aos ataques imediatamente, e a única forma de fazer isso era usar todo o seu poderio militar. “Ele queria uma reversão da política do (Bill) Clinton, que tinha foco na economia, na democracia e nos direitos humanos, sem a utilização do elemento militar. O 11 de setembro permitiu que a visão mais militarista dele fosse validada. Era como se dissesse ‘nós tínhamos razão, existem ameaças’. A questão da segurança foi muito valorizada e levada para o extremo”, comenta Cristina Pecequilo, especialista em política externa americana e professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Bush começou uma guerra no Afeganistão 30 dias depois dos ataques, para caçar Osama bin Laden e outros líderes da Al-Qaeda. Em 2003, o alvo foi o Iraque, com a justificativa de que o país escondia armas de destruição. Todas as ações foram contra as orientações da Organização das Nações Unidas (ONU), e ele chegou a ser criticado no cenário internacional. “Bush vai ser lembrado como o presidente do terrorismo, marcado pelo 11 de Setembro. Mas isso trouxe consequências, como a crise econômica e o isolamento do país, especialmente dos aliados. Isso contribuiu para um declínio americano, que deixou um vácuo e abriu a porteira para países como China, Rússia e o próprio Brasil”, observa Pecequilo. Em seu segundo mandato, em 2005, Bush começou a mudar de visão e se abriu mais na política externa, começando a sofrer as primeiras penas da crise financeira.

Obama Barack Obama sempre foi um dos grandes críticos das guerras e da forma como o país lidou com os ataques, especialmente quando ainda era senador. Durante a campanha, ele carregava a bandeira pacifista, mas, quando já era candidatado oficial, disputando com John McCain, começou a endurecer o discurso, para se mostrar mais forte diante do veterano de guerra. “Ele precisou se adaptar, e chegou a ser criticado pelas linhas mais liberais do Partido Democrata. Na Casa Branca, a mudança foi total. Ele teve de lidar com uma herança pesada e precisou repensar suas ideias naturalmente”, diz Cristina Pecequilo.

A política de Obama não é tão dura quanto a de Bush, e a diplomacia, sob o comando de Hilary Clinton, tem usado o tom da cooperação e do poder inteligente como diretriz. Porém, na prática, algumas diretrizes continuam. “A doutrina de segurança nacional, que prevê ataque preventivo e mudança de regime, aplicados no caso do Iraque, não é mais lembrada, mas permanece em vigor, como se viu na invasão do espaço aéreo do Paquistão para a captura e a morte de Bin Laden. A atitude de Obama tem sido pragmática, a aplicação é feita seletivamente, como é o caso da prisão de Guantánamo. Tudo isso mostra a relevância dos temas de segurança e de terrorismo na sociedade americana”, comenta o embaixador Rubens Barbosa.

Dez anos depois do 11 de Setembro, os Estados Unidos olham para o futuro com o desejo ir além e se fortalecer, mas ainda permanecem com a fixa lembrança do que aconteceu e carregam o peso dos ataques. O impacto deve continuar na próxima década, e a crise econômica é uma das principais consequências para os americanos. “Existe um efeito interno, com o aumento do gasto público, sobretudo por causa das guerras do Afeganistão e do Iraque. Embora o gasto vá diminuir com a gradual retirada das tropas, a presença dos EUA nesses países não vai desaparecer. O 11 de Setembro continua a influenciar a sociedade americana, como estamos vendo nos principais temas da campanha presidencial”, aposta o embaixador.
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