O momento nunca foi tão favorável para abertura de uma empresa. Desemprego nas menores taxas da história, renda em expansão, incentivo ao consumo e crédito em alta criam o cenário até então inédito para a economia nacional. Não é por acaso que um em cada quatro brasileiros adultos possui negócio próprio ou está envolvidos no processo de criação de um, segundo dados da pesquisa Global Entrepreneurship Monitor 2011 (GEM), realizada anualmente pelo Sebrae em parceria com o Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP).
São nada menos que 27 milhões de empresários dispostos a reforçar a importância das micro e pequenas empresas como principais geradoras de oportunidades de emprego no Brasil, sendo que, desses, 4 milhões começaram agora como empresários. A cada três postos de trabalho no setor privado, dois vêm de empreendimentos de menor porte. Os 24 primeiros meses de vida são cruciais. Segundo dados do Sebrae, uma em cada quatro empresas morrem antes de superar este período.

Para conhecer a trajetória de consolidação de um micro e pequeno negócio no Brasil, o Estado de Minas começa hoje a série Minha vida de empresário. O projeto de um ano acompanhará a história de seis empresários que iniciaram as atividades em Minas Gerais entre maio e este mês. Com o intuito de retratar realidades distintas, foram selecionados empreendimentos de rua, instalados em shoppings e também no interior do estado. A cada início de mês, uma nova reportagem vai abordar os avanços ou entraves vividos por eles, assim como trará dicas e orientações para aqueles que passam pela mesma situação.
A grande maioria dos novos empresários selecionados pela reportagem tem menos de 40 anos, justamente a faixa etária em que se concentra o maior volume de pessoas com negócio próprio. Dos 27 milhões de empreendedores brasileiros, mais da metade (14,4 milhões) ttm entre 25 e 44 anos. Outros 3,4 milhões têm até 24 anos. Seis milhões estão na faixa de 45 a 54 anos, e 3,3 milhões têm mais de 55 anos.
O perfil ainda contempla uma boa participação feminina. Das seis empresas selecionadas, duas possuem apenas mulheres no comando, enquanto outras duas contam com a participação delas na sociedade. O quadro também se aproxima da realidade nacional, já que, a cada 100 empreendimentos iniciais no país, 49 contam com mulheres à frente do negócio. As amigas e publicitárias Débora de Souza Moreira de Oliveira, de 27 anos, e Juliana de Oliveira Rezende, de 28, servem como exemplo dessa realidade. Elas estão procurando um imóvel para abrir a Doce Requinte, especializada em salgadinhos e na reinvenção de docinhos clássicos, como o brigadeiro.
O resultado supera, e muito, a média dos 54 países pesquisados pela GEM, nos quais a participação das empreendedoras é de 37 para cada 100. Negócios voltados para estética e tratamento de beleza, comércio de vestuário, fornecimento de comida preparada e confecções estão entre as preferências delas. Não é por acaso que justamente as duas empresas que participam do projeto e são geridas por mulheres estão voltadas para a área de gastronomia.
A grande conquista desse mercado tem sido o empreendimento por oportunidade e não por necessidade. “Não está havendo apenas uma melhora quantitativa no cenário nacional, mas também qualitativa, se considerada a motivação para abrir um negócio no país, com pessoas realmente querendo empreender”, avalia o diretor-técnico do Sebrae, Carlos Alberto dos Santos. Para cada negócio aberto por necessidade, estima-se que 2,24 começam estimulados pela oportunidade, seja do contexto econômico ou da própria circunstância, como acúmulo de capital e perspectiva de crescimento.
enquanto isso...
…Blog acompanha
dia a dia
Além das atualizações mensais no jornal impresso, o projeto Minha vida de empresário contará com o blog de mesmo nome, onde as novidades sobre os negócios serão noticiadas regularmente. Lá será possível acompanhar a evolução detalhada de cada um dos empreendimentos e ainda ter acesso a novidades do mercado de micro e pequenas empresas. O blog contará também com a sessão Palavra de especialista, na qual, a cada 15 dias, serão postados artigos produzidos sobre temas diversos. O primeiro deles trará dicas, alternativas e estratégias que os empresários poderão adotar no
período de férias escolares, que começa em uma semana.
Para manter as portas abertas
Sobreviver aos dois primeiros anos é o primeiro passo para a consolidação do negócio. Isso porque é durante esse período médio que os empresários devem ter em mente que trabalharão para pagar os primeiros investimentos. “O aporte inicial será amortizado aos poucos. Não se abre a porta hoje e começa a lucrar no outro dia”, afirma Carlos Alberto dos Santos, do Sebrae.
Os alertas para engrenar no setor não param por aí. O gerente de Educação e Empreendedorismo do Sebrae-MG, Ricardo Pereira, chama a atenção para a necessidade de entender o mercado, que envolve as atividades da empresa, saber o que o público deseja e, principalmente, o planejamento do negócio. “É preciso filtrar as informações, pesquisar sobre os fornecedores e saber sobre a cadeia produtiva para ter noção do impacto que ela tem em sua empresa”, explica Ricardo. “Por menor que seja o negócio, outros setores sempre têm impactos sobre ele, seja com o aumento do dólar ou com qualquer outra alteração econômica”, acrescenta.
Uma boa gestão, segundo especialistas, considera ainda estratégias de marketing, um fluxo de caixa controlado, mas também passa pela criatividade e inovação. “Quem quer ter salão de beleza não tem que saber apenas cortar o cabelo, mas também se preparar para administrar o salão, pensar em novos produtos e em oferecer atendimento e serviço que sejam diferentes dos demais”, exemplifica Ricardo. Entre as dificuldades mais frequentes está a burocracia, juros altos, localização errada e concorrentes. “Quem se prepara tem todas essas informações antes de abrir o negócio e saberá onde está a burocracia, vai estudar a concorrência, se capitalizar para pagar os juros e pesquisar a área onde pretende se instalar”, diz.
A supervisão de uma boa contabilidade, que dê o caminho das pedras principalmente quando o assunto é tributação, também deve ser considerada. “É importante saber quais serão os encargos, se terá funcionários ou não. Ter em mente também quanto se pretende vender e quanto tem que faturar ao mês, além de um fluxo de caixa, é fundamental”, pondera o presidente do Conselho Empresarial da Micro e Pequena Empresa da Associação Comercial de Minas Gerais (ACMinas), Edvar Dias Campos.
Já a sociedade, recorrente na maioria dos participantes da série, se destaca para Pereira como uma boa oportunidade de profissionalizar a empresa. Segundo ele, o empresário que desempenha boa função, mas falha na execução de outra, poderá optar pela sociedade como forma de “colocar as pessoas certas nos lugares certos”. “No primeiro ano de funcionamento, o micro e pequeno empresário vira o faz-tudo da empresa, mas ninguém consegue fazer tudo sozinho. Por isso, um sócio se apresenta como uma boa alternativa. Além de dividir os custos e problemas, eles podem buscar alguém que seja bom nas suas deficiências e que traga competitividade para a empresa”, considera. (CM e PT)
4 milhões em ação
Carolina Mansur, Paula Takahashi e Luiz Ribeiro
Os 13 micro e pequenos empresários que estão abrindo as portas de seus empreendimentos compartilham com outros 4 milhões de brasileiros que vivem a mesma situação de dar os primeiros passos no próprio negócio. As dúvidas, desafios, impasses e aprendizados se assemelham. Seja na rua ou nos shoppings da capital ou ainda no interior do estado, a rotina dos novos empreendedores segue caminhos parecidos. Dificuldade em encontrar o ponto ideal ou fornecedores adequados, superar os atrasos de obras, selecionar o mix de produtos e garantir capital de giro para o início das operações estão entre os relatos mais comuns.
Durante os próximos 12 meses as experiências de cada um deles serão relatadas pelo projeto Minha vida de empresário do, Estado de Minas, como forma de personificar neste grupo de personagens a saga de milhões de brasileiros. Saiba quem são eles, em que momento está o negócio e os desafios que enxergam para os próximos meses.
