Desde que assumiu o Ministério do Turismo, Gustavo Feliciano afirma que o setor brasileiro “virou a chave” e alcançou um novo patamar de desenvolvimento. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, o ministro apresenta números recordes de chegadas internacionais, gastos de estrangeiros e emprego formal no turismo, detalha os investimentos em Minas Gerais — com destaque para o Fungetur e obras de infraestrutura — e aponta os caminhos para consolidar o país como potência turística mundial, inclusive com a meta de superar 10 milhões de turistas internacionais por ano. A seguir, a íntegra da conversa.
1. Desde que assumiu o Ministério do Turismo, qual é o balanço que o senhor faz da sua gestão até aqui? Quais foram os principais avanços e quais metas ainda estão longe de serem alcançadas?
O balanço é extremamente positivo, o turismo brasileiro virou a chave e alcançou um novo nível de desenvolvimento. Fechamos 2025 com a marca inédita de 9,2 milhões de turistas internacionais e estamos mantendo esse ritmo forte em 2026, somando 7,09 milhões de chegadas de estrangeiros até setembro, mantendo o patamar recorde registrado no mesmo período de 2025. Além disso, esses visitantes não estão apenas vindo mais ao Brasil, como também gastando mais no país. De janeiro a agosto, eles deixaram R$ 38,7 bilhões na nossa economia, o maior resultado da história para o período.
No mercado interno, o fluxo também segue em patamares nunca vistos. Registramos, pela primeira vez, 68,3 milhões de brasileiros voando pelo país nos primeiros oito meses de 2026. E essa força se reflete diretamente no mercado de trabalho: alcançamos, em agosto deste ano, um estoque total recorde de mais de 2,42 milhões de trabalhadores formais empregados no turismo brasileiro. Trabalhamos para que os resultados positivos cheguem na ponta, fortalecendo o pequeno comerciante, a pousada familiar, o guia de turismo e o comércio dos municípios do interior.
2. Quanto o Ministério do Turismo já investiu em Minas Gerais durante a atual gestão? Quais áreas e projetos receberam os maiores recursos?
Um dos nossos compromissos prioritários é democratizar o acesso a crédito por meio do Fungetur (Fundo Geral de Turismo), que proporciona financiamentos em condições especiais para capital de giro, obras e a aquisição de equipamentos. E isso se aplica a Minas: de janeiro a setembro, viabilizamos quase 140 contratos do Fungetur no estado, totalizando um investimento de R$ 46 milhões – volume mais de duas vezes superior ao registrado no mesmo período de 2025.
E mais de 96% desse montante em Minas contemplou micro, pequenas e médias empresas, evidenciando a atenção aos que operam na ponta. Inclusive, de forma inédita, a partir deste ano, estendemos o Fungetur aos MEIs (Microempreendedores Individuais) inscritos no CadÚnico e no Cadastur. Eles contam com até R$ 21 mil para a compra de equipamentos, pequenas obras e com orientação do Sebrae para elaborar as propostas de crédito aos agentes financeiros credenciados do Fungetur. Além disso, graças à cobertura do Fundo de Garantia de Operações (FGO), por meio do Programa Acredita no Primeiro Passo do Ministério do Desenvolvimento Social, os MEIs ficam dispensados de apresentar garantias dos financiamentos.
É importante ressaltar que, para acessar o Fungetur, todo empreendedor deve estar inscrito no Cadastur. O registro é online e gratuito, por meio do portal www.cadastur.turismo.gov.br. Com o registro ativo, basta procurar os agentes credenciados em Minas, que são o BDMG, o BNB, a Cresol Sicoper e a Cresol Baser, além da Caixa Econômica Federal, do SICOOB, do Sicredi e do Banco Moneo, que atuam com o Fungetur nacionalmente.
3. O Brasil ainda busca superar a marca de 10 milhões de turistas internacionais por ano. O que precisa ser feito para alcançar esse patamar e, principalmente, para aumentar a permanência e os gastos desses visitantes no país?
Com todos os recordes que temos batido no turismo, superar a marca dos 10 milhões de turistas internacionais se tornou uma meta alcançável. Para posicionar o país de forma competitiva no cenário internacional e ampliar tanto a atração quanto a permanência de visitantes, estamos empreendendo um grande esforço de projeção da nova imagem do Brasil no exterior. Isso acontece por meio do Plano Brasis, o Plano Internacional de Marketing Turístico do país, e da nossa presença marcante nos principais eventos globais do setor.
Queremos mostrar ao mundo um Brasil diverso, sustentável e acolhedor, atraindo não apenas novos visitantes, mas também investimentos estrangeiros. A conectividade aérea é outra espinha dorsal dessa expansão. Nesse sentido, tivemos um avanço importante com o recente acordo de liberalização aérea firmado na América do Sul, que vai simplificar rotas e reduzir entraves regulatórios. Paralelamente, atuamos para captar novos voos diretos de mercados estratégicos, como a China.
4. Com a continuidade do governo Lula para um possível quarto mandato, quais projetos e propostas do Ministério do Turismo que ainda não foram implementados deverão ser retomados ou sair do papel? Há novas prioridades para a próxima etapa da gestão?
O que eu posso afirmar com absoluta convicção é que, sob a liderança do presidente Lula, o turismo deixou de ser uma pauta secundária e assumiu um papel central na agenda estratégica de desenvolvimento econômico e social do país. Estruturamos políticas públicas sólidas, reaproximamos o Governo Federal da iniciativa privada – com a reinstalação e a ampliação do Conselho Nacional de Turismo (CNT), que participa da definição dos rumos do setor no Brasil – e criamos ferramentas eficientes para fortalecer nossos destinos turísticos e apoiar os empreendedores de todas as regiões brasileiras.
A nossa atuação é guiada por uma diretriz muito clara, estabelecida no Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024–2027. Já colocamos em prática várias ações decisivas para modernizar a infraestrutura turística dos municípios, expandir a conectividade aérea e democratizar o acesso ao crédito produtivo, entre outras iniciativas. Temos as condições ideais para acelerar investimentos estratégicos e consolidar o Brasil definitivamente como uma potência turística mundial.
5. O setor de cruzeiros tem forte impacto na economia e na geração de empregos, mas a operação no Brasil ainda é concentrada na temporada de verão. O Ministério do Turismo trabalha para viabilizar uma operação de cruzeiros durante todo o ano? Quais seriam os principais entraves para isso?
O Ministério do Turismo mantém um canal de negociação contínuo com as companhias marítimas, a Clia Brasil e toda a cadeia produtiva do segmento. Essa interlocução permanente é fundamental para mapear obstáculos e trabalhar diretamente junto a outros órgãos do Governo Federal para articular soluções integradas que aprimorem as condições do mercado brasileiro e a sua competitividade no cenário global.
Nosso empenho busca garantir uma operação mais eficiente, custos mais competitivos e uma experiência inesquecível aos passageiros. O Brasil lidera o segmento de cruzeiros na América do Sul e vem discutindo estratégias com países vizinhos, como Uruguai e Argentina, para manter o fluxo de navios permanente na região. Viabilizar cruzeiros durante todo o ano significa transformar uma atividade sazonal em fonte de receita, emprego e movimentação das economias das cidades portuárias e do seu entorno.
6. Quais foram os maiores investimentos realizados pelo Ministério do Turismo em Minas Gerais nos últimos anos? O que já foi entregue, quais projetos estão em andamento e quais ainda enfrentam dificuldades para sair do papel? É possível detalhar os valores e os resultados desses investimentos?
Além do crédito via Fungetur, o Ministério tem feito investimentos robustos no aprimoramento da infraestrutura turística de Minas. Isso já se reflete em um volume expressivo de obras concluídas no território mineiro. Desde 2023, viabilizamos a conclusão de mais de 150 projetos turísticos em cerca de 125 municípios do estado, totalizando quase R$ 100 milhões em aportes. Entre elas, a construção do Centro de Eventos de Araguari (R$ 3,5 milhões) e a aquisição de equipamentos para o Centro de Convenções de Montes Claros (R$ 3 milhões).
Atualmente, Minas Gerais possui uma das maiores carteiras de obras de infraestrutura turística do país, com aproximadamente 225 contratos ativos, que incluem a revitalização de orlas fluviais, a pavimentação do acesso a atrativos e sinalização turística, entre outros projetos. Todo esse trabalho tem como objetivo melhorar a receptividade do estado e favorecer o devido aproveitamento do potencial mineiro de encantar os visitantes dos seus destinos.
7. Um dos principais gargalos para o desenvolvimento do turismo em Minas Gerais é a infraestrutura de acesso, especialmente a qualidade das rodovias. Na avaliação do Ministério, o que precisa ser feito para melhorar a conectividade dos destinos mineiros? A ampliação da aviação regional e a retomada de projetos ferroviários voltados ao turismo poderiam fazer parte dessa estratégia?
A aviação desempenha um papel estratégico no encurtamento de distâncias em Minas. Para alavancar esse modal, tivemos recentemente a renovação do “Conheça o Brasil: Voando”, uma parceria entre o Ministério do Turismo, o Ministério de Portos e Aeroportos e as próprias companhias aéreas. A nova etapa dessa iniciativa busca justamente expandir rotas internas e criar novas frequências ligando as capitais e grandes hubs a aeroportos do interior. Além disso, o Governo Federal definiu critérios para que recursos do FNAC (Fundo Nacional de Aviação Civil) subsidiem o transporte aéreo regional, o que também vai impulsionar essa atividade.
Paralelamente, o resgate do turismo ferroviário surge como uma oportunidade extraordinária de diversificar a oferta de atrativos locais e valorizar a memória cultural de Minas. Todas essas frentes estão contempladas no Programa de Mobilidade e Conectividade Turística, um dos pilares estratégicos do Plano Nacional de Turismo (PNT) 2024–2027. O plano estabelece diretrizes claras para interligar diferentes modais e otimizar o fluxo de passageiros nos destinos nacionais, favorecendo a movimentação de visitantes brasileiros e estrangeiros no país.
8. Minas Gerais tem uma enorme diversidade de destinos, mas muitos ainda não conseguem transformar seu potencial turístico em fluxo permanente de visitantes e geração de renda. O que o Ministério pretende fazer para ajudar o estado a estruturar novos destinos e distribuir melhor os benefícios do turismo pelo interior?
Minas possui destinos consolidados e que mantêm um grande fluxo de visitantes durante todo o ano, como as suas Cidades Históricas, a exemplo de Ouro Preto; a região serrana de Monte Verde e a própria capital Belo Horizonte, que se firma cada vez mais como um polo de gastronomia, cultura e eventos. Para que outros municípios alcancem esse mesmo nível, o caminho é trabalhar de forma profundamente integrada. Dos mais de 850 municípios mineiros, 630 já estão no Mapa do Turismo Brasileiro, sistema do Ministério do Turismo que orienta a definição de políticas públicas no setor. Essa articulação regionalizada permite que cidades vizinhas somem atrativos para estruturar roteiros conjuntos. Dessa forma, oferecemos ao visitante mais motivos para estender a sua permanência, movimentando vários circuitos.
Também estamos promovendo um extraordinário avanço na inteligência de dados do ramo com a Pesquisa Nacional de Demanda Turística. Em Minas, as cidades de Belo Horizonte e de Extrema foram selecionadas para integrar esse estudo inédito, que vai traçar o perfil do visitante dos destinos nacionais e gerar um diagnóstico preciso para orientar outras ações de fortalecimento do turismo. Outro marco de grande projeção do estado é a disputa de duas localidades mineiras – Conceição de Ibitipoca e Delfinópolis – pelo prêmio de “Melhores Vilas Turísticas do Mundo” da ONU Turismo. Esse reconhecimento internacional reforça que o interior de Minas guarda joias de valor inestimável, combinando uma rica identidade comunitária e turismo sustentável de altíssimo padrão.
9. O custo elevado de hospedagem, transporte e serviços é apontado como um obstáculo à competitividade de alguns destinos brasileiros. Que políticas públicas podem ajudar a reduzir esses custos sem comprometer a qualidade dos serviços e a sustentabilidade dos empreendimentos?
O papel do Governo Federal é atuar para criar um ótimo ambiente de negócios. Nesse cenário, a nova Lei Geral do Turismo, de 2024, representa um divisor de águas histórico. Essa legislação trouxe benefícios a exemplo da regulamentação da cobrança de diárias de hotéis, proporcionando a padronização de procedimentos. Outra conquista foi a adoção da Ficha Nacional de Registro de Hóspedes (FNRH) digital. A digitalização do check-in elimina papeladas e burocracias desnecessárias, agiliza a recepção, reduz custos administrativos para os meios de hospedagem e aprimora drasticamente a experiência do viajante.
Outra importante ação é o próprio acesso a crédito via Fungetur. Quando o empreendedor consegue obter recursos de forma barata e desburocratizada, ele melhora a sua eficiência operacional e ganha fôlego para praticar preços mais competitivos. Também trabalhamos para estimular viagens no país durante todo o ano, o que ajuda a combater efeitos da sazonalidade e a reduzir custos ao longo dos meses do ano.
10. Minas Gerais tem patrimônio histórico, gastronomia, natureza, cultura e turismo de experiência, mas ainda recebe uma parcela pequena dos turistas estrangeiros que chegam ao Brasil. Existe uma estratégia específica do governo federal para promover Minas Gerais no mercado internacional?
Minas Gerais, assim como todos os estados e o Distrito Federal, possuem ações customizadas no Plano Brasis, a diretriz internacional de marketing do nosso país. O plano orienta a projeção da imagem mineira exatamente a partir dos seus maiores ativos: o patrimônio histórico e arquitetônico, a gastronomia reconhecida mundialmente, o ecoturismo e a rica oferta cultural.
Na prática, as ações do Plano Brasis para Minas já estão tendo impacto nos mercados internacionais. Em uma parceria entre a Embratur e a empresa aérea TAP, por exemplo, foi realizada uma press trip com jornalistas portugueses para apresentar atrativos de Belo Horizonte, Ouro Preto e o Museu do Inhotim, em Brumadinho. Em outra frente, a Embratur e o Sebrae promoveram uma famtour com importantes operadores de turismo do Reino Unido, da França e dos Países Baixos, que vivenciaram de perto os roteiros de ecoturismo e gastronomia de Ibitipoca.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Portugal, Estados Unidos e Argentina são hoje os principais países emissores de turistas ao território mineiro. Nossa estratégia é intensificar campanhas publicitárias, a participação em eventos globais e rodadas de negócios nesses mercados. Estamos colocando Minas Gerais nas principais prateleiras do turismo mundial e vamos converter toda essa exposição em mais visitantes, empregos e desenvolvimento socioeconômico para todas as regiões do estado.
