Uma montanha de 60 mil toneladas de roupas no deserto do Atacama revela um lado pouco visto do consumo têxtil, e o impacto vai além das peças que ninguém usou
Acúmulo de roupas no deserto chileno atrai olhares do espaço e reforça a importância de hábitos mais conscientes na hora de comprar e vestir
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Cerca de 60 mil toneladas de roupas estão acumuladas no deserto do Atacama, no norte do Chile, nas proximidades de Alto Hospicio. O depósito ocupa uma área equivalente a centenas de campos de futebol em uma das regiões mais secas do planeta. A dimensão do monte permite que ele seja visto diretamente do espaço.
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Registros feitos a partir do aplicativo de imagens SkyFi revelam a mancha têxtil sobre a terra ocre. De acordo com o jornal "20 minutes", os itens incluem peças usadas e modelos não vendidos originários da Europa, da Ásia e da América do Norte. As Nações Unidas classificaram o cenário como uma "urgência ambiental e social para o planeta".

Origem e descarte ilegal de marcas
Levantamentos realizados pela ONG Ek? e pelo coletivo chileno Desierto Vestido constataram a presença de botas de esqui, casacos natalinos e produtos com etiquetas intactas. As organizações identificaram itens de fabricantes variados:
Zara, H&M e Hugo Boss
Adidas, Nike e Under Armour
Levi’s, Tommy Hilfiger e Old Navy
Os produtos encontrados ilustram a diversidade das cargas que chegam ao local, sem representar responsabilidade jurídica definida por empresa. O porto franco de Iquique movimenta anualmente entre 120 mil e 180 mil toneladas de peças de segunda mão. Uma fatia abastece mercados da América Latina, mas o excedente sem custeio para descarte termina descarregado ilegalmente no deserto.
Impactos no solo e no consumo
Os primeiros registros da área começaram a circular em 2020. Dados do Parlamento Europeu revelam que cada cidadão da União Europeia adquire 26 quilos de artigos têxteis ao ano e descarta 11 quilos. A montanha no Chile equivale às compras anuais feitas por mais de 2 milhões de europeus, volume que supera a população de Paris intra-muros.
Incêndios recorrentes atingem o material no local, gerando poluição no ar, na terra e em lençóis freáticos. Bastian Barria, fundador do Desierto Vestido, relatou que as queimadas deixam uma camada escura semelhante a petróleo solidificado. Tecidos sintéticos como o poliéster demoram para se decompor, o que transfere os danos tóxicos para o subsolo ou para a atmosfera.
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A revista "National Geographic", mencionada pelo "20 minutes", aponta que um caminhão de roupas usadas é jogado fora ou queimado a cada segundo no mundo. O programa de observação Copernicus, da Agência Espacial Europeia, confirmou o aumento constante do lixão. Prolongar o uso das peças, revendê-las ou entregá-las em postos de coleta reduz o montante encaminhado a esses portos.