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Piñatex, Vegea e o futuro da moda: como frutas estão substituindo o couro e reduzindo o impacto ambiental

Moda circular: descubra como o couro de frutas de abacaxi, uva e maçã, como Piñatex e Vegea, reduz CO2 e revoluciona a moda sustentável

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A ideia de transformar restos de frutas em couro está deixando de ser experimento de laboratório e ganhando espaço em coleções de moda no mundo todo. No centro desse movimento está a moda circular, que busca prolongar o ciclo de vida dos materiais e reduzir o desperdício em cada etapa da cadeia têxtil. Em vez de descartar cascas, talos e bagaço de frutas como abacaxi, uva e maçã, novas tecnologias convertem esses resíduos em tecidos biobaseados com aparência e desempenho semelhantes ao couro tradicional.

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Esse processo acompanha uma mudança mais ampla na forma como o setor da moda enxerga recursos naturais. Em vez da lógica linear extrair, produzir, consumir e jogar fora cresce a adoção de um modelo em que resíduos se tornam matéria-prima novamente. Nesse cenário, o chamado couro de frutas surge como um exemplo concreto de como a economia circular pode funcionar na prática, conectando agricultura, indústria têxtil e inovação ambiental.

O que é economia circular na moda e por que o couro de frutas importa?

A economia circular, aplicada à moda, propõe que roupas, acessórios e materiais sejam pensados desde o início para gerar o mínimo de perda possível. Isso inclui desenhar produtos duráveis, facilitar reparos, incentivar a revenda e, principalmente, transformar sobras de produção em insumos para novos itens. No caso do couro de frutas, resíduos agrícolas que normalmente iriam para lixões ou compostagem controlada passam a alimentar cadeias produtivas de alto valor agregado.

Essa lógica contrasta com o volume de resíduos da moda tradicional, que ainda consome grandes quantidades de água, energia e matérias-primas virgens. Ao incorporar fibras e biopolímeros extraídos de frutas, o couro vegetal de base biológica reduz a pressão sobre rebanhos, diminui áreas dedicadas à pecuária e evita parte das emissões associadas ao desmatamento. Para o agricultor, abre-se também uma oportunidade de renda adicional com partes da colheita que antes não tinham valor comercial relevante.

Do abacaxi ao design: o Piñatex transforma folhas descartadas em uma alternativa sustentável ao couro – Wikimedia Commons/John Cummings

Como é produzido o couro de frutas na moda circular?

A fabricação do couro de frutas varia conforme o tipo de matéria-prima e a tecnologia utilizada, mas segue um princípio comum: aproveitar o máximo possível da biomassa descartada para criar um material resistente, flexível e visualmente atrativo. Em geral, o processo começa na seleção e trituração dos resíduos orgânicos, que podem incluir cascas de abacaxi, sementes e bagaço de uva, além de restos de maçã provenientes da indústria de sucos e polpas.

Depois da secagem, esses resíduos são misturados com ligantes, resinas de origem vegetal e, em alguns casos, pequenas frações de polímeros sintéticos para garantir estabilidade mecânica. A massa resultante é espalhada em lâminas, prensada e tratada para ganhar textura, espessura e cor. O objetivo é obter um tecido ou lâmina com comportamento semelhante ao couro bovino: resistente à tração, com toque agradável e boa durabilidade para ser usado em bolsas, calçados, jaquetas e estofados.

  • Abacaxi: fibras do abacaxi são especialmente valorizadas pela resistência e pela estrutura alongada, que proporciona firmeza ao material final.
  • Uva: bagaço e sementes trazem pigmentos naturais e uma base rica em polifenóis, que podem ajudar no acabamento.
  • Maçã: resíduos da prensagem industrial são aproveitados como polpa, dando corpo e maleabilidade às lâminas.

Quais tecnologias e marcas já produzem couro de frutas?

Algumas empresas se tornaram referência nesse segmento e ajudam a consolidar o couro de frutas na moda circular global. Um dos exemplos mais citados é o Piñatex, desenvolvido pela empresa Ananas Anam, que utiliza folhas de abacaxi descartadas após a colheita. O material resultante é vendido em rolos para marcas de moda, que o aplicam em tênis, jaquetas, bolsas e até estofados automotivos.

Outro destaque é o Vegea, couro de uva criado na Itália a partir de bagaço remanescente da indústria vinícola. Essa biomassa, que inclui cascas, sementes e engaços, é combinada a ligantes e passa por uma série de tratamentos para dar origem a um material flexível e com diferentes possibilidades de textura. Grandes grifes internacionais já anunciaram coleções cápsula usando Vegea em acessórios e detalhes de roupas.

No caso da maçã, o chamado apple leather é produzido por empresas como a Frumat e outras fabricantes parceiras, que trabalham com resíduos das indústrias de suco e compotas. Marcas de calçados e de artigos de luxo vêm incorporando esse material em linhas específicas, voltadas a consumidores interessados em inovação e redução de impacto ambiental.

Benefícios ambientais em comparação ao couro animal e sintético

Os benefícios ecológicos do couro de frutas se tornam mais visíveis quando comparados ao couro animal e ao couro sintético tradicional. A produção de couro bovino envolve a criação de gado, o que está associada a emissões de gases de efeito estufa, uso intensivo de água e possível conversão de áreas naturais em pastagens. Além disso, o curtimento convencional utiliza, em muitos casos, compostos à base de cromo, que demandam gestão cuidadosa para evitar contaminações.

Já o couro sintético mais comum, feito de PVC ou poliuretano (PU), depende integralmente de derivados de petróleo. Embora não envolva animais, esse tipo de material gera preocupações quanto à emissão de microplásticos, dificuldade de reciclagem e pegada de carbono ligada à indústria petroquímica. Em ambos os casos, o descarte ao fim da vida útil costuma ocorrer em aterros ou incineradores.

Ao empregar resíduos de abacaxi, uva e maçã, o couro de frutas contribui para:

  • Redução de emissões de CO2, ao aproveitar biomassa já existente em vez de exigir mais criação de gado ou produção petroquímica.
  • Economia de água, uma vez que a produção agrícola primária já foi realizada para fins alimentares e não exclusivamente para gerar matéria-prima têxtil.
  • Diminuição de resíduos orgânicos, evitando a decomposição descontrolada em aterros, que pode liberar metano, outro gás de efeito estufa.
  • Menor dependência de químicos pesados em comparação aos processos tradicionais de curtimento.
  1. Coleta de resíduos de frutas em fazendas e indústrias alimentícias.
  2. Processamento mecânico e químico com uso de biopolímeros.
  3. Produção de lâminas prontas para a confecção de produtos de moda.
  4. Reintrodução do material em ciclos de reciclagem ou compostagem, dependendo da formulação.
Inovação circular em prática: o Piñatex mostra como resíduos agrícolas podem virar matéria-prima de moda – Wikimedia Commons/John Cummings

O futuro da indústria têxtil: o couro de frutas vai escalar?

Embora o couro de frutas já esteja em vitrines e passarelas, o desafio agora é ampliar o volume de produção e reduzir custos para atingir o consumo de massa. A escalabilidade depende de fatores como disponibilidade estável de resíduos, avanço em tecnologias de biopolímeros e investimento em infraestrutura industrial capaz de competir com fornecedores tradicionais de couro e sintéticos.

Especialistas apontam que a integração entre agronegócio, indústria da moda e centros de pesquisa tende a acelerar esse processo. À medida que grandes marcas firmam contratos de longo prazo com fabricantes de materiais biobaseados, a demanda estimula a melhoria de processos, a diversificação de linhas e o desenvolvimento de misturas com maior conteúdo renovável e potencial de reciclagem.

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Para o público geral, esse movimento amplia as opções de consumo, oferecendo produtos que combinam design, funcionalidade e menor impacto ambiental ao longo do ciclo de vida. O couro de abacaxi, de uva e de maçã não elimina, por si só, os problemas estruturais da moda, mas indica um caminho em que resíduos ganham novo significado e a moda circular deixa de ser apenas conceito para se consolidar como prática cotidiana na indústria têxtil.

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