O 'turista prateado' merece valor

Em busca do tempo perdido: geração 60+ quer viajar mais

Pesquisa inédita revela que 74% dos brasileiros acima dos 60 não se sentem contemplados pelo turismo — apesar de viajarem mais, gastarem alto e valorizarem autonomia acima de tudo

Publicidade
Carregando...

Existe um momento em que a viagem muda de natureza. Deixa de ser fuga, status ou checklist de destinos e passa a ser, sobretudo, afirmação. Uma forma silenciosa e potente de dizer: ainda estou aqui, ainda escolho, ainda me desloco. Foi exatamente esse território que a pesquisa inédita “Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60” decidiu mapear com precisão e sensibilidade.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Conduzida pela consultoria data8, em parceria com o Expo Fórum de Turismo 60+ e com apoio do Ministério do Turismo, o estudo ouviu 1.012 brasileiros com 60 anos ou mais em todas as regiões do país. O que emerge não é apenas um perfil de consumidor. É um retrato de uma geração que, finalmente, tem tempo — e que insiste em usá-lo para se mover.



O tempo como luxo (e como poder)


Enquanto o Brasil ainda discute, com certo atraso, o que fazer com o envelhecimento populacional, essa parcela da sociedade já está agindo. São 35,2 milhões de pessoas com 60 anos ou mais (16,6% da população, segundo o IBGE de 2025). Se ampliarmos o olhar para os 50+, chegamos a cerca de 61 milhões de brasileiros — quase 28% do país — que já movimentam R$ 1,8 trilhão em consumo. A projeção para 2044 é de R$ 3,8 trilhões.


Dentro desse universo, o turismo ocupa um lugar privilegiado. Mais da metade dos entrevistados (52%) realiza pelo menos três viagens por ano. Um em cada três gasta no mínimo R$ 10 mil anuais com deslocamentos. Quase todos (96%) pagam as próprias contas — sozinhos ou dividindo com o cônjuge. O parcelamento no cartão é a ferramenta preferida de 73%. E 87% têm a liberdade que muitos mais jovens ainda não conquistaram: flexibilidade de datas.


Há algo profundamente político nessa autonomia financeira e temporal. Viajar, para 61% deles, é uma forma de preservar a independência. Não se trata apenas de lazer. É um gesto de soberania sobre a própria vida.


O que eles querem (e o que o mercado ainda não entrega)



Turismo sênior ganha força no Brasil e impulsiona setor de viagens

Turismo sênior ganha força no Brasil e impulsiona setor de viagens Uai Turismo


A pesquisa revela um desejo simples e, ao mesmo tempo, radical: a liberdade de fazer escolhas no próprio ritmo. Essa foi a resposta de 59% dos entrevistados quando perguntados sobre a viagem ideal. Em seguida vêm segurança e previsibilidade (50%) e conforto físico e emocional (48%).


Não é coincidência que a praia continue liderando as preferências (72%), seguida por cidades históricas (42%) e destinos de campo e montanha (34%). Há, nesses números, uma busca por experiências que permitam respirar — no sentido literal e metafórico.


Mas o que o estudo também expõe, com clareza quase cruel, é o descompasso. Apenas 26% sentem que as viagens são realmente pensadas para eles. Três em cada quatro relatam que o setor ainda não os enxerga de verdade. As reclamações são específicas: atendimento impaciente ou despreparado, excesso de automatização sem suporte humano, roteiros cansativos, infraestrutura que ignora corpos que já não correm como antes.


É como se o turismo tivesse construído um mundo para um viajante idealizado — jovem, ágil, sempre conectado, sempre apressado — e se esquecido de que a vida continua depois dos 60. E continua com mais lucidez, mais tempo e, muitas vezes, mais desejo de presença.


Gênero, companhia e a arte de estar juntos (ou sozinhos)


Os dados de companhia também contam histórias. A maioria viaja com o cônjuge (56%). Entre os homens, o modelo a dois é ainda mais forte. Já as mulheres revelam uma diversidade maior: 17% viajam sozinhas, 23% com amigas, 31% com filhos ou netos. Depois dos 70, quase um em cada cinco já se lança sozinho pela estrada.


Há, aqui, uma nuance generosa e pouco falada: a velhice não é necessariamente solidão. Pode ser redescoberta de amizades, de vínculos intergeracionais ou, simplesmente, de uma companhia consigo mesmo que se tornou possível.


Destinos que já escutam (e outros que precisam aprender)


Enquanto o mercado ainda se adapta, alguns lugares no Brasil já construíram uma relação mais atenta com esse público. As estâncias termais — Águas de Lindóia, Águas de São Pedro, Caldas Novas, Poços de Caldas — oferecem não apenas águas quentes, mas um ritmo que respeita o corpo. Cidades históricas como Ouro Preto e Paraty convidam a um turismo lento, de contemplação. Gramado, Campos do Jordão e Monte Verde combinam infraestrutura, clima ameno e uma hospitalidade que historicamente já dialoga com a melhor idade. Praias com projetos de acessibilidade e destinos religiosos também aparecem com força nas preferências.


O lançamento do Selo Destino 60+, durante o mesmo fórum que apresentou a pesquisa, é um sinal de que parte do setor começa a compreender a dimensão da oportunidade. A certificação avalia hospitalidade, acessibilidade, nutrição, entretenimento e experiências pensadas para quem já não precisa provar nada a ninguém — apenas viver.


Uma geração que se recusa a ficar parada


O que a pesquisa “Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60” finalmente torna visível é que o envelhecimento brasileiro não é apenas um desafio demográfico. É uma transformação cultural e econômica em curso. Uma geração que, depois de décadas de trabalho, descobriu que o tempo restante pode ser tempo de movimento.


Eles não viajam apesar da idade. Viajam porque a idade, finalmente, lhes deu a possibilidade de escolher o ritmo, o destino e o sentido da jornada.


O turismo brasileiro agora tem uma escolha: continuar a tratar esse público como um nicho secundário, ou reconhecer que, em muitos aspectos, o futuro do setor já tem cabelos brancos, passo mais pausado e uma autonomia que o mercado ainda está aprendendo a respeitar.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Porque viajar depois dos 60 não é sobre escapar da vida. É sobre abraçá-la com mais consciência — e continuar, teimosamente, a se deslocar pelo mundo.


Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay