Astroturismo

Apague as luzes: o céu agora é destino e você precisa olhar as estrelas

O eclipse solar de agosto levou milhões de viajantes à Europa e mostrou como fenômenos astronômicos podem movimentar destinos. A noite ganha espaço como experiência turística, e o Brasil tem enorme potencial

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Por alguns minutos, o dia virou noite em partes da Europa. Em 12 de agosto, um eclipse solar total atravessou a Groenlândia, a Islândia, o norte da Espanha e uma pequena faixa de Portugal, enquanto boa parte do continente acompanhou o fenômeno de forma parcial. O resultado foi um raro espetáculo celeste — e um movimento turístico de grandes proporções. 

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Na Espanha, onde a faixa de totalidade percorreu o país de oeste a leste e alcançou as Ilhas Baleares, a expectativa transformou pequenas cidades e áreas rurais em pontos de observação. Segundo a agência de notícias Reuters, até seis milhões de visitantes foram atraídos para locais preparados para receber o público. Na Islândia, o eclipse também provocou uma corrida de visitantes: o país recebeu até 80 mil pessoas atraídas pelo fenômeno, enquanto óculos e equipamentos para observação chegaram a se esgotar.

Mais do que um espetáculo de alguns minutos, o eclipse mostrou a força do céu como ativo turístico. Hotéis, restaurantes, operadores, cruzeiros, experiências ao ar livre e destinos fora dos grandes circuitos passaram a integrar a viagem de quem decidiu seguir a sombra da Lua.

Quando o céu vira motivo para viajar

O fenômeno de agosto também colocou o astroturismo no centro das atenções. O conceito reúne viagens e experiências relacionadas à observação do céu, incluindo estrelas, planetas, constelações, eclipses, chuvas de meteoros e outros eventos astronômicos.

O interesse não é novo. Há quase três mil anos, Homero já descrevia, na Odisseia, a utilização das estrelas como referência para a navegação. Hoje, o viajante não precisa mais do céu para encontrar o caminho — mas começa a viajar justamente para reencontrá-lo.

O eclipse europeu mostrou a dimensão que esse movimento pode alcançar. Em muitos casos, o fenômeno não foi apenas uma atração complementar: tornou-se o motivo principal da viagem.

Na Espanha, autoridades chegaram a mobilizar 25 mil policiais e cerca de 100 aeronaves para apoiar a operação de segurança e atendimento durante o evento. A escala da mobilização dá uma medida de como um acontecimento astronômico pode interferir na dinâmica de destinos inteiros. 

Uma Europa em contagem regressiva

O impacto de agosto, porém, não termina com o desaparecimento da sombra. A Península Ibérica entrou em uma espécie de sequência rara de eventos astronômicos.

A Espanha terá outro eclipse solar total em 2 de agosto de 2027, desta vez com uma faixa que atravessará o sul do país e seguirá pelo norte da África e pelo Oriente Médio. Em 26 de janeiro de 2028, um eclipse anular completará a sequência, com o chamado “anel de fogo” visível em diferentes pontos da Península Ibérica.

É uma oportunidade que começa a ser tratada pelo turismo como um calendário de viagens. Em vez de esperar pelo próximo grande fenômeno, destinos podem criar programação, hospedagem, gastronomia e experiências em torno dele com anos de antecedência.

O céu que as cidades esconderam

O sucesso do eclipse também ajuda a explicar o crescimento do astroturismo. O céu noturno, paradoxalmente, tornou-se um recurso turístico justamente porque está desaparecendo da experiência cotidiana.

A poluição luminosa dificulta a observação das estrelas e afasta das cidades a possibilidade de enxergar a Via Láctea a olho nu. Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas durante o dia cria outro incentivo para explorar destinos depois do pôr do sol.

Trilhas noturnas, observação astronômica, safáris de fauna, experiências gastronômicas ao ar livre e hospedagens em áreas de céu escuro começam a compor uma nova paisagem turística.

A noite deixa de ser apenas o intervalo entre duas atividades e passa a ser parte da experiência.

O Brasil no caminho das estrelas

Imagine observar as Cataratas do Iguaçu sob as estrelas
Imagine observar as Cataratas do Iguaçu sob as estrelas Rodrigo Guerra- Reprodução Urbia Cataratas

Se a Europa acaba de mostrar o poder de mobilização de um eclipse, o Brasil tem outro recurso: um território enorme para desenvolver experiências permanentes de observação do céu.

Um levantamento do IASTRO (Índice de potencial astroturístico dos parques nacionais) indica que 55 dos 75 parques brasieliros avaliados apresentam potencial entre muito bom e excelente para a observação dos astros. O estudo considera fatores como qualidade do céu, ocorrência de noites abertas e condições para receber visitantes interessados em astronomia.

Entre os exemplos estão o Parque Nacional do Catimbau, em Pernambuco, a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e a Serra da Capivara, no Piauí.

No Rio de Janeiro, o Parque Estadual do Desengano tornou-se, em 2021, o primeiro da América Latina a receber a certificação International Dark Sky Park. Desde então, a visitação cresceu mais de 300%, chegando a cerca de 11 mil visitantes por ano.

O dado sugere uma mudança importante: o céu pode deixar de ser apenas cenário para se transformar em atração.

A experiência começa depois do pôr do sol

Em Minas Gerais, a Mantiqueira Ecoturismo já trabalha com o Roteiro Noturno Via Láctea
Em Minas Gerais, a Mantiqueira Ecoturismo já trabalha com o Roteiro Noturno Via Láctea Thaynara Ferreira/Mantiqueira Turismo

Em diferentes regiões do país, empresas associadas da Abeta (Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura) já incorporam a observação do céu a seus roteiros e vivências.

Urbia Cataratas: No Parque Nacional do Iguaçu, a Urbia Cataratas realiza a experiência Céu das Cataratas. Oferecida aos sábados para grupos reduzidos, a atividade combina conhecimentos científicos sobre astronomia com histórias e interpretações da cultura Guarani. 

Ibiti Projeto: Em Minas Gerais, o Ibiti Astros aproxima o conhecimento astronômico de pessoas que desejam compreender melhor aquilo que enxergam no céu. A vivência acontece ao ar livre, nas proximidades das hospedagens do Ibiti Projeto, e é conduzida de maneira leve e acessível. 

Praia Rica Expedições: a empresa trabalha com viagens privativas e personalizadas em territórios de Tocantins e Goiás, incluindo Jalapão, Serras Gerais e Chapada dos Veadeiros. 

Mantiqueira Ecoturismo: Na Serra da Mantiqueira (MG), a Mantiqueira Ecoturismo oferece o Roteiro Noturno Via Láctea. A experiência leva os visitantes a um ponto situado a cerca de 1.700 metros de altitude, afastado das luzes urbanas, para observar estrelas, constelações, planetas e a própria Via Láctea. 

O próximo grande espetáculo

O eclipse de agosto deixou uma mensagem para o turismo europeu e também para o brasileiro. Fenômenos astronômicos podem criar fluxos extraordinários de visitantes, mas o verdadeiro potencial do astroturismo está naquilo que permanece quando o espetáculo termina.

O próximo eclipse lunar ocorrerá entre a noite de 27 de agosto e a madrugada de 28 de agosto de 2026. Será um eclipse parcial visível em todo o Brasil, com o seu auge por volta da 1h12, cobrindo cerca de 93% a 96% do disco lunar e podendo ser observado a olho nu

Para o Brasil, onde grandes áreas naturais ainda estão distantes dos centros urbanos, isso significa transformar a escuridão em patrimônio, experiência e motivo para viajar.

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Na Europa, milhões de pessoas viajaram para acompanhar a sombra da Lua. No Brasil, talvez seja hora de olhar para o outro lado dessa mesma oportunidade: não esperar pelo próximo eclipse, mas aprender a transformar o céu inteiro em destino.

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