Muito antes de influenciadores digitais transformarem destinos em fenômenos turísticos, um escritor brasileiro já fazia milhares de leitores cruzarem continentes em busca de uma experiência que começou nas páginas de um livro. Publicado em 1987, "O Diário de um Mago", de Paulo Coelho, despertou o interesse de pessoas do mundo inteiro pelo Caminho de Santiago, na Espanha.
Agora, quase quatro décadas depois, a história ganhará uma adaptação para o cinema, o que deve colocar novamente a tradicional rota de peregrinação entre os destinos mais desejados pelos viajantes.
O exemplo de Paulo Coelho ilustra uma tendência que ganha força em todo o mundo: viajar inspirado pela literatura. Em vez de escolher um destino apenas pelas praias, monumentos ou gastronomia, cada vez mais pessoas decidem conhecer os lugares que serviram de cenário para romances, biografias e clássicos da literatura.
De acordo com o relatório de tendências de viagens 2026 do Skyscanner, 55% dos viajantes afirmam que já reservaram ou consideraram reservar uma viagem inspirada em um destino retratado em um livro. O levantamento também aponta outro dado significativo: as buscas por hotéis com bibliotecas cresceram 70%, indicando que a leitura deixou de ser apenas um passatempo e passou a fazer parte da própria experiência turística.
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Dos livros para o mundo
O fenômeno não se restringe aos grandes best-sellers da atualidade. Cada vez mais destinos ganham visitantes por terem servido de cenário — real ou imaginário — para obras que marcaram gerações.
Em Paris, leitores percorrem as margens do Sena, cafés e livrarias que aparecem em clássicos como O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, e em romances contemporâneos ambientados na capital francesa.
Na Veneza dos canais e palácios históricos, turistas buscam reviver a atmosfera descrita em obras como Morte em Veneza, de Thomas Mann, além de inúmeros romances históricos e policiais ambientados na cidade italiana.
A Rússia continua atraindo admiradores da literatura de Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói e Boris Pasternak. Caminhar por São Petersburgo ou Moscou significa mergulhar nos cenários de Crime e Castigo, Guerra e Paz e Doutor Jivago, experiências que unem história, arquitetura e literatura.
Já a Índia recebe milhares de visitantes inspirados por Comer, Rezar, Amar, de Elizabeth Gilbert, especialmente em retiros espirituais e destinos voltados ao autoconhecimento. A obra também impulsiona viagens pela Itália e por Bali, na Indonésia, formando um roteiro que mistura gastronomia, espiritualidade e bem-estar.
Nos Estados Unidos, Diário de uma Paixão, de Nicholas Sparks, transformou a Carolina do Norte em destino para casais que desejam conhecer os cenários que inspiraram o romance e sua adaptação para o cinema.
A ascensão dos "readaways"
Entre as novidades está o conceito de readaway, uma combinação entre leitura e escapadas de descanso. A proposta é simples: viajar para lugares tranquilos, reduzir o ritmo acelerado do dia a dia e dedicar tempo à leitura, muitas vezes em meio à natureza ou em cidades históricas.
Ao contrário das viagens tradicionais, marcadas por roteiros intensos e uma sequência de atrações, os readaways valorizam o silêncio, o tempo livre e a contemplação. O objetivo não é visitar o maior número possível de pontos turísticos, mas criar uma conexão mais profunda com o ambiente e com as histórias que inspiraram a viagem.
Essa tendência também impulsiona novos formatos de turismo, como viagens de trem voltadas exclusivamente para leitores, retiros literários e hospedagens que oferecem clubes de leitura, bibliotecas digitais e quartos pensados para quem deseja passar horas imerso em um livro.
Livrarias entram no roteiro dos turistas
As livrarias também passaram a ocupar um lugar de destaque nos roteiros turísticos. Além de espaços históricos como Shakespeare and Company, em Paris, e da centenária Livraria Lello, em Portugal, novas atrações surgem para atender esse público apaixonado por literatura.
Um dos exemplos mais recentes é a Manifesto Library, inaugurada pela cantora Dua Lipa dentro da histórica Livraria Lello, na cidade do Porto. O espaço reúne cerca de cem obras que foram censuradas ou proibidas em diferentes países e nasceu a partir do Service95 Book Club, criado pela artista.
Um dos destaques da Manifesto Library é a presença da literatura brasileira. A biblioteca foi inaugurada tendo "Olhos d'Água", da escritora mineira Conceição Evaristo, como a primeira obra a ocupar suas estantes. A coletânea de contos, referência da literatura contemporânea brasileira, abre um acervo dedicado a livros que já foram censurados ou proibidos em diferentes países, reforçando o papel da literatura como instrumento de liberdade e reflexão. A biblioteca permanente rapidamente entrou para o roteiro de quem visita Portugal e reforça a transformação das livrarias em verdadeiros pontos turísticos culturais.
Viajar mais devagar
O crescimento do turismo literário acompanha um movimento mais amplo do setor: a busca por viagens com significado. Depois de anos marcados por roteiros acelerados e pela necessidade de "ver tudo", muitos turistas passaram a valorizar experiências que proporcionam descanso, bem-estar e conexão cultural.
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Nesse cenário, a literatura deixa de ser apenas inspiração e se transforma em companheira de viagem. Afinal, algumas histórias não terminam quando a última página é virada — elas continuam nas ruas, cafés, bibliotecas e paisagens que deram vida às narrativas, convidando leitores a descobrir que, às vezes, o melhor capítulo de um livro é justamente aquele vivido fora das páginas.
