As benzendeiras são tecelãs do invisível. Não manejam novelos de lã ou fios de seda, mas entrelaçam o sopro da prece ao silêncio da carne enferma. São mulheres que, em cozinhas de terra batida ou sob o telhado de palha, assumem o ofício antigo de costurar o visível ao invisível. Onde o médico vê sintoma, elas veem rasgo. Onde o cientista mede febre, elas sentem a ferida aberta entre o mundo dos homens e o mundo dos espíritos. E é nesse rasgo que elas trabalham, com paciência de quem sabe que toda cura verdadeira é um bordado lento.
O benzimento começa no instante em que a benzedeira coloca as mãos sobre a cabeça ou o peito do doente. Não é gesto de poder; é gesto de entrega. Ela invoca o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mas não como fórmula vazia. São palavras que ela tece com a voz baixa, quase rouca de quem já rezou mil vezes no escuro. Cada “Ave-Maria” é um ponto dado no tecido rasgado da alma. Cada cruz feita no ar é um nó que prende o fio da graça ao fio da dor. Enquanto reza, ela sopra. O sopro não é vento qualquer: é o mesmo que Deus soprou na argila para fazer o homem. É o sopro que ainda carrega o calor do Criador.
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Tear sagrado
Nesse momento, o benzimento se torna tear sagrado. A benzedeira não cura sozinha. Ela é o instrumento. Entre seus dedos calejados passa o fio dourado que liga a terra ao céu. O doente, de olhos fechados, sente o corpo pesado afundar no mundo visível; ao mesmo tempo, algo leve se eleva, como se a alma fosse um pano estendido ao vento divino. A febre que queima a testa é o fogo que purifica o fio. A tosse que rasga o peito é o tear rangendo, ajustando a trama. E quando a benzedeira diz “Em nome de Jesus, sai o mal”, não é exorcismo teatral: é o corte preciso da tesoura celestial que separa o que não pertence àquele corpo.
Muitos acham que benzedeira cura corpo. Engano. Ela cura o esquecimento. Cura o homem que se esqueceu de que é imagem e semelhança. Cura a mulher que carregou cruzes alheias até esquecer o próprio nome. Cura a criança que nasceu com o olhar já cansado de outras vidas. Porque o mal, para ela, nunca é só físico. É desarmonia cósmica. É fio solto no grande tear do Universo. E ela, com paciência de avó e autoridade de sacerdotisa, recolhe esse fio, lava-o com água benta e erva-de-santa-maria, e o devolve à trama maior.
Durante o benzimento, o tempo se suspende. A cozinha vira catedral. O fogão de lenha vira altar. O cheiro de café coado se mistura ao incenso improvisado de arruda e alecrim. E ali, no centro do círculo invisível, a benzedeira e o doente se tornam um só tecido. Ela não pede pagamento. Pede confiança. Pede que o doente se entregue como pano se entrega ao tear. E quando o trabalho termina, ela sopra uma última vez sobre a cabeça inclinada e diz, quase sussurrando: “Agora está costurado. Vá com Deus”.
Mas o fio não se rompe. Ele continua. A benzedeira sabe que a cura não é um ponto final, mas um novo começo da trama. O doente leva consigo um pedaço daquele tecido sagrado invisível — um pedaço que o liga diretamente ao Divino. E a benzedeira, sozinha novamente, senta-se à mesa, acende o cigarro de palha e sorri cansada. Porque ela sabe o segredo que poucos entendem: toda cura é um ato de amor. E todo amor, para ser verdadeiro, precisa ser tecido com paciência, com fé e com o silêncio reverente de quem sabe que, entre o visível e o invisível, só existe um fio. E ela, benzedeira, é a mão que o segura.
Guardiãs benditas
O Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo (MG), inaugurou a exposição temporária “Guardiãs das Palavras Benditas: Benzedeiras do Jequitinhonha”, que apresenta um encontro sensível entre fotografia, bordado e memória, na última quinta-feira (16/4). A mostra reúne obras do fotógrafo Lori Figueiró e da bordadeira, aquarelista e quilombola Aline Gomez Ruas, em uma homenagem poética às rezadeiras e curandeiras do Vale do Jequitinhonha.
Com 52 fotografias bordadas, além de estandartes e aquarelas, a exposição revela o universo simbólico e afetivo das benzedeiras, mulheres que, por meio de rezas, gestos e saberes transmitidos de geração em geração, preservam práticas ancestrais de cuidado. As imagens foram registradas ao longo do vale formado pelas águas do Rio Jequitinhonha e pelas estradas que levam às casas dessas guardiãs de tradições.
Antes de chegar a Cordisburgo, a mostra foi apresentada em Belo Horizonte, em setembro de 2025, no Centro de Arte Popular (CAP), e agora passa a integrar a programação cultural do Museu Casa Guimarães Rosa, ampliando o diálogo entre arte, memória e cultura popular.
O trabalho fotográfico de Lori Figueiró se destaca pela proximidade com os personagens retratados e pela estética que valoriza expressões, gestos e modos de vida do Vale do Jequitinhonha. Fotografando apenas com uma câmera, sem lentes adicionais, o artista constrói uma narrativa visual marcada pela simplicidade técnica e pela intimidade com as pessoas e os lugares que registra.
As imagens ganham novas camadas de sentido com a intervenção de Aline Gomez Ruas, que borda sobre as fotografias e cria aquarelas inspiradas nas histórias dessas mulheres. Seus fios e cores ampliam o olhar sobre as imagens, transformando-as em territórios de memória, afeto e ancestralidade. O gesto de bordar sobre a fotografia cria um diálogo entre o visível e o invisível, costurando narrativas de vida e espiritualidade.
A exposição integra um acervo de memória em expansão, que reúne mais de duas mil fotografias editadas, centenas de fotografias bordadas, além de registros em áudio e mais de cinco horas de vídeos. Esse conjunto forma um verdadeiro relicário de imagens e vozes dedicado a tornar visível o ofício das benzedeiras e a força cultural do Vale do Jequitinhonha.
Ao reunir arte, espiritualidade e tradição, “Guardiãs das Palavras Benditas: Benzedeiras do Jequitinhonha” convida o público a conhecer histórias de mulheres que transformam palavras em cuidado e gestos em cura , guardiãs de saberes que seguem vivos no território e na memória coletiva.
Sobre os artistas
Lori Figueiró, natural de Diamantina, é fotógrafo e poeta com vasta obra dedicada à cultura do Vale do Jequitinhonha. Autor de livros como “Cotidianos no Sagrado do Vale”, “Mulheres do Vale Substantivo Feminino” e “Benzedeiras do Jequitinhonha” (em parceria com Aline Ruas), ocupa a cadeira 25 da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha.
Aline Gomez Ruas é bordadeira, aquarelista e benzedeira, mulher quilombola do Arraial dos Crioulos. Herdeira das práticas de sua mãe e avó, desenvolve bordados e projetos que entrelaçam arte, memória e ancestralidade. Em 2021, criou, junto a Lori Figueiró, o projeto “Guardiãs das palavras benditas”, que vem registrando e celebrando a presença das benzedeiras do Vale.
Serviço:
Exposição “Guardiãs das Palavras Benditas: Benzedeiras do Jequitinhonha”
Período de visitação: Até 14/06
Horário de visitação: Ter a dom, das 9h30 às 17h
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Local: Museu Casa Guimarães Rosa (Rua Padre João, 744 – Cordisburgo/MG)
