Brumadinho ergue-se das entranhas da terra mineira como um grito ancestral que não se cala. Nas veias vermelhas da serra, onde o ferro outrora sangrou a dor e o desastre de 2019 ainda ecoa como um trovão surdo no peito da mãe-terra, nasce hoje um turismo que não explora, mas reverencia. Um turismo que escuta o batuque dos tambores quilombolas, que se curva diante da sabedoria das avós e que devolve à comunidade o que o progresso voraz tentou roubar.


A Rede de Turismo Sustentável, que entrelaça mais de 45 pequenos negócios locais, e o Circuito de Quilombos são finalistas do WTM Latin America Responsible Tourism Awards. Não se trata de mera premiação. É o reconhecimento de que, aqui, o turismo renasce das cinzas — forte, enraizado, inquebrantável. Esses projetos, gestados em articulação profunda com parceiros locais, com o apoio da Rede Terra e da Vale, transformam Brumadinho em farol de um turismo responsável: autêntico, comunitário e ancestral.

Ancestralidade


Nas comunidades quilombolas de Sapé, Rodrigues, Ribeirão e Marinhos, o passado não é museu. É carne viva. É Vó Elza, matriarca do Quilombo do Sapé, sentada sob a grande árvore ao lado do sino da Igreja de São Vicente de Paula. Com as mãos que carregam séculos de resistência, ela serve o café da manhã ancestral: pão de queijo quente, kubu assado na folha de bananeira, biscoitos de polvilho, bolos de milho e banana, queijadinha de mandioca. O aroma sobe como incenso. O café coado na hora, adoçado com garapa, carrega o gosto da terra que resistiu. 


“Somos todos uma família. Que se cuida, protege e acolhe”, diz ela, com a voz que carrega o peso doce das bênçãos de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Ali, o terreiro vira festa. Os abraços apertados curam feridas antigas. O “mar de lágrimas” que um dia fez tremer o chão — lágrimas de luto pelo rompimento da barragem, lágrimas de luta, lágrimas de esperança — agora irriga o solo de onde brotam novas histórias. 

Dona Nair é a responsável por manter viva a história de luta e fé do Quilombo dos Marinhos Carlos Altman/EM
Nova geração faz renascer a esperança que as tradições e os saberes do Quilombo do Sapé será preservada para todo sempre Carlos Altman
Em uma das experiências do catálogo Céu de Montanhas, em Brumadinho, o visitante percorre quilombos e se depara com os cânticos da benzedeira Dona Nair, do Quilombo de Marinhos, tem poder cura Carlos Altman/EM
Xequerê, instrumento musical feito com cabaça, é entoado nas apresentações do Grupo Negro por Negro Carlos Altman/EM
O afroturismo no Quilombo do Sapé, em Brumadinho, é uma oportunidade de conhecer as tradições, a história de luta e a cultura de um povo Carlos Altman/EM
Quilombo dos Marinhos Carlos Altman/EM
Quilombo do Sapé Carlos Altman/EM
Quilombo dos Rodrigues Carlos Altman/EM


O Circuito de Quilombos não oferece passeio. Oferece imersão. É mergulhar na memória viva da diáspora africana que encontrou nestas serras o refúgio da liberdade. É ouvir as narrativas de resistência que ecoam desde o ventre dos navios negreiros até o batuque que ainda chama os orixás. É provar a gastronomia que carrega os saberes das avós, caminhar por trilhas que guardam segredos de cura, sentir o chão pulsar sob os pés como o coração de um povo que nunca se rendeu.

Céu de Montanhas


Essas experiências integram o catálogo Céu de Montanhas, coletânea viva de turismo de base comunitária. Não são produtos. São portais. Portais para um Brasil profundo, onde o pequeno empreendedor não é coadjuvante — é protagonista. Onde a cultura quilombola não é folclore, mas força motriz. Onde o desenvolvimento não devora a terra, mas a reverencia e a regenera.


Brumadinho, ferida aberta e ao mesmo tempo fonte de renascimento, mostra ao Brasil e ao mundo que é possível outro caminho. Um turismo que não extrai, mas devolve. Que não silencia, mas amplifica vozes ancestrais. Que não esquece a dor, mas transforma-a em potência.


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Na quarta-feira, 15 de abril, em São Paulo, durante a WTM Latin America, o mundo voltará os olhos para estas serras. Seja qual for o resultado da premiação, a vitória já está consumada: o povo quilombola de Brumadinho, com sua rede de pequenos sonhadores, reafirma que a ancestralidade não é passado. É o futuro que pulsa, forte, na raiz da terra. Que venham todos. A casa, como diz Vó Elza, sempre estará aberta. E o chão, agora, treme não de dor — mas de vida que renasce.

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