Imagine uma cidade onde os sinos não apenas marcam as horas, mas “falam” com a população. Um repique alegre anuncia uma festa, um toque mais grave avisa um luto, e sequências complexas convocam os fiéis para a missa ou celebram datas importantes. São mais de 40 toques diferentes, organizados em cerca de 20 categorias, que ecoam pelas torres das igrejas há mais de três séculos. Essa é a assinatura sonora de São João del-Rei, carinhosamente chamada de “Cidade dos Sinos” ou “Terra onde os Sinos falam”.
Fundada em 1713, durante o auge do Ciclo do Ouro, a cidade surgiu como Arraial Novo do Rio das Mortes e logo foi elevada à categoria de vila com o nome em homenagem a São João Batista e ao rei de Portugal, Dom João V. Localizada na região do Campo das Vertentes, a cerca de 185 km de Belo Horizonte, São João del-Rei preserva um dos conjuntos arquitetônicos coloniais mais ricos de Minas Gerais, com forte presença do barroco e do rococó mineiro.
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Patrimônio Barroco
17/02/2025. Crédito: Assessoria de comunicação/Prefeitura de São João del-Rei/Divulgação. Recursos que o Iphan destinará a Minas Gerais. Na foto, igreja São Francisco de Assis, em São João del-Rei.
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A Igreja de São Francisco de Assis, projetada por Aleijadinho (com modificações posteriores), é considerada uma das mais belas do barroco brasileiro. Sua fachada rococó, o adro elevado e os sinos que giram em 360 graus encantam os visitantes.
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A Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar, uma das igrejas mais ricas do ciclo do ouro, com interior exuberante em ouro e detalhes impressionantes.
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Outras joias como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (onde funciona o Museu dos Sinos) e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.
Esse conjunto arquitetônico, aliado às ruas de pedra, casarões setecentistas e pontes históricas (como a Ponte do Rosário e a Ponte da Cadeia), faz de São João del-Rei um dos destinos mais completos do Circuito Barroco Mineiro.
Palco da Inconfidência Mineira
Além da beleza, a cidade tem um papel importante na história do Brasil. São João del-Rei foi berço de figuras ligadas à Inconfidência Mineira (1789), como o poeta Alvarenga Peixoto e sua esposa, a poetisa Bárbara Heliodora. Os inconfidentes chegaram a cogitar transformar a cidade na capital da república que sonhavam criar, aproveitando sua importância econômica e estratégica na produção de alimentos e gado.
Embora o movimento tenha sido descoberto e reprimido antes de eclodir em grandes batalhas armadas, a região sentiu os reflexos da conspiração. A cidade também recebeu visitas ilustres no período imperial, como Dom Pedro I (em 1822 e 1831) e Dom Pedro II, que inaugurou a Estrada de Ferro Oeste de Minas em 1881.
Patrimônio imaterial do Brasil
O que torna a cidade de São João del-Rei única é a linguagem dos sinos, registrada como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo IPHAN em 2009. Diferente de um simples badalar, trata-se de um código sonoro complexo, influenciado por tradições europeias, africanas e brasileiras, mantido por sineiros profissionais.
Cada toque tem função específica: anunciar missas, festas, enterros, nascimentos (no passado) ou celebrações cívicas. Há sinos que “conversam” entre si — um agudo, um médio e um grave — criando verdadeiros diálogos musicais. Essa tradição vive até hoje em várias igrejas do centro histórico e pode ser conhecida de perto no Museu dos Sinos (ou Estação dos Sinos), instalado na Igreja do Carmo.
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Quem chega a São João del-Rei sente que o tempo desacelera. O Centro Histórico convida a caminhadas tranquilas, visitas a museus (como o de Arte Sacra e a Casa de Bárbara Heliodora), passeios de Maria Fumaça até Tiradentes e apreciação da culinária mineira.
