Acompanhar "EA Sports FC", o antigo “FIFA”, há tantos anos muda a forma de olhar para cada nova edição. Depois de mais de uma década com a franquia, começo a observar o jogo dentro de uma perspectiva mais ampla, considerando as mudanças apresentadas a cada ano e a relação que a série construiu com os jogadores. O lançamento de uma nova versão envolve a experiência dentro de campo, os conteúdos adicionados e a maneira como o produto permanece presente na rotina de quem acompanha a franquia. Comecei a jogar a série por volta de 2008 e passei a acompanhá-la de forma mais frequente a partir de 2012, no PlayStation 3. Naquele período, a disputa entre "FIFA" e "Pro Evolution Soccer", herdeiro da tradição de "Winning Eleven", ainda estava muito presente entre os jogadores brasileiros.
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Em 2012, "Pro Evolution Soccer 2012" e "PES 2013" ficaram nas duas primeiras posições entre os jogos mais vendidos no PlayStation 3 e no Xbox 360 no Brasil, enquanto "FIFA 13" apareceu em terceiro nos dois consoles, segundo levantamento da GfK. No ano seguinte, o cenário começou a mudar. Entre janeiro e setembro de 2013, "FIFA 13" liderou o ranking de vendas no Brasil, seguido por "Pro Evolution Soccer 2013". Os dois jogos de futebol ficaram à frente de "Grand Theft Auto V", lançado naquele mesmo ano e já na terceira posição do ranking. A disputa entre "FIFA" e "PES" ainda ocupava um espaço central no mercado brasileiro, a ponto de os dois títulos superarem um dos maiores lançamentos da indústria naquele período.
Naquele período, as duas franquias também ocupavam lugares diferentes na cultura dos jogadores brasileiros. A série da Konami tinha uma relação especialmente forte com a comunidade de modificações, que criava ou atualizava uniformes, escalações, nomes de clubes e outros elementos para aproximar o jogo da realidade do futebol brasileiro. Essa cultura de personalização ajudava a ampliar a identificação do público com "PES", enquanto "FIFA" seguia por um caminho mais fechado em relação a esse tipo de alteração.
Foi nesse período que a franquia da Electronic Arts começou a consolidar uma posição cada vez mais forte entre os jogadores brasileiros. "FIFA 13" já aparecia à frente de "PES 2013" no ranking de vendas de 2013, e a série seguiria ampliando sua presença no mercado brasileiro.
Mais de uma década depois, a situação era outra. "EA Sports FC" aparece entre as franquias mais consolidadas do mercado, enquanto "EA Sports FC 26" foi apontado pela Pesquisa Game Brasil 2026 como o melhor jogo de 2025 entre os títulos de console. "EA Sports FC 27", por sua vez, aparece entre os jogos mais aguardados de 2026.
A relação com a franquia também mudou. O lançamento de uma nova edição passou a fazer parte de um ciclo anual de atualização, no qual a EA precisa apresentar mudanças suficientes para manter o interesse de quem já possui a versão anterior.
EA Sports FC 27
Desenvolvedora: EA Vancouver e EA Romania
Publicadora: Electronic Arts
Gênero: Futebol / esportes
Lançamento: 25 de setembro de 2026
Plataformas: PC, PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e Nintendo Switch 2
Modos: Carreira, Ultimate Team, The Grounds, temporadas e partidas online
Menos automático
Nesse ponto, "FC 27" precisa ser analisado pelo que acontece dentro de campo. Depois de algumas horas de jogo, a mudança mais perceptível está na relação entre jogador e inteligência artificial. A defesa exige mais participação manual, impõe mais momentos de atenção e deixa o controle mais dependente dos companheiros comandados pelo computador. A sensação de posicionamento, antecipação e troca de jogador ganhou peso.
Também senti essa mudança no ataque. Os passes em profundidade exigem mais precisão, enquanto novos movimentos de corrida permitem construir algumas jogadas de maneira mais consciente. Os cruzamentos colocam mais decisões nas mãos de quem está no controle. Isso torna as partidas bem executadas mais satisfatórias, mas também aumenta a frustração quando a troca de jogador não responde como esperado ou quando a inteligência artificial toma decisões ruins.
"FC 27" exige, portanto, um controle maior por parte de quem está jogando. Posicionamento, tempo de passe, movimentação e escolha do jogador passaram a ter mais influência sobre o resultado de cada jogada, fazendo com que pequenas decisões tenham mais peso durante a partida.
O jogo anual
Essa característica é importante porque "FC 27" faz parte de um modelo difícil de comparar com outros jogos. A série precisa evoluir todos os anos sem deixar de ser familiar para quem comprou a edição anterior, criando uma equação complicada para a EA. Mudanças demais podem afastar quem domina a versão anterior, enquanto mudanças de menos tornam mais difícil justificar uma nova compra. "FC 27" tenta equilibrar essas duas necessidades com ajustes de jogabilidade e reformulações em modos já conhecidos. O modo Carreira, por exemplo, recebeu mudanças no sistema de transferências, enquanto o Ultimate Team ganhou novos recursos.
O principal acréscimo estrutural é o "The Grounds", que reúne diferentes formatos de partida, atividades e clubes em um espaço social mais aberto. A experiência funciona como uma forma interativa de reorganizar e reaproveitar elementos que já faziam parte do jogo, colocando partidas menores, minijogos e outras atividades dentro de um mesmo ambiente. A proposta amplia a maneira como o jogador pode circular pelo conteúdo do game, além de manter a experiência reconhecível para quem já conhece a franquia.
Além do campo
É aqui que "FC 27" fica mais interessante. O jogo fala menos sobre a necessidade de reinventar o futebol virtual e mais sobre como manter o jogador conectado a ele. Um exemplo evidente está no "The Grounds". Em vez de simplesmente escolher uma partida em um menu, o jogador cria um avatar, circula por um espaço social e pode entrar em partidas menores, minijogos e experiências ligadas a clubes. A EA descreve o local como um ponto de encontro para a comunidade, reunindo diferentes áreas e atividades em um mesmo ambiente.
Essa proposta acompanha uma característica cada vez mais presente nos jogos atuais, nos quais a experiência pode envolver encontro, competição, personalização e progressão ao longo de diferentes momentos. No caso de "EAS FC", isso se combina com uma estrutura que a franquia já possui há anos. O jogador tem motivos para voltar ao jogo durante toda a temporada, com eventos que mudam, competições que avançam, desafios que aparecem, cartas que são adicionadas e modos online que continuam recebendo conteúdo. Por isso, avaliar "FC 27" somente pela partida de futebol deixa de fora uma parte importante do produto.
Quanto vale?
Essa lógica muda a discussão sobre o preço. A Pesquisa Game Brasil 2026 mostra que o consumidor brasileiro está mais cauteloso com lançamentos. Segundo os dados divulgados, 27,9% dos jogadores preferem esperar os primeiros meses para conferir avaliações antes de comprar um jogo, enquanto 26,2% aguardam promoções mesmo depois do lançamento. Outros 26,5% afirmam ter reduzido as compras de lançamentos. Esse comportamento ganha importância no caso de uma franquia anual, porque quem possui "FC 26" já tem uma experiência completa e conhecida à disposição.
Nesse contexto, quem possui "FC 26" não está simplesmente escolhendo se vai comprar um jogo de futebol. Está decidindo se as novidades de "FC 27" justificam pagar novamente por uma experiência que já faz parte da sua rotina. Minha resposta muda conforme o perfil do jogador. Para quem está vindo do "FC 25" ou de uma edição ainda mais antiga, a quantidade de mudanças acumuladas torna a atualização mais fácil de perceber. Para quem já está em "FC 26", a decisão depende muito mais da relação com os modos online, do Ultimate Team, da Carreira e da importância de estar em uma edição atual.
A existência de "FC 27 Lite", versão gratuita com acesso a uma seleção de experiências do jogo, também altera essa conversa. Antes de pagar pela edição completa, existe uma forma de experimentar parte da proposta e entender se as mudanças fazem sentido para cada jogador.
Futebol brasileiro
A força cultural do futebol brasileiro não se traduz integralmente na representação dos clubes dentro do jogo. "EA Sports FC 27" conta com Bahia e Botafogo licenciados, mas ainda deixa de fora uma parcela importante do futebol nacional, incluindo clubes mineiros como Atlético-MG, Cruzeiro e América-MG. A ausência desses times ganha peso para quem acompanha o futebol regional e encontra no jogo uma representação bastante diferente daquela que existia na década passada, quando os 20 clubes da Série A estavam licenciados e seus jogadores também apareciam com nomes reais.
O licenciamento brasileiro, porém, envolve uma negociação mais fragmentada. Direitos de clubes e jogadores passam por acordos diferentes, e a própria trajetória das duas principais franquias de futebol mostra como essa disputa pode mudar de uma edição para outra. Em "FIFA 17", por exemplo, a EA chegou a anunciar 23 clubes brasileiros, incluindo Atlético-MG, Cruzeiro e América-MG, embora os jogadores desses times ainda fossem apresentados com nomes genéricos. A situação atual resulta de uma combinação de contratos, direitos de imagem e decisões comerciais de diferentes instituições, e não apenas de uma escolha isolada da EA.
O produto
Depois de tantos anos acompanhando a franquia, "FC 27" permite observar com mais clareza a distância entre o jogo que consolidou a série e o produto que ela se tornou. Dentro de campo, há mudanças suficientes para que jogadores habituados à franquia percebam diferenças na experiência. A defesa mais manual, os passes mais exigentes, as novas corridas e os ajustes nos cruzamentos aumentam a participação de quem está no controle, enquanto problemas de inteligência artificial, troca de jogadores e algumas decisões de design ainda limitam o resultado dessa evolução.
Fora de campo, "FC 27" revela uma dimensão maior do produto. O valor da franquia também está na capacidade de permanecer presente na rotina do jogador, reunir amigos, oferecer competição, atualizar seus conteúdos e criar novos motivos para voltar ao longo da temporada. Essa lógica aproxima "EA Sports FC" de outros produtos que trabalham com ciclos recorrentes de consumo, como smartphones que recebem novas versões todos os anos e serviços digitais baseados em assinaturas mensais ou anuais. O modelo de acesso é diferente, mas existe uma semelhança na relação com o consumidor, que precisa encontrar razões para continuar dentro daquele ecossistema.
Esse modelo anual coloca uma exigência particular sobre a EA. A cada edição, a empresa precisa apresentar mudanças capazes de renovar a experiência para quem já conhece a franquia, mantendo ao mesmo tempo elementos suficientes para que o produto continue familiar. A decisão de compra passa, então, pela relação de cada jogador com os modos, conteúdos e comunidades que permanecem ativos ao longo da temporada.
Disputa pelo topo
A história dos jogos de futebol no Brasil ajuda a dimensionar o tamanho que essa categoria alcançou. Na década passada, "FIFA" e "PES" chegaram a disputar o topo do mercado brasileiro com lançamentos capazes de superar até "Grand Theft Auto V" nos rankings de vendas. "FIFA 13" e "PES 2013", por exemplo, ocuparam as primeiras posições em diferentes momentos de 2013, mostrando a força que os jogos de futebol tinham entre os consumidores brasileiros.
Mais de uma década depois, "EA Sports FC 27" chega em um mercado diferente, mas ainda com capacidade para disputar a atenção de um público muito amplo. Com "Grand Theft Auto VI" previsto para a mesma temporada de lançamentos, a edição deste ano da franquia da EA aparece como um dos jogos que podem brigar pelas primeiras posições nas vendas do período. Pela força que o futebol virtual ainda mantém e pela presença consolidada da marca, é uma disputa que considero especialmente interessante de acompanhar.
Pontos positivos
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Gameplay: maior controle sobre defesa, posicionamento, passes, cruzamentos e movimentação.
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Variedade: "The Grounds" reúne diferentes atividades e formatos em um espaço social mais aberto.
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Conteúdo: eventos, desafios, competições e atualizações mantêm os modos ativos ao longo da temporada.
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Familiaridade: as mudanças renovam a experiência sem descaracterizar a estrutura conhecida da franquia.
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Experiência online: a combinação de competição, progressão e conteúdo recorrente dá motivos para continuar jogando.
Pontos negativos
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Inteligência artificial: decisões ruins dos companheiros ainda interferem em algumas jogadas.
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Troca de jogadores: o controle pode não responder como esperado em determinados momentos.
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Evolução: parte das novidades representa aperfeiçoamentos em sistemas já conhecidos.
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Futebol brasileiro: a presença limitada de clubes nacionais reduz a representação de um dos mercados mais relevantes para a franquia.
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Preço: para quem já possui "FC 26", a decisão de comprar uma nova edição depende do quanto essas mudanças acrescentam à experiência.
Veredito
"EA Sports FC 27" mostra uma evolução perceptível dentro de campo e, ao mesmo tempo, reforça a estratégia que sustenta a franquia como produto anual. A defesa mais manual, os passes mais exigentes e as novas possibilidades de movimentação renovam a experiência, enquanto "The Grounds", os modos online e o conteúdo recorrente ampliam os motivos para continuar jogando ao longo da temporada. Problemas de inteligência artificial, troca de jogadores, novidades incrementais e a presença limitada do futebol brasileiro impedem que esse avanço seja mais consistente.
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Nota: 8,5/10
