Durante décadas, comprar um jogo significava sair da loja com uma caixa nas mãos. Dentro dela estava o disco ou cartucho que levava aquela experiência para casa e podia permanecer na estante por anos.

A indústria transformou a mídia física em algo opcional. Depois, vieram jogos maiores, atualizações, downloads e modelos que fizeram o conteúdo depender cada vez mais da internet.

Agora, com a Sony planejando encerrar a produção de discos físicos para PlayStation em 2028 e jogadores reagindo à decisão com o movimento #PSBlackout, a transformação chega a um novo capítulo. Se o jogo está deixando de existir como produto físico, então onde ele passa a existir? 

 

Novo cenário

A discussão ganhou força na semana passada com o #PSBlackout, movimento iniciado em 23 de agosto para protestar contra a decisão da Sony. A mobilização previa uma semana de boicote, com participantes deixando de utilizar consoles e serviços da empresa. Até o momento, não há dados consolidados sobre a adesão ou sobre um eventual impacto significativo na plataforma.

Segundo a Sony, os jogos digitais já representavam 82% das vendas de títulos para PlayStation 4 e PlayStation 5 no início de 2026. O formato elimina etapas de produção e distribuição dos discos e permite acesso imediato aos games. Mas a mudança também levanta dúvidas sobre preservação e propriedade. 

Fim de uma era

Na Gamescom, evento realizado em Colônia, na Alemanha, fãs demonstraram preocupação com o futuro da mídia física. O desenvolvedor Chris Bastin declarou que a decisão cria um precedente negativo para a preservação dos jogos e para os direitos dos consumidores. "É uma decisão ruim; cria um mau precedente para o futuro dos jogos, a preservação dos jogos, a propriedade dos jogos e os direitos dos consumidores", disse à AFP

A preocupação também apareceu em Belo Horizonte, durante o Uai Retrogames, evento que reuniu colecionadores, lojistas, criadores de conteúdo e entusiastas de jogos antigos.

Para Ricardo Wilmers, um dos organizadores, a mídia física passa por uma redefinição de espaço dentro do mercado de jogos. O formato deixa de ocupar a posição central que teve durante décadas, mas mantém seu público e encontra novos espaços entre colecionadores e consumidores. "Acredito que o nosso futuro é ter a mídia física e a mídia digital juntos", explica.

Já Gustavo, expositor e lojista especializado em jogos antigos, vê um desafio para a preservação dos títulos atuais. "Hoje em dia, praticamente, a gente não está comprando o jogo, mas está jogando durante um tempo indefinido, até onde eles quiserem", argumenta.

Jogos maiores

Parte dessa transformação também é explicada pelo tamanho dos games. Produções atuais podem ultrapassar 100 GB e receber atualizações frequentes depois do lançamento. Com isso, a mídia física nem sempre consegue concentrar todo o conteúdo necessário para o jogo em um único disco ou cartão.

O Nintendo Switch 2 ajuda a visualizar essa mudança. Dentre os formatos utilizados pela Nintendo estão cartões que funcionam como uma chave para baixar o jogo pela internet. Existe um objeto físico na embalagem, mas o conteúdo principal da experiência pode estar fora dele. 

Onde estão

Com os jogos digitais, os arquivos podem ser armazenados no SSD do console, em cartões de memória, unidades externas ou servidores.

Nesse cenário, empresas como Kingston e SanDisk, especializadas em armazenamento, acompanham a demanda por componentes com maior capacidade e velocidade. Para quem baixa os games, SSDs mais rápidos e espaçosos se tornam cada vez mais importantes.

A computação em nuvem amplia esse modelo. Serviços como o Xbox Game Pass, com seus recursos de jogos em nuvem, e o GeForce NOW permitem executar determinados games em servidores remotos e transmitir a experiência para o dispositivo do jogador. O hardware continua importante, mas parte do processamento acontece longe do consumidor. O jogo pode estar rodando em um servidor enquanto o jogador acessa a experiência pela internet. 

Nova relação

Um disco pode ser guardado, emprestado, trocado ou revendido. No ambiente digital, o acesso fica vinculado à conta e às condições da plataforma, enquanto alguns jogos também dependem de servidores e sistemas de autenticação mantidos pelas empresas. Quando esse suporte é encerrado, determinados títulos podem deixar de funcionar.

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O desaparecimento da mídia física muda, assim, o significado de comprar um jogo. O consumidor ganha praticidade e acesso imediato, mas perde parte do controle sobre aquilo que adquiriu. Cada vez mais, compra o direito de acessar uma experiência, em vez de um objeto que pode guardar, emprestar ou revender. 

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