COLEÇÃO ÚNICA

Os tumores com mais de 100 anos que são esperança para explicar por que câncer de intestino aumentou tanto entre jovens

O câncer de intestino em pessoas com menos de 50 anos está aumentando em todo o mundo, e os cientistas querem descobrir o porquê

Publicidade
Carregando...

Amostras de câncer colorretal armazenadas por até um século serão analisadas para tentar explicar o misterioso aumento da doença entre jovens.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

Embora a maioria dos casos de câncer colorretal ainda seja diagnosticada em adultos mais velhos, o crescimento de casos entre pacientes mais jovens vem sendo observado em todo o mundo.

Isso inclui o Reino Unido, onde as taxas de câncer colorretal aumentaram 75% entre pessoas com menos de 24 anos desde o início dos anos 1990, mas os cientistas ainda não sabem o porquê.

Uma das pistas pode estar no subsolo do St Mark's, Hospital Nacional de Doenças Intestinais (Reino Unido), que abriga uma coleção única de dezenas de milhares de amostras de câncer arquivadas.

Esses materiais estão passando por análises científicas avançadas para entender o que causou cada tumor e o que mudou ao longo das décadas.

Holly, 27, faz parte de um número crescente de jovens que desenvolvem a doença.

Inicialmente, seu inchaço abdominal e perda de peso foram atribuídos à síndrome do intestino irritável, até que ela ficou tão mal que precisou ser levada ao pronto-socorro.

A jovem atriz recebeu o diagnóstico de câncer colorretal avançado e precisou de tratamento agressivo quando tinha apenas 23 anos.

Holly disse que a quimioterapia intensa "me afetou de maneiras que eu nunca imaginei" e que "a parte mais difícil foi simplesmente aceitar que… a vida não será a mesma".

Ela agora vive com uma ostomia — procedimento cirúrgico que cria uma abertura artificial no abdômen para a eliminação de fezes — e precisa de acompanhamento regular.

Holly está livre do câncer há mais de três anos e planeja seu casamento, mas afirma que há dias em que fica "gritando e chorando" por ter recebido o diagnóstico tão jovem.

"Tudo parece muito injusto e eu penso: por que eu?"

A ciência também não tem uma resposta clara. Já foram levantadas hipóteses que vão da obesidade e dos alimentos ultraprocessados aos antibióticos e a mudanças no microbioma, além da poluição do ar e dos microplásticos.

A foto mostra um caminho com piso verde entre prateleiras de aço que vão do chão ao teto e estão repletas de centenas de caixas de papelão marrom
BBC
Os arquivos no porão do Hospital St. Mark's contêm uma amostra de cada câncer de intestino removido naquele local
Uma mão segura um pequeno bloco de cera branca. Dentro dele, é possível ver a mancha amarela de uma amostra de câncer de intestino
BBC
Elas são armazenadas em cera, que preserva a amostra de câncer de intestino

"O câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos está aumentando em todo o mundo, inclusive no Reino Unido, e está se tornando um problema cada vez maior", disse o gastroenterologista Kevin Monahan, consultor do hospital St Mark's Hospital.

"Precisamos desenvolver formas de prevenir esses cânceres de maneira eficaz", acrescentou.

No Reino Unido, as taxas aumentaram 51% entre pessoas de 25 a 49 anos desde o início dos anos 1990, embora a maioria dos casos de câncer colorretal ainda ocorra em adultos mais velhos.

Monahan afirmou que os arquivos reúnem amostras de todos os pacientes com câncer colorretal tratados no hospital, o que faz do acervo um "recurso único, provavelmente em qualquer lugar do mundo", para investigar as causas da doença entre jovens.

Os tumores colorretais e as bactérias intestinais associadas foram preservados em parafina.

As amostras estão sendo enviadas ao Instituto de Pesquisa do Câncer do Reino Unido para análises moleculares detalhadas, que só recentemente se tornaram possíveis.

Diferentes causas de câncer deixam marcas ou assinaturas diferentes no DNA das células que se tornaram cancerosas.

Um homem de uniforme cirúrgico azul e óculos está em pé em frente a prateleiras que vão do chão ao teto, repletas de caixas de papelão marrom
BBC
Kevin Monahan é gastroenterologista consultor no Hospital St. Mark's

Acompanhar, ao longo do tempo, a frequência dessas diferentes assinaturas genéticas pode indicar a causa mais provável do câncer entre jovens.

O professor Trevor Graham, do Instituto de Pesquisa do Câncer do Reino Unido, afirmou: "A nossa principal hipótese é que existe um tipo específico de Escherichia coli (E. coli) que vive no intestino dos jovens hoje e que não existia no passado".

Acredita-se que essas bactérias liberam toxinas que danificam o DNA dentro do tecido intestinal, tornando-o canceroso. A questão, segundo os pesquisadores, é por que essas bactérias se tornaram mais comuns agora.

"Se esses chamados 'micróbios ruins' estiverem por trás do aumento, a assinatura desses micróbios, o dano, deve ter sido rara no passado e se torna cada vez mais comum à medida que avançamos para o presente… também podemos testar outras ideias", disse Graham.

Independentemente do que esteja por trás do crescimento dos casos, Graham afirmou que os arquivos representam um "verdadeiro tesouro" e acrescentou: "Acho que a resposta pode estar nesta sala".

Um homem de calça jeans, suéter e camisa lê um livro antigo que repousa sobre uma mesa de aço nos arquivos. Pequenas caixas, do tamanho de cartuchos de tinta de impressora, estão cuidadosamente empilhadas nas paredes
BBC
Trevor Graham, do Instituto de Pesquisa do Câncer do Reino Unido, vai analisar as amostras de câncer de intestino

Fatores de risco e sintomas

O câncer no intestino é o segundo mais frequente no aparelho digestivo e o terceiro que mais mata no Brasil, de acordo com o INCA (Instituto Nacional de Câncer).

Estima-se que mais de 40 mil novos casos surjam todos os anos no Brasil.

A doença afeta ambos os sexos, em geral a partir dos 45 anos, é mais frequente na faixa entre 60 e 70 anos de idade. Entre os fatores de risco, destacam-se:

  • Hábitos alimentares não saudáveis
  • Obesidade;
  • Sedentarismo;
  • Tabagismo e alto consumo de bebidas alcoólicas;
  • Histórico familiar de câncer colorretal, de ovário, útero e/ou câncer de mama;
  • Preexistência de doenças como retocolite ulcerativa crônica, doença de Crohn e doenças hereditárias do intestino.

O cirurgião oncológico e ex-presidente da SBCO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica), Héber Salvador, explica que o câncer colorretal pode se desenvolver silenciosamente por um tempo, sem apresentar nenhum sintoma. A descoberta, muitas vezes, se dá por exames de rastreamento.

"É fundamental a realização de colonoscopia a partir dos 45 anos em pessoas sem sintomas - ou (a partir dos) 35 anos, caso haja histórico de câncer na família. Esse exame pode evitar a doença, porque, por meio dele, é possível retirar pólipos, que são lesões presas na parede do intestino que poderiam evoluir para câncer", explica.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

É importante também prestar atenção a alguns sintomas:

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

  • Alteração nos hábitos intestinais, como diarreia, constipação ou estreitamento das fezes, que perdura por alguns dias;
  • Mesmo após a evacuação, não há sensação de alívio, parecendo que nem todo conteúdo fecal foi eliminado (sintoma especialmente sugestivo nos casos de câncer de reto);
  • Sangramento retal (o sangue costuma ser bem vermelho e brilhante);
  • Presença de sangue nas fezes, tornando a sua coloração marrom escuro ou preta;
  • Cólica ou dor abdominal;
  • Sensação de fadiga e fraqueza;
  • Perda de peso sem motivo aparente

Tópicos relacionados:

cancer intestino tumores

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay