Os “ventos externos” positivos da economia global favorecem o Brasil em 2026, mesmo com a tradicional volatilidade no preço dos ativos em ano de eleição. A avaliação é do economista-chefe do banco Pine, Cristiano Oliveira. Em entrevista ao PlatôBR, ele disse apostar que ainda neste primeiro semestre o dólar deve se aproximar dos R$ 5 diante da entrada de capital estrangeiro no país.
Para Oliveira, os juros no Brasil, atualmente em 15% ao ano, favorecem a entrada de capital estrangeiro. E nem a queda da Selic deve interromper esse fluxo já que a taxa deve terminar o ciclo de cortes em um patamar ainda elevado.
Leia a entrevista:
O que é possível de esperar da economia brasileira neste 2026, ano de eleição?
Eu tenho repetido isso há algum tempo e, para 2026, continua válido. O movimento dos preços de ativos e da própria macroeconomia no próximo período está muito vinculado ao ambiente global. Nós vemos o ambiente global como francamente favorável a alguns mercados emergentes, e o Brasil é um deles. Portanto, nosso olhar para 2026 é bastante construtivo.
Os ruídos tradicionais de ano eleitoral podem impactar o dólar e a bolsa?
As variáveis que dominam a movimentação de preços de ativos são, primordialmente, globais. Isso não significa que não possamos ter, em alguns momentos, aumento de volatilidade na moeda e na bolsa, diante das eleições. No entanto, eu não classifico essa volatilidade como permanente. Podemos ter momentos em que as eleições afetem o preço dos ativos, mas não acho que será a regra do ano. O fator primordial é o global.
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O que você espera, objetivamente?
Sobre o câmbio, neste semestre, vemos a continuidade da valorização do real. Trabalhamos com o real muito próximo de R$ 5 ao longo dos próximos meses. No segundo semestre, fatores globais podem inverter para uma faixa de R$ 5,20 a R$ 5,30, mas acredito que o melhor momento do real deve ser ainda neste semestre.
Há fatores domésticos que também favorecem?
Sim. Continua valendo o diferencial de juros, com a Selic elevada atraindo fluxo de capital estrangeiro. Além disso, considero extremamente importante o papel do Banco Central na formação de expectativas. Um Banco Central independente e autônomo faz enorme diferença. Acredito que, no futuro, o papel da atual composição será reconhecido. E, dentro dos fatores locais, tendemos a ver a demanda doméstica crescendo mais perto do PIB, o que ajuda um equilíbrio mais favorável.
E a inflação?
Temos uma visão construtiva. Dado esse cenário, a inflação vai se aproximando gradualmente do centro da meta. Trabalhamos hoje com inflação entre 3,60% e 3,80% no fim do ano. Considero um cenário realista. Os modelos apontam isso. Os números recentes sugerem desaceleração da inflação. Com isso, o trabalho do Banco Central este ano é administrar esse processo de “calibragem” da taxa de juros. Essa calibragem é possível porque o cenário inflacionário é benigno e com viés de baixa.
O câmbio mais favorável ajuda o Banco Central a baixar os juros em ano eleitoral?
A eleição não interfere no trabalho do Banco Central. O Banco Central é autônomo no Brasil e vai fazer a calibragem. Na nossa opinião, o BC levará a taxa para 11,5% no final do ano. Mesmo assim, ainda é uma taxa real acima da neutra. Se neste ano é calibragem, no ano que vem é ajuste fino, com excesso de juro real menor, e isso vai depender muito do cenário global. Vai depender do que acontecer na geopolítica, na geoeconomia e na política doméstica norte-americana. Há bastante incerteza. A única certeza é que os preços dos ativos estarão ainda mais vinculados ao global.
Quais são os desafios do ano que vem vinculados aos Estados Unidos?
Neste ano, a curva americana precifica queda de juros. Para o ano que vem, a curva de juros americana precifica alta de juros. Isso pode, dependendo de outras variáveis, deflagrar um processo global de aumento de juros. Seja qual for o resultado eleitoral, o global é importante. Isso pode levar a um dólar “menos fraco” no ano que vem. Neste ano, a tendência é de dólar fraco, mas no ano que vem pode ser menos fraco, e isso influencia as condições aqui, independentemente do resultado eleitoral. Do ponto de vista doméstico, o resultado eleitoral importa sobretudo na parte longa da curva de juros.
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E o que esperar de 2027?
Ao longo do processo eleitoral, tanto a direita quanto a esquerda, no espectro político brasileiro, têm um diagnóstico semelhante do que é necessário a partir de 2027, seja na questão fiscal, seja na condução da política econômica. Divergem no “como” endereçar. O mercado vai buscar sinalizações desse diagnóstico, não necessariamente nomes. O diagnóstico não deve ser muito diferente. A questão é como implementar.
