Em seu discurso de encerramento, Edinho falou em divórcio litigioso, ou seja: expulsão da sigla. Ao encerrar a reunião da Executiva, contou ter saído de um café com Lula, além de ter conversado na véspera com o presidente sobre o futuro do PT.

Repetindo uma avaliação atribuída a Lula, Edinho afirmou que o partido não deve ser instrumento de projeção e enriquecimento pessoal, mas um projeto coletivo. O presidente do PT citou ainda uma manifestação pública de Lula em agradecimento à sua atuação na coordenação da campanha e propôs a constituição de uma nova maioria dentro da sigla.

A partir desse recado, os participantes da reunião chegaram à conclusão de que Edinho recebeu de Lula a incumbência de expulsar seus opositores, sendo Washington Quaquá o primeiro alvo.

Ele é prefeito de Maricá (RJ), cidade onde Lula perdeu nos dois turnos das eleições. Presidente do PT do Rio, o filho de Quaquá, Diego Zeidan, viajou para a Bahia após o primeiro turno, o que exigiu uma intervenção na coordenação de campanha no estado do Rio.

Procurado, o prefeito de Maricá afirmou que toda a campanha de Lula no Rio foi feita por ele e que seu filho teve que se afastar por quatro dias seguindo orientação médica após um pico de pressão. Vice-presidente do PT, ele chamou Edinho de mentiroso, incompetente e fofoqueiro, um crítico do fascismo que não tolera a crítica e estaria com medo de disputar a sigla com ele.

"Eu tenho tanto ou mais tempo de PT que ele. Com a diferença que sou de favela. Se alguém tem que tem que sair do PT e ir para PSOL é ele. Eu sou PT raiz".

Por seus posicionamentos controversos — como a defesa de Domingos Brazão, apontado como mandante do assassinato de Marielle Franco, e de operação policial que deixou 120 mortos no Rio —, Quaquá já é alvo de pedidos de expulsão na comissão de ética do partido. Mas essas solicitações não avançaram.

Na quinta-feira (29/10), ele não assistiu ao discurso de Edinho, tendo boicotado a reunião da Executiva Nacional do PT, instância decisória mais restrita, sob o argumento de que aquele não era o fórum adequado para avaliação da campanha de Lula.

Em mensagens de grupo, Quaquá se opôs à reunião, na tentativa de abrir uma dissidência contra Edinho. Mas, segundo petistas, o prefeito de Maricá não é o único na mira de Lula. De acordo com relatos, o presidente mantém arquivados panfletos de campanha de petistas sem o seu nome e quer que esses correligionários sejam enquadrados.

Em setembro, Edinho cobrou a inclusão do nome do presidente e de candidatos majoritários apoiados pelo partido no material de campanha distribuído pelos petistas que concorreram a deputado.

Ele ameaçou exigir a devolução de dinheiro do fundo eleitoral, em caso de descumprimento da orientação partidária. A cobrança se deu em meio à troca de acusações de infidelidade em grupos de conversas compostos por petistas, nos quais foram reproduzidos panfletos sem o nome de candidatos a governos estaduais e ao Senado e, em alguns casos, até do próprio presidente.

Após a vitória impulsionada por forte mobilização popular, Lula tem repetido que o PT precisa responder ao recado das ruas. Do contrário, os jovens que se manifestaram em prol de sua reeleição fundarão outro partido, segundo ele.

Ainda de acordo com esses relatos, o presidente defende que a sigla esteja afinada com as propostas de campanha, que incluem a redução do papel das emendas parlamentares no Orçamento. No Congresso, petistas que se adaptaram a essas práticas e outras da dinâmica parlamentar foram apelidados pelos colegas de partido de "centrão do PT".

Por outro lado, a possibilidade de expulsão desses petistas pode reabrir o racha na própria corrente do presidente Lula, a Construindo um Novo Brasil (CNB). Maior força do partido, a CNB abriga Edinho e seus desafetos, sendo que os dois grupos compuseram na disputa pela presidência do partido. Após um acordo alinhavado por Lula, Quaquá apoiou Edinho para o comando do PT.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

compartilhe