O governo de Donald Trump não pretende apoiar a alegação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) de que é o líder legítimo do Brasil, segundo a agência Reuters. A informação foi passada na quinta-feira (29/10) por uma autoridade americana e por outra pessoa a par do assunto, que falaram sob condição de anonimato. Segundo as fontes, Trump não tem planos atuais de respaldar as ambições políticas de Flávio, mesmo tendo permitido a entrada dele nos EUA, mas pode mudar de ideia.

Para a Reuters, a postura sugere que Trump pode estar relutante em abrir uma nova crise com o Brasil, depois de meses de altos e baixos na relação entre os dois países.

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Capital político em queda

Uma terceira autoridade americana ouvida pela agência avaliou que o capital político de Flávio diminuiu com o autoexílio. Muitos conservadores brasileiros que esperavam vê-lo à frente da oposição nos próximos anos criticaram a fuga.

Autoridades brasileiras, também sob anonimato, disseram à Reuters que a saída do senador favorece o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por enfraquecer a oposição conservadora no Congresso. Lula foi reeleito no domingo (25/10) com vantagem de cerca de 3,5 pontos percentuais sobre Flávio, contrariando as pesquisas de intenção de voto.

A rota da fuga

Segundo autoridades argentinas citadas pela agência, Flávio, a mulher e as duas filhas atravessaram uma ponte rumo ao norte da Argentina às 22h50 de terça-feira (27/10) e embarcaram em um avião fretado às 23h30. A família voou para Miami, com escala no Equador.

Ainda não está claro como o senador percorreu os cerca de 1.300 km entre Brasília e a fronteira, nem como deixou o Brasil sem passar pelo controle das autoridades brasileiras. Durante o trajeto, de acordo com uma das autoridades americanas, Flávio manteve contato com vários integrantes do governo dos EUA.

Jason Miller, assessor de Trump próximo à família Bolsonaro, ajudou a organizar o voo a partir da Argentina, segundo a pessoa a par do assunto, o que também foi revelado pelo jornal The New York Times. Ainda de acordo com a Reuters, o secretário de Estado, Marco Rubio, recomendou a Trump que autorizasse a entrada do senador, e o presidente aprovou.

Entrada por "parole humanitária"

Enquanto Flávio estava no ar, funcionários do Departamento de Estado discutiram com o Departamento de Segurança Interna a melhor forma legal de receber o senador e a família. A solução foi conceder a eles, na fronteira, uma "parole humanitária", status temporário dado em casos de questões humanitárias urgentes ou de interesse público relevante.

Passaporte e investigação

Flávio deixou o país depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou que ele entregasse o passaporte, atendendo a pedido da Polícia Federal. O senador é investigado por suspeita de participação em um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O pedido da PF foi feito minutos depois da proclamação da vitória de Lula, o que, segundo a Reuters, foi apontado por alguns conservadores como sinal de motivação política. Apoiadores do governo, por outro lado, lembram que, dias antes da eleição, o irmão do senador, Eduardo Bolsonaro, sugeriu publicamente que Flávio deveria deixar o Brasil se perdesse. Eduardo vive nos EUA e foi condenado pelo STF em junho por tentar obter interferência do governo Trump no julgamento do pai.

Na quarta-feira (28/10), Flávio publicou no X uma carta de teor golpista em que se autoproclamou "presidente eleito". Depois, apagou o texto e publicou uma nova versão, em que se apresenta como "líder" legítimo do Brasil.

Trump critica eleição, mas poupa Lula

Trump disse que a eleição brasileira pareceu "manipulada", sem apresentar provas, mas afirmou não ter apoiado nenhum candidato. Apesar das críticas ao processo eleitoral, ele evitou atacar Lula. "Gosto do Lula, me dou muito bem com ele", disse o presidente americano a jornalistas na segunda-feira (26/10).

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A Casa Branca encaminhou o pedido de comentário da Reuters ao Departamento de Estado, que não respondeu. O governo brasileiro e um representante de Flávio também não se manifestaram.

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