ELEIÇÕES 2026

Jovem, negra e campeã de votos: a trajetória de Ana Elisa

Da escola pública em Divinópolis a liderança política, conheça a história da deputada federal mais votada de Minas Gerais que tem chamado a atenção do Brasil

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Eleita deputada federal por Minas Gerais com mais de 520 mil votos, a estudante Ana Elisa (PT), de 21 anos, tem chamado a atenção dos brasileiros não só pelo desempenho fenomenal nas urnas, mas pelos seus discursos e pelas entrevistas que tem dado desde que saíram os resultados da eleição. Mas, afinal, quem é essa jovem e porque virou uma recordista de votos logo na sua primeira disputa eleitoral? Para entender um pouco sua formação e trajetória, o Estado de Minas conversou em Divinópolis, sua cidade natal, com pessoas que convivem e conviveram com nova deputada, amigas, colegas de sala e professoras que a viram crescer.

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Filha de professora, Ana Elisa estudou na rede pública até concluir o ensino médio. Foi na Escola Estadual Joaquim Nabuco, em Divinópolis, município onde nasceu e vive com a família, que a jovem começou a despontar nas redes sociais. Os assuntos levados, primeiro ao TikTok e depois ao Instagram, também pautavam debates em salas de aula. Descrita como uma aluna curiosa e atenta, era comum vê-la falar com colegas e professores sobre questões sociais, raciais e políticas. “A Ana Elisa era uma aluna muito engajada, muito inteligente. Ela se interessava pelos conteúdos, fazia perguntas, fazia questionamentos. A gente já percebia que ela tinha atenção na sala de aula pelos conteúdos e muita curiosidade”, lembra a professora de português e literatura Janine Lorenzo.


Ela conta que foi no ensino médio que a escola viu Ana Elisa florescer. “Em uma determinada turma, houve um caso em que ela trouxe para a sala de aula, com essa habilidade de falar, o tema de racismo. Ela tem e demonstrava essa capacidade de entender e falar sobre o racismo estrutural”, relembra.


A ascensão de Ana Elisa veio com sua habilidade de se comunicar nas redes. Hoje, ela acumula mais de 3,4 milhões de seguidores no Instagram, quase 2,4 milhões a mais do que quando recebeu diretamente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o convite para ser candidata a deputada federal pelo PT. Foi com o uso das plataformas que consolidou o seu repertório político ao denunciar casos de racismo e a confrontar políticos de direita.


Ainda nas primeiras entrevistas após ser eleita, Ana Elisa sempre colocou a mãe em evidência e como uma das condutoras no caminho dos movimentos sociais e da politização. Afirmações confirmadas por quem conviveu com Maria Emília Silva, mãe da jovem deputada eleita.


“Recordo muito dela como sendo atuante na sala de aula, na escola. Uma jovem negra, fruto de um aprendizado familiar, aprendizado educacional e, principalmente, algo ligado à ancestralidade, como nós, do povo negro, dizemos”, afirma a militante de movimentos raciais Maria Catarina Leborê Vale. Também professora, embora conheça a mãe da jovem eleita, foi na Escola Joaquim Nabuco que tiveram um contato mais próximo.


“Talvez ela me visse mais do que eu a ela, porque eram palestras para mais de mil alunos aqui, por ocasião da Consciência Negra. Achava muito bonito na Ana Elisa: quando eu estava nas ruas fazendo o trabalho sindical, ela sempre estava ali por perto. Então, naquela época, eu já sentia, olhava para ela e via que aquilo estava latente nela. Falava: 'Opa, está ali, já está escrito: ela seria uma grande liderança'”, relembra Catarina.


Com apenas 21 anos, sendo a mulher negra mais jovem a ocupar uma cadeira em 200 anos de Câmara Federal, Ana Elisa, na avaliação de Catarina, representa as “vozes caladas dos períodos nefastos da história republicana e imperial do Brasil”. Embora reconheça personalidades negras contemporâneas, ela diz que nenhuma tem o tamanho que Ana Elisa alcançou. “De realmente fazer aquele exercício que fazemos de acordo com a cultura africana, chamado sankofa, que é olhar para trás. Ana Elisa, está olhando para trás”, enfatiza Catarina.


Para a professora que viu Ana Elisa dar os primeiros passos rumo a uma representatividade expressiva, ela se tornou inspiração. “Já é uma inspiração para muitos estudantes, para que percebam que também têm voz, que podem, sim, falar sobre política e que as escolas também deem essa abertura”, afirma Janine Lorenzo.

Convicta e gentil


Ana Elisa cursa direito e era estagiária no Tribunal Regional do Trabalho de Minas Gerais quando entrou na primeira disputa eleitoral da vida. Mas as amizades vieram antes. “Ela sempre foi uma mulher de voz forte.” É assim que Maria Eduarda Pereira Melo define Ana Elisa. Amiga desde os primeiros anos do ensino fundamental, Maria Eduarda acompanhou o crescimento e o amadurecimento da jovem, hoje eleita deputada federal.


A postura de liderança já se manifestava desde cedo. “Ela se posicionava, sim, contra a direita”, afirma. De acordo com Maria Eduarda, a coragem de expressar opiniões sempre fez parte da personalidade de Ana Elisa, mas foi durante o ensino médio que essa característica se tornou ainda mais evidente.


Ficar calada diante de algo com que não concordava nunca pareceu uma opção. Pelo contrário, segundo a amiga, a jovem costumava debater com professores e colegas para defender seus pontos de vista. “Ela questionava o que considerava errado, debatia com os professores quando discordava de algo e nunca deixava de se posicionar diante daquilo de que não gostava. Sempre demonstrou personalidade, coragem e a vontade de defender aquilo em que acreditava”, relata.


A disposição para o debate, que Ana Elisa deverá levar agora à tribuna da Câmara dos Deputados, já se manifestava nos trabalhos escolares. Maria Eduarda se lembra de uma atividade em que a turma precisou apresentar o plano de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante as eleições de 2022. Na ocasião, Ana Elisa conseguiu sustentar seus argumentos diante de colegas com posições políticas contrárias às suas. A maneira como conduziu a discussão também ficou na memória de Maria Eduarda: Ana Elisa expôs suas ideias de forma “muito clara e justa”, demonstrando que, desde a escola, já sabia defender suas convicções e dialogar com quem pensava diferente.

Religião


Convicções que também se manifestavam na religião. “Muito bem posicionada, sem precisar excluir um lado para defender o outro”, é assim que Lívia Stefane descreve a colega, na época em que fizeram catequese juntas. As duas receberam o sacramento da Primeira Comunhão quando tinham entre 10 e 12 anos. Desde então, Lívia se recorda de Ana Elisa como uma menina gentil com todos e, sobretudo, segura de suas convicções.


“Desde lá, eu me lembro de vê-la frequentar a igreja e se posicionar como membro dela”, conta. Lívia também destaca a participação de Ana Elisa nas festas de Reinado, no Bairro Vila Espírito Santo, em Divinópolis. A celebração, marcada pela tradição e pela representatividade cultural e religiosa, tinha grande importância para a comunidade e para a Igreja Nossa Senhora do Rosário. “Me lembro de ela sempre participar das festas de Reinado, que eu achava muito legal e uma representatividade muito necessária”, relembra.


O congado também é parte da vida de Ana Elisa. “Desde os dois anos de idade, sua história se entrelaça com o Reinado de Nossa Senhora do Rosário, manifestação cultural e religiosa de profunda importância para a memória, a identidade e a resistência dos povos negros de Minas Gerais”, conta Jéssica Moreira da Silva, amiga e presidente da CongaDiv.


Ana Elisa não apenas cresceu dentro das festividades do Rosário: ela foi formada por uma tradição ancestral que atravessa gerações, preserva saberes e mantém viva a força de um povo. “Desde criança, assumiu a missão de conduzir a bandeira do Moçambique Santa Efigênia, pertencente à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro Espírito Santo”, relembra Jéssica. Uma responsabilidade que significa conduzir símbolos sagrados, abrir caminhos, reverenciar os ancestrais e representar a fé e a devoção de toda uma coletividade.


“É importante compreender que, no Reinado, ninguém caminha sozinho. Cada passo carrega histórias, ensinamentos, compromissos e saberes transmitidos entre gerações. E, nessa trajetória, não posso deixar de destacar a presença fundamental de seu capitão, Renato José Batista, que, desde a infância de Ana Elisa, esteve presente em sua formação, orientando seus passos e compartilhando os conhecimentos, os fundamentos e as responsabilidades que constituem a tradição do Moçambique”, relata Jéssica.


Foi também por meio dessa convivência, analisa a presidente da CongaDiv, que Ana Elisa aprendeu que conduzir não significa estar à frente por vaidade, mas assumir a responsabilidade de cuidar, respeitar, escutar e caminhar com os seus. “Hoje, aquela menina que aprendeu a conduzir uma bandeira também assume a responsabilidade de representar o povo mineiro na Câmara dos Deputados. E há uma dimensão profundamente simbólica nessa travessia: Ana Elisa não chega à política desvinculada de suas origens”, pontua.

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A jovem, criada por uma mãe solo ao lado do irmão, segundo Jéssica Moreira, leva consigo os ensinamentos do Rosário, a força de sua ancestralidade, a memória de sua comunidade e a responsabilidade coletiva que aprendeu desde pequena. (Com Heloísa De Tofoli)

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