Se a fila é o problema reconhecido pelos seis candidatos ao governo de Minas, é na forma de enfrentá-la que os programas mais se diferenciam. Os planos de Alexandre Kalil (PDT), Cleitinho Azevedo (Republicanos), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB), Mateus Simões (PSD) e Patrus Ananias (PT) apresentam seis caminhos para ampliar o acesso à saúde: formas de financiamento, adesão a programa federal, reorganização do encaminhamento médico, uso de tecnologia, divulgação dos dados de espera e medidas para acelerar o diagnóstico.
Cleitinho é o único a propor um instrumento próprio de financiamento de procedimentos, mas não detalha de onde viriam os recursos. Patrus escolhe o caminho da adesão de programas federais. Gabriel propõe forças-tarefa regionais por especialidade, integradas ao sistema de encaminhamento e atendimento, para enfrentar as filas de consultas acumuladas e procedimentos de média complexidade. A iniciativa seria orientada por critérios clínicos e geográficos, com prioridades definidas de forma transparente, para evitar mutirões desordenados.
Do outro lado, Simões coloca a tecnologia como principal vetor de expansão do acesso, com diagnósticos remotos e integração de sistemas. Kalil concentra a proposta em uma etapa específica da cadeia de atendimento: o tempo entre a suspeita e o tratamento do câncer, com a possibilidade de criação de centros regionais de confirmação diagnóstica. Roscoe, por sua vez, aposta na informação como instrumento de política pública: sem um painel que mostre a espera, segundo o projeto de governo, a desigualdade de acesso permanece invisível.
A relação entre obras físicas e organização da rede de saúde é outro ponto de divergência entre os candidatos. Cleitinho lista cinco hospitais regionais cujo funcionamento pleno pretende garantir – Teófilo Otoni, Governador Valadares, Divinópolis, Sete Lagoas e Conselheiro Lafaiete – e propõe o “Reativar Minas”, programa destinado a recuperar leitos, maternidades, UTIs e centros cirúrgicos subutilizados.
Kalil também prevê a recuperação da estrutura existente. O candidato propõe avaliar individualmente cada obra inacabada para garantir a instalação de equipamentos e a formação das equipes necessárias ao atendimento. A diretriz é transformar estruturas físicas em serviços efetivamente disponíveis à população. Ele também projeta a recuperação dos hospitais da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).
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Gabriel adota uma estratégia diferente e defende que a organização das redes regionais venha antes da priorização de novas obras. A aposta é nos consórcios intermunicipais para viabilizar, de forma compartilhada, leitos, exames e atendimento especializado. Patrus propõe integrar à rede pública a oferta municipal, os consórcios, os hospitais universitários e a rede contratada. Simões, que trata a conclusão dos hospitais regionais como um resultado já alcançado, concentra suas diretrizes na operação e na integração da rede existente.
Os programas também divergem sobre qual deve ser o principal agente de organização do sistema. Patrus é o candidato que mais vincula a política estadual às iniciativas federais. O plano prevê a implantação do componente estadual da “Rede Alyne” – programa federal voltado à redução da mortalidade materna e infantil –, a integração à Política Nacional de Saúde Mental e a conexão com a Rede Nacional de Dados em Saúde.
Patrus também recorre aos consórcios macrorregionais, mas especificamente para a estruturação do SAMU. Simões organiza a atenção primária a partir de uma parceria direta com as prefeituras. Kalil, por outro lado, reforça o papel de coordenação do estado, com a Fhemig integrada de forma transversal à rede.
Levar o paciente ou levar o serviço
O deslocamento de pacientes do interior para outras regiões é outro problema comum aos planos, mas as soluções propostas seguem sentidos diferentes. Kalil promete fortalecer o Tratamento Fora de Domicílio e o transporte sanitário eletivo, principalmente nos municípios pequenos. Patrus também aposta no transporte sanitário eletivo, por meio do programa “Caminhos da Saúde”, que prevê múltiplas modalidades de deslocamento.
Gabriel busca reduzir a necessidade de viagens levando os serviços para mais perto dos pacientes. A proposta passa pelos consórcios e, na área de saúde da mulher, por unidades móveis no formato de carreta, com suporte de telemedicina.
Metas, números e dinheiro
Apenas dois dos seis programas estabelecem metas numéricas. Roscoe promete reduzir a mortalidade materna para menos de 25 óbitos por 100 mil nascidos vivos até o fim do mandato, ante 32,9 em 2025. Patrus fixa o prazo de 60 dias para o início do tratamento oncológico após o diagnóstico.
A assimetria também aparece quando os candidatos tratam do financiamento. Roscoe é o único a indicar de onde pretende tirar os recursos adicionais: do combate à sonegação fiscal e da cobrança de royalties minerais em atraso, sem aumento de impostos. Patrus propõe financiamento diferenciado para territórios de alta vulnerabilidade e incentivo financeiro à atenção primária municipal.
Propostas isoladas
Parte das diferenças entre os programas está em medidas que aparecem em apenas uma das propostas. Cleitinho promete permitir a consulta on-line ao estoque das farmácias públicas e criar uma plataforma na qual o paciente possa acompanhar o próprio histórico, exames e encaminhamentos. Kalil quer aproximar a Fundação Ezequiel Dias (Funed) do CT Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e criar uma política de saúde nas escolas articulada à atenção primária.
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Gabriel prevê a criação de uma linha estadual de cuidado destinada às famílias atípicas, com transparência da fila de reabilitação e medidas de apoio aos cuidadores. Patrus projeta levar procedimentos de menor complexidade, exames de raios X e serviços laboratoriais para dentro da atenção básica. O programa também prevê a criação de casas de parto, o estímulo à atuação de doulas comunitárias e a estruturação de uma rede de saúde mental voltada para jovens de 15 a 29 anos.
