A principal estrela das eleições brasileiras completou 30 anos. Para marcar a data, o Estado de Minas preparou uma série especial de reportagens e vídeos que conta a história da urna eletrônica e explica como o dispositivo transformou diferentes etapas do processo eleitoral no país. 

A urna estreou no Brasil nas eleições municipais de 1996, quando foi utilizada apenas em algumas cidades. Em Minas Gerais, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberlândia e Contagem, os quatro maiores municípios do estado à época, votaram com o equipamento.

Quatro anos depois, em 2000, os eleitores de todo o país participaram da primeira eleição inteiramente eletrônica da história. A ideia de substituir o voto em papel por uma máquina, no entanto, é bem mais antiga.

Máquinas de votar 

Máquinas de votar já estavam previstas no Código Eleitoral de 1932, como explica Maria Berenice Sobral, servidora da Seção de Memória Eleitoral do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG). “Não era um assunto novo para a Justiça Eleitoral. Desde 1932, já se falava em algum dia usar máquinas de votar”, conta.

O processo de informatização das eleições também começou muito antes da primeira votação eletrônica. Inicialmente, foi feito um recadastramento eleitoral, em 1986, quando os eleitores trocaram o antigo título de papel pelo modelo verde atual.

"“Não era um assunto novo para a Justiça Eleitoral. Desde 1932, já se falava em algum dia usar máquinas de votar”"
por Maria Berenice Sobral, servidora da Seção de Memória Eleitoral do TRE-MG

“Antes era tudo manual. Todo o trabalho, tanto dentro do tribunal como nos cartórios, era de classificação das fichas dos eleitores manualmente. A partir de 1986, isso passa a ser feito de uma maneira informatizada”, explica Maria Berenice. 

Os primeiros testes da urna eletrônica

Em seguida, o processo de totalização foi informatizado. A votação ainda era feita em cédulas, mas a Justiça Eleitoral passou a testar, a partir de 1994, a utilização de sistemas de processamento de dados para transformar as informações da apuração em dados eletrônicos. “O sistema começa a ficar completamente informatizado. Só faltava o voto”, diz.

Publicação do Estado de Minas de 3/10/1996 mostrou cenas da primeira votação com urna eletrônica do Brasil

Arquivo EM
 

A busca por uma máquina de votar ganhou força após uma crise na apuração das eleições gerais no Rio de Janeiro, em 1994, que levou à anulação do pleito e à realização de uma nova votação, em meio a denúncias e constatações de fraudes.

Foi criada, então, a urna eletrônica, cujo nome oficial é Coletor Eletrônico de Voto (CEV). Planejada para informatizar a votação e reduzir a interferência humana na apuração, que produzia erros tanto acidentais quanto intencionais, ela funciona sem acesso à internet ou a qualquer rede externa. Esse isolamento é um dos principais mecanismos de segurança da urna, pois impede acessos remotos ao equipamento.

Produção nacional das urnas

A parte física da urna, chamada de hardware, é produzida no Brasil por empresas contratadas por meio de licitação. O software, por sua vez, é desenvolvido exclusivamente pela Justiça Eleitoral.

Para impedir alterações não autorizadas, a urna só executa programas assinados digitalmente pelo Tribunal Superior Eleitoral. Se alguém tentar instalar um programa diferente, o equipamento simplesmente não funciona. Da mesma forma, a assinatura digital também protege os arquivos gerados pela urna, impedindo que sejam alterados sem o conhecimento dos órgãos eleitorais.

Até chegar ao modelo atual, a urna passou por diversas mudanças. Um dos primeiros protótipos foi desenvolvido pelo TRE-MG, em conjunto com a IBM. O modelo mineiro apresentou o teclado em forma de telefone e as teclas coloridas, pensadas para facilitar a votação de pessoas analfabetas, que haviam conquistado o direito ao voto na Constituição de 1988. 

O que garante o sigilo das urnas?

Ao longo das três décadas seguintes, a urna passou por novas evoluções. Ganhou o Registro Digital do Voto (RDV), arquivo dentro do aparelho que registra e embaralha os votos digitados para garantir o sigilo, consolidou a identificação biométrica dos eleitores e incorporou recursos de acessibilidade, como sintetizador de voz e intérprete de Libras. 

Em 2026, a urna apresenta mudanças na interface. Uma barra de progresso permitirá que o eleitor acompanhe quais cargos já foram votados, qual está em votação e quais ainda faltam. A alteração busca reduzir a possibilidade de que o eleitor digite corretamente o número do candidato que deseja escolher, mas o faça no campo destinado a outro cargo. 

“A chegada da urna eletrônica foi uma revolução e teve impactos em várias áreas. Ela revolucionou todo o trabalho dos cartórios eleitorais, a logística, a apuração, que fica mais ágil, e também a relação dos eleitores com o voto. Foi uma grande repercussão em todos os níveis”, afirma Maria Berenice. 

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Nas próximas reportagens desta série especial sobre a urna eletrônica, serão abordados temas como as dificuldades do processo manual de votação, o processo de licitação e produção das urnas e o período em que foram fabricadas em Minas Gerais, as fases de auditoria que garantem a transparência do processo e o caminho do voto até a totalização no TSE e a divulgação do resultado. 

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