Centenas de mulheres ocuparam a Praça Raul Soares, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte (MG), na manhã deste domingo (8/3), para marcar o Dia Internacional de Luta das Mulheres com um protesto em defesa da vida das mulheres e contra o avanço da violência de gênero.
Com faixas, palavras de ordem, música e intervenções artísticas, o ato reuniu movimentos feministas, coletivos populares e lideranças políticas, transformando o espaço em um grande ponto de encontro para denunciar o feminicídio e cobrar políticas públicas.
O protesto começou por volta de 9h, com concentração na praça. A programação incluiu apresentações culturais e falas de ativistas, antes de as manifestantes seguirem em marcha pela Avenida Amazonas. Entre os cartazes erguidos pelas participantes estavam frases como “Parem de nos matar”, “Nenhuma morte esquecida” e “Criança não é mãe e nem esposa”, mensagens que sintetizam algumas das principais pautas do movimento neste ano.
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Além da denúncia da violência de gênero, a mobilização também incorporou críticas às políticas do governo de Romeu Zema (Novo). Durante o ato, manifestantes entoaram gritos de “Fora Zema”.
Entre as participantes estava Paula Dornelas, militante do Movimento de Mulheres Olga Benário e integrante da coordenação da Casa Tina Martins, espaço conhecido pela atuação no acolhimento de mulheres em situação de violência. Para ela, a presença nas ruas é uma ferramenta de pressão política.
“Ainda tem muita coisa para ser desenvolvida e nós, neste 8 de março também, fazemos um chamado de que é possível esse enfrentamento à violência para além da punição, mas garantindo políticas públicas para as mulheres”, disse.
O ato deste ano também marca os dez anos da ocupação da Casa Tina Martins. “A gente está aqui ocupando as ruas no 8 de março, que é o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. Em 2016, nessa mesma data, ocupamos a Casa Tina Martins para denunciar a situação de violência no nosso estado e também para construir uma alternativa de organização das mulheres na luta pelos nossos direitos”, contou Paula.
Para Paula, enfrentar a violência contra mulheres passa também por questões econômicas e sociais. “Hoje as mulheres recebem cerca de 25% a menos que os homens fazendo o mesmo trabalho, e essa desigualdade é ainda maior quando falamos das mulheres negras. Como uma mulher sai de uma situação de violência se o salário não paga o aluguel, se a cesta básica está cara e se não tem creche para deixar os filhos?”, questionou.
Manifestantes exibem faixas contra feminicídio e violência de gênero durante ato do 8 de março na Praça Raul Soares, no Centro de Belo Horizonte
A ex-deputada federal Áurea Carolina, que participou do ato e é pré-candidata ao Senado, também destacou a gravidade da violência de gênero no país. Para ela, o aumento dos casos de feminicídio exige uma resposta mais ampla da sociedade.
“A gente está atravessando uma verdadeira epidemia de feminicídios. É um problema que atinge mulheres, famílias e crianças, e precisa ser enfrentado como um compromisso de toda a sociedade”, afirmou. Segundo ela, o debate sobre a violência machista precisa envolver também os homens e as famílias.
Durante a manifestação, Áurea levou o filho de seis anos, com quem preparou um cartaz com a frase “Meninos e meninas contra a violência”. “Essa conversa precisa acontecer dentro de casa também. Sem um pacto social mais amplo, a gente não consegue enfrentar essa realidade”, disse.
Também presente na manifestação, a advogada Cristiane Lara viajou de Itaúna, na Região Centro-Oeste de Minas, para participar do protesto na capital. Presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar da OAB do município e integrante de uma rede estadual de defesa dos direitos das mulheres, ela destacou que a mobilização social tem papel central na conquista de direitos.
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“Os direitos das mulheres nunca vieram de forma espontânea. Eles sempre foram resultado de luta e de mobilização social”, afirmou. Cristiane lembra que avanços históricos, como o direito ao voto feminino em 1932, o Estatuto da Mulher Casada, a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio como crime, foram precedidos por movimentos organizados de mulheres.
“Todas essas conquistas nasceram de indignação e organização. É por isso que a gente precisa continuar se movimentando. Essa caminhada aqui hoje é simbólica justamente porque mostra que a sociedade precisa seguir mobilizada para garantir e ampliar esses direitos”, disse.
Segundo a advogada, a defesa da vida das mulheres deve ser tratada como uma causa coletiva. “Esse não é um movimento partidário. A violência contra a mulher não tem partido. É uma mobilização política no sentido de defender direitos e proteger a vida de todas as mulheres”, afirma.
Durante o trajeto da marcha, houve um breve momento de tensão com a Polícia Militar. Na Avenida Amazonas, na altura da esquina com a Rua Santa Catarina, policiais tentaram limitar a passagem das manifestantes caso uma faixa da via não fosse liberada para o tráfego de veículos. Após alguns minutos de discussão entre organizadoras do ato e os agentes, a situação foi contornada e o grupo seguiu com a mobilização.
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A mobilização em Belo Horizonte faz parte de uma série de atos realizados em diversas cidades do país neste domingo, em um contexto marcado pelo aumento dos casos de feminicídio e pela cobrança por políticas públicas mais eficazes de proteção às mulheres.
