É urgente um pacto efetivo contra a violência de gênero
Um país que diariamente enterra vítimas do feminicídio precisa de um pacto coletivo que extirpe de vez a covardia que amedronta mais da metade da sua população
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Bastaram 120 minutos para que fosse registrado o primeiro feminicídio deste ano. Aline Rodrigues de Souza, 27 anos, foi assassinada, na frente dos filhos, pelo ex-namorado, no município mineiro de Bom Repouso. Um enredo de violência que dá continuidade a um 2025 também letal – com média de quatro mortes por dia. Outras 33.993 foram estupradas ao longo do ano passado, segundo o Observatório da Mulher, vinculado ao Senado Federal. Esse tratamento vil dos homens às mulheres exige definitivamente um combate coletivo e mais educação.
Em entrevista aos Diários Associados, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, anunciou que, neste ano, serão investidos R$ 280 milhões e implantadas 29 Casas da Mulher Brasileira em várias regiões do país, uma delas no Distrito Federal. Nesse mesmo sentido, o de reforçar o pacto de combate à violência de gênero, o Correio Braziliense promoverá, no próximo dia 27, um evento sobre a urgência do enfrentamento coletivo a práticas do tipo.
A ruptura tem que ser na base. “Não deixe chegar ao fim da linha, ligue 180", orientou a ministra, para que os maus tratos não cheguem ao feminicídio. Há agressões psicológicas, por meio de ameaças, humilhações e controle de liberdade, como proibir o estudo ou o trabalho; agressões sexuais, impedimento de contraceptivos, aborto forçado, entre outros abusos; patrimonial, por meio de retenção de documentos, destruição de bens e controle financeiro; e moral, como calúnia, difamação e injúria.
Também como foco na base, é preciso criar condições para que as novas gerações cresçam sem reproduzir a violência de gênero e capazes de reagir prontamente a elas. A escola pode ter um papel estratégico nessa empreitada, mas não deve ser a única responsável. É principalmente nas famílias que se constroem valores de respeito às diferenças e à cultura de paz. Infelizmente, é também nos lares brasileiros que se pratica boa parte dos abusos contra as mulheres.
Segundo dados do Atlas da Violência, a residência foi o local de 65,8% dos feminicídios ocorridos no país, em 2023. Já o Observatório da Mulher contra a Violência (OMV) revela que, de novembro de 2024 a novembro de 2025, em 71% dos casos de agressões contra mulheres havia ao menos uma testemunha, e em 70% desses casos havia crianças no ambiente. E mais: em 40% dos crimes com testemunhas, a vítima não recebeu ajuda. Sem um envolvimento de homens, vizinhos, colegas de trabalho, da igreja, entre outras instituições, não se muda essas estatísticas.
Há de se ressaltar que as expressões de violência não estão circunscritas aos lares. A depreciação da mulher está espalhada nas escolas, nos locais de trabalho e até mesmo em instâncias de poder oficializado, como órgãos públicos. Em relação à violência política, a ministra Márcia Lopes antecipou que está desenvolvendo uma lei geral não só para a violência doméstica, “mas também digital e política contra às lideranças femininas, visando combater o retraimento das mulheres nesses espaços”.
Hoje, há grupos masculinos que condenam e combatem o machismo. Ainda que não sejam numericamente expressivos, representam um grande avanço, ao se tornarem parceiros da luta das feministas e, sobretudo, contra a violência contra mulheres. Eles reconhecem que é necessário reeducar os seus iguais para um relação respeitosa e não agressiva com as amigas e parceiras.
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Não faltam, portanto, projetos e boa vontade. Mas é preciso partir para a prática ampliada. Um país que diariamente enterra vítimas do feminicídio precisa de um pacto coletivo que extirpe de vez a covardia que amedronta mais da metade da sua população.