Nikolas rebate Janja: ‘Eu falo a verdade e, vocês, a mentira’
Para o parlamentar, argumentos de Janja contra o seu posicionamento contra o PL da Misoginia são uma "cortina de fumaça" para a reeleição de Lula
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O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) rebateu as críticas da primeira-dama Janja Silva sobre a atuação do parlamentar contra a PL da Misoginia, aprovada por unanimidade no Senado e que tramita na Câmara dos Deputados. Enquanto Janja o criticou por disseminar discurso de ódio, Nikolas afirmou que a esposa do presidente Lula tem “cara de sonsa”, comprovou que “ele está do lado certo” e disse que os altos índices de crimes de violência contra a mulher ao longo dos últimos anos são de responsabilidade do governo Lula.
O projeto incluiu misoginia entre os crimes de preconceito previstos na Lei do Racismo. O projeto estabelece, por exemplo, a injúria misógina, com pena de prisão de 2 a 5 anos e multa, além da criminalização de condutas como praticar, induzir ou incitar discriminação contra mulheres.
Em vídeo publicado no Instagram, a primeira-dama disse que, enquanto Nikolas “se preocupava em produzir um vídeo cheio de mentiras e protegendo aqueles homens que vão pra internet disseminar discurso de ódio, se preocupava em editar seu vídeo bonitinho” e “se preocupava em atacar outras mulheres”, mulheres eram assassinadas.
Para Janja, enquanto homens disseminam discurso de ódio na internet, o ódio pode também atingir suas filhas, irmãs e mãe, que “podem ser violentadas e mortas por conta desse discurso de ódio”. Ela também aconselhou: “Em vez de você se preocupar em gravar seus vídeos bonitinhos, cheios de edição e de fake news, defenda as mulheres. É disso que a gente precisa”.
Um argumento de Janja é que a defesa das mulheres é uma pauta necessária em Minas Gerais, estado de origem do deputado e pelo qual ele foi eleito à Câmara, uma vez que Minas é o segundo estado que mais mata mulheres no Brasil.
“O discurso de ódio que hoje se dissemina nas redes sociais através do que a gente chama da ‘machosfera’, do movimento redpill, é o que mata as mulheres, é o que está incentivando crianças e adolescentes a atacar mulheres, atacar meninas dentro das escolas, atacar mulheres nas ruas. Então a gente precisa estar atentas e fortes. Nós mulheres não vamos desistir, nem eu deputado, não se preocupe, eu vou estar sempre ao lado das mulheres nessa luta contra esse discurso de ódio. Eu não vou desistir”, finalizou.
Nikolas rebate
Para Nikolas, o discurso de Janja provou que “ele está no caminho certo”. Em vídeo publicado no X, antigo Twitter, o parlamentar usou argumentos de índices de violência contra a mulher para criticar o governo Lula e fez analogias com relações diplomátcas do governo federal com outros países com índices de violência à mulher para criticar o posicionamento estatal "verdadeiro" no combate à misoginia. Ele também usou uma informação falsa sobre do que se trata o projeto de lei e repetiu diversas vezes que Janja tem uma "cara de sonsa".
"Não adianta você [Janja], com essa cara de sonsa, tentar enganar alguém”. Na visão dele, o projeto não tem “nada a ver” com violência contra a mulher, violência doméstica e morte de mulheres, mas, sim, “uma forma de controlar o que pode e o que não pode ser dito”.
O deputado usou como argumento um estudo da Flasco (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), divulgado pelo Uol em 2015, que afirma que, entre 2003 e 2013, a taxa de homicídios contra mulheres aumentou em 8,8%, dizendo que “o governo do PT e o seu marido governou o Brasil e aumentou a morte de mulheres em 10%”. Na janela de tempo de 2023, “uma mulher era morta a cada seis horas no governo do Nikolas? Não, do Lula”.
Nikolas citou filho de Lula, Lulinha, que supostamente teria a xingado de “puta”, e disse que ela não o critica por ser filho de seu marido. Ele também afirmou que a crítica aos vídeos se trata de “inveja” e criticou os índices de violência no governo de Nicolás Maduro, ex-presidente da Venezuela que tinha uma relação com o governo federal. “A diferença de mim pra vocês, não só que eu falo a verdade e, vocês, a mentira, mas que eu não gasto R$ 130 milhões para ficar engajando na internet os conteúdos ridículos que o PT faz”.
Na publicação, Nikolas criticou omissão de Janja quando uma jornalista foi agredida por um segurança de Maduro e quando “ficou em silêncio” frente à demissão do ministro de Direitos Humanos Silvio Almeida do governo federal por assédio sexual. “Ele era ministro do Lula. Se ele fosse ministro do Bolsonaro, você ficaria em silêncio? Isso não é defender as mulheres. Isso é defender as mulheres que te convém”, afirmou.
O parlamentar afirmou que o discurso feito pela primeira-dama é uma “cortina de fumaça” para ganhar as eleições. Nikolas usou um trecho em que Janja afirma que o discurso de ódio pode atingir familiares próximas de quem dissemina ódio na internet e, mudando o foco da discussão, citou violência contra as mulheres nos ataques no Irã e Israel, “os verdadeiros extremistas”.
Na visão dele, o PL da Misoginia quer “fazer um patrulhamento do que pode e não pode ser dito” e que não pode ser comparado ao crime de matar mulheres. “Toma vergonha na cara, Janja. Todo mundo tá percebendo que o governo do PT nada mais faz do que piorar a situação das mulheres”, afirmou.
Minha resposta à Janja. pic.twitter.com/eMPi15d5zp
— Nikolas Ferreira (@nikolas_dm) March 29, 2026
Ele criticou ainda a demora na sanção da lei do Cadastro Nacional de Pedófilos e Predadores Sexuais, que “teu marido ainda não leu e até hoje não colocou em prática, mesmo o Congresso tendo aprovado”, e a comemoração de deputados “do partido de vagabundos do seu marido” com o fim das investigações da CPMI do INSS.
Outro argumento usado por Nikolas em um longo vídeo de rebate foi o pedido de habeas corpus protocolado por deputados do PT para soltura de detentos em condições sérias de saúde e com mais de 70 anos. Segundo ele, pode soltar estupradores e pessoas do crime organizado.
Informação falsa para justificar crítica
Nikolas usou um argumento falso para justificar a crítica ao projeto de lei. “O que coloca mais em risco as mulheres? Eu explicar que nada a ver esse PL da Misoginia, que na verdade você vai ser preso se perguntar uma mulher se está de TPM ou não, ou um partido e deputados que acionam o STF para soltar criminosos? Cadê o videozinho com essa cara de sonsa?”.
O PL não criminaliza “perguntar a uma mulher se ela está de TPM ou não”, mas o discurso de ódio em que um grupo alega supremacia biológica, física e intelectual de homens sobre as mulheres, principalmente em espaços como a internet.
Segundo ele, a esquerda usa a palavra misoginia “para calar qualquer um que discorde de vocês”. “Na cabeça de vocês isso é mais pesado do que as 363 mortes de yanomamis no primeiro ano do Governo Lula, que obviamente inclui mulheres”, afirmou.
“Quando vocês entregam um país de merda pras mulheres, e também pros homens, sem segurança, sem saneamento básico, sem educação, aumentando impostos. De que forma estão ajudando mulheres aumentando impostos? Usa dinheiro das pessoas, das mulheres, para ficar viajando.
Quanto à crítica sobre Minas Gerais ter um alto índice de feminicídios, Nikolas afirmou que “nunca foi presidente da República, muito menos governador do estado”. “Colocar a responsabilidade nas minhas costas? Realmente, você está aprendendo muito bem com teu marido a mentir”, afirmou.
Enquanto o PL combate o discurso de ódio, que pode acarretar crimes maiores, Nikolas usa dados do aumento de crimes contra mulheres e culpabiliza o governo Lula, que cresce o número de reprovação.
O PL da Misoginia
O texto foi aprovado por unanimidade na Casa e será apreciado pela Câmara dos Deputados. Em outro momento, Nikolas criticou o projeto nas redes sociais, considerando-o uma “aberração” e afirmando que vai trabalhar contra o projeto no Parlamento.
O PL 896/2023 é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PDT-MA) e foi relatado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS). Na tribuna da Comissão de Constituição e Justiça, Thronicke disse que o texto reforça o enfrentamento a grupos que afirmam supremacia biológica, física e intelectual de homens sobre as mulheres, principalmente em espaços como a internet.
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"Nós brasileiros passamos a acordar e dormir com várias notícias de violência contra mulheres. Nós só ficamos sabendo quando já é tarde demais, porém, a violência começa lá atrás de inúmeras maneiras, e uma delas é a misoginia", argumentou. Para ela, o projeto de lei é importante para “matar essas atitudes abjetas e desumanas no nascedouro e tranquilizar quem não está cometendo misoginia”.