O ex-presidente da Câmara dos Deputados e ex-deputado federal Eduardo Cunha (Republicanos-RJ) afirmou, em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, que não tem nenhum arrependimento por ter conduzido o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Pelo contrário, diz lamentar apenas não ter iniciado o processo antes.
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“Nenhum. Eu só tenho arrependimento de não ter feito antes. Eu acho que demorei para aceitar o impeachment”, afirmou.
Segundo Cunha, o país vivia um cenário de crise econômica e desgaste político no momento da abertura do processo. Ele cita índices baixos de aprovação do governo e perda de sustentação no Congresso e na sociedade. “O país estava em frangalhos, a economia em bancarrota. O nível de avaliação da Dilma era entre 3% e 5% de ótimo e bom. Era inviável. Era uma presidente que não podia andar na rua”, declarou.
O ex-presidente da Câmara defendeu a legalidade do processo e afirmou que sua decisão apenas deu início ao rito constitucional, cabendo ao Congresso o julgamento final. “Eu tive que agir tecnicamente e dentro da legalidade. A Câmara confirmou pelo quórum qualificado, o Senado aprovou o afastamento e a julgou culpada pela maioria. O meu ato não produziu a consequência sozinho. Ela foi julgada e considerada culpada”, disse.
Cunha também contestou a narrativa de que o impeachment teria sido motivado apenas pelas chamadas pedaladas fiscais. Segundo ele, o crime de responsabilidade ocorreu com a edição de decretos orçamentários antes da aprovação da nova meta fiscal pelo Congresso.
“Ela editou decreto de execução orçamentária sobre algo que não existia no orçamento. Quando executou, praticou um crime. Pedalada fiscal foi o que aconteceu em 2014. Em 2015 foi outra coisa, foi crime mesmo”, afirmou.
Relação com o governo Dilma
Questionado sobre o relacionamento com o governo à época, Cunha negou que tenha faltado diálogo e disse que o principal problema foi a perda de base política do Planalto. “Depois da vitória, eu tive toda a grandeza de dialogar o máximo possível. O problema é que o governo perdeu a base. Não tinha voto”, disse.
Ele rejeitou a acusação de que teria promovido uma “pauta-bomba” para pressionar o Executivo. “Eu não deixei de votar uma proposta do governo. Toda medida provisória era votada. Tudo que o governo pediu para votar, eu votei. Eu não tinha culpa se o governo perdia”, afirmou.
Cunha também disse que o papel do presidente da Câmara não é atuar como líder do governo. “Eu sou presidente da Câmara, não sou líder do governo. Quem tem que ser responsável pela votação é o governo”, declarou.
Avaliação sobre Hugo Motta
Na entrevista, Cunha também comentou a atuação do atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Para ele, o parlamentar atua dentro da lógica de consenso que marcou sua eleição para o cargo, mas esse modelo traz dificuldades. “Ele foi eleito por um consenso. Então tem que atuar buscando consenso em tudo. É muito ruim atuar sobre consenso. Eu prefiro atuar como atuei, governando com quem votou em mim”, afirmou.
Segundo Cunha, a tentativa de agradar a todos pode gerar sensação de indecisão. “Você tem que deixar que às vezes a coisa se acomode por si mesma, porque não pode tomar decisão. Aí passa uma sensação de indecisão, não por indecisão, mas pela dificuldade de atender a todos”, disse.
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Cunha foi o entrevistado do EM Entrevista desta segunda-feira (9/2). A íntegra você confere na edição impressa desta terça-feira (10/2) e no YouTube do portal UAI.
