Lula avalia que Toffoli abalou imagem do STF
Presidente vê deterioração da imagem do Supremo há semanas por causa do escândalo. Cenário piorou após PF encontrar menções ao ministro no celular de Vorcaro
compartilhe
SIGA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) — Ao longo das investigações em torno do caso do Banco Master, a posição do presidente Lula (PT) era que o ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), deveria se afastar do processo, do qual era relator no tribunal.
O petista vinha expondo a aliados a opinião de que a permanência do ministro na investigação prejudicava a imagem da corte.
Na noite desta quinta (12), o Supremo decidiu afastá-lo após uma série de desgastes. A decisão foi tomada por unanimidade pelos ministros do STF depois de tensas reuniões realizadas ao longo do dia.
A avaliação de que seria melhor o ministro deixar o caso era compartilhada por ao menos três pessoas ligadas a Lula ouvidas pela Folha. Embora não tenha havido uma reunião formal entre Lula e seus ministros, o assunto foi discutido, sob reserva, entre ministros palacianos e também com o presidente.
No Planalto, o entendimento era de que não se deveria focar na depreciação da figura de Toffoli, mas que a situação do ministro se dificultou e tem potencial de comprometer a imagem do Supremo. De acordo com esses interlocutores, o procedimento ideal seria o afastamento do ministro do caso.
O presidente teria afirmado ser necessário encontrar uma “saída” para o tema — neste caso, o afastamento de Toffoli da relatoria.
Na manhã desta quinta (12), Lula se reuniu com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, fora da agenda oficial. No encontro, realizado um dia depois da informação de que relatório da PF diz que foram encontradas menções a Toffoli no celular do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, Lula e Gonet teriam tratado de investigações policiais relativas a bets e a bancos.
A Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência) afirmou que o encontro entre os dois será adicionado à agenda. A reunião durou cerca de meia hora e foi feita horas antes de Gonet participar de sessão no Supremo em que o tema seria discutido.
Segundo auxiliares do Planalto, o presidente e o PGR já haviam combinado este encontro, durante a abertura do ano no Judiciário, no início do mês. Na ocasião, ao discursar, Lula falou, na presença dos ministros da corte, incluindo Toffoli, em punição a “magnatas do crime”.
A análise de Lula contrasta com a postura adotada pela cúpula do Congresso. Como mostrou a Folha, esse grupo e o centrão têm tentado blindar Toffoli e conter as discussões sobre impeachment do ministro.
Nesta semana, a PF enviou a Fachin um relatório em que diz ter encontrado menções a Toffoli no celular de Vorcaro e mensagens apontando para pagamentos feitos à empresa Maridt, que tem Toffoli entre seus sócios.
Diante disso, o presidente do Supremo, Edson Fachin, convocou para esta quinta-feira (12) uma reunião com os colegas para discutir o novo capítulo da crise envolvendo o banco.
O encontro ocorreu para que Fachin desse ciência aos demais sobre o relatório da PF e sobre a resposta que Toffoli já enviou à presidência, negando haver razões para suspeição. A Folha apurou que, na manifestação, o relator diz que não tem relações pessoais nem de proximidade com o banqueiro Daniel Vorcaro.
A resposta de Toffoli já foi encaminhada por Fachin à Procuradoria-Geral da República (PGR), junto à íntegra do relatório entregue pela PF, para um parecer dos procuradores.
As alegações levaram o ministro a divulgar duas notas — uma na quarta-feira, afirmando que a PF fazia “ilações”, e outra nesta quinta, em que ele nega ser amigo ou ter recebido dinheiro de Vorcaro, embora confirme ter sido sócio do resort Tayayá.
Nos bastidores do STF, a leitura é de que o cenário se agravou para Toffoli, que a corte vive uma crise sem precedentes e que Fachin volta a estar em um fogo cruzado sobre como lidar com a intensificação dos desgastes.
A tendência é de que o presidente do Supremo negue a arguição de suspeição, já que a PF não tem legitimidade para fazer um requerimento dessa natureza. A decisão de Fachin deve ser monocrática (individual) e restrita a essa questão técnica, sem adentrar no mérito sobre as relações entre Toffoli e Vorcaro.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A reunião no Supremo ocorre no mesmo dia em que Fachin planejava fazer um almoço de confraternização entre os ministros e debater a ideia de um código de conduta — evento que acabou cancelado, conforme aviso enviado aos gabinetes em 4 de fevereiro.