“A decisão do diretório coloca um protagonismo no PT mineiro. Como existia uma grande costura para entender qual era o nome do partido, agora temos uma candidatura forte”. Com essa avaliação, a prefeita de Contagem, Marília Campos, comentou ao Estado de Minas a decisão do Grupo de Trabalho Eleitoral do PT de homologar seu nome como pré-candidata ao Senado Federal por Minas Gerais em 2026. A deliberação ocorreu em reunião realizada na quarta-feira (28/1) e ainda depende do aval da Executiva estadual da legenda para ser oficializada.
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A indicação de Marília reforça o movimento do Partido dos Trabalhadores de buscar um nome com alta densidade eleitoral e trajetória consolidada para a disputa por uma das duas vagas ao Senado no estado. Em nota, o PT destacou que “Marília já demonstrou sua capacidade e seu apoio popular nas quatro administrações em que esteve à frente daquela cidade e nos três mandatos como deputada estadual” e afirmou que sua candidatura “poderá contribuir de maneira decisiva para uma nova vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Minas Gerais”.
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Caso confirmada e eleita, Marília poderá protagonizar um feito inédito. Desde a redemocratização do país, em 1988, Minas Gerais nunca elegeu um senador filiado a partidos de esquerda. A primeira eleição ao Senado após a promulgação da Constituição ocorreu em 1990 e, desde então, nenhuma candidatura desse campo político conseguiu vencer a disputa majoritária no estado. Se vitoriosa em 2026, Marília será a primeira representante da esquerda mineira a ocupar uma cadeira na Casa.
A eleição para o Senado ocorre a cada quatro anos, de forma concomitante à disputa pela Presidência da República e pelos cargos de deputados federais e estaduais. Cada estado tem direito a três senadores, com mandatos de oito anos, e a disputa é alternada quanto ao número de vagas. Em 2026, duas cadeiras estarão em jogo. Na eleição seguinte, em 2030, apenas uma.
Neste ano se encerram os mandatos de Rodrigo Pacheco, eleito em 2018 pelo então Democratas, hoje no PSD, e de Carlos Viana, eleito pelo PHS e atualmente filiado ao Podemos. O outro senador mineiro é Cleitinho, cujo mandato vai até 2030.
Apesar da ausência de vitórias, candidaturas da esquerda chegaram, no máximo, ao terceiro lugar entre 1994 e 2014, com nomes do PT, PDT e PSB. O pior desempenho ocorreu em 2018, quando a ex-presidente Dilma Rousseff concorreu em uma disputa com duas vagas e terminou em quarto lugar. Os eleitos naquele ano foram Rodrigo Pacheco e Carlos Viana, com o terceiro lugar ficando com Dinis Pinheiro. A esquerda voltou a repetir um quarto lugar em 2022, com a candidatura de Sara Azevedo, do PSOL.
O PDT chegou a ter uma senadora por Minas, Júnia Marise, eleita em 1990. À época, porém, ela estava filiada ao PRN, partido do então presidente Fernando Collor de Mello. A parlamentar só se filiou ao PDT em 1993. Tentou a reeleição pela legenda em 1998, mas foi derrotada por José Alencar, então no PMDB.
Segunda vaga
Para a segunda vaga ao Senado, assim como para as candidaturas ao governo do estado e à vice-governadora, o PT mineiro informou que seguirá em diálogo com partidos e lideranças da base do governo federal. A estratégia de trabalhar com apenas um nome competitivo foi explicitada pela própria Marília em entrevista concedida na segunda-feira (26).
“O PT ainda não definiu, eu não conversei com o presidente Lula e eu acho que isso tudo tem que ser amarrado direito”, afirmou. Entre as condições, citou o apoio público e explícito do presidente. “Uma delas é ser abraçada pelo presidente Lula. Eu quero que ele fale: ‘Ó, Marília, você é a minha candidata do meu coração’. Eu quero esse chamego do presidente Lula.”
A prefeita também condicionou a decisão à garantia de estrutura partidária para uma campanha em um estado com 853 municípios. “Não dá para ser voluntária. Eu preciso de estrutura para fazer campanha, de meios para me locomover e de jornalistas para fazer rede social”, afirmou.
Nos bastidores, dirigentes do PT avaliam que o partido deve concentrar esforços em uma candidatura única ao Senado, deixando a segunda vaga para ser construída em diálogo com aliados, como parte de uma composição mais ampla para 2026.
Disputa
O debate em torno da vaga ao Senado reabre um conflito antigo entre PT e PSD em Minas Gerais. Em eleições anteriores, a disputa entre as duas legendas já ameaçou a unidade do palanque presidencial no estado. Em 2022, o PT defendia a candidatura do deputado federal Reginaldo Lopes ao Senado, enquanto o PSD apostava no então suplente e depois senador Alexandre Silveira, que havia assumido a vaga deixada por Antonio Anastasia, nomeado para o Tribunal de Contas da União.
Naquele contexto, o impasse ocorreu simultaneamente à pré-candidatura de Alexandre Kalil ao governo de Minas, pelo PSD, que buscava uma aliança formal com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O conflito entre a candidatura petista ao Senado e a pretensão do PSD gerou receios de fragmentação do palanque presidencial no estado.
Agora, em 2026, Silveira volta ao jogo. Atualmente ministro de Minas e Energia no governo Lula, ele é um dos nomes cotados para a segunda vaga ao Senado, embora a pré-candidatura enfrente obstáculos. Isso porque o vice-governador Mateus Simões, também filiado ao PSD, deve disputar o governo do estado, o que pode colocar no mesmo palanque candidaturas com orientações políticas distintas.
Além disso, a legenda é presidida em Minas por Cássio Soares, que já manifestou reservas quanto a uma eventual candidatura de Silveira ao Senado. “Vejo muita dificuldade”, afirmou o dirigente estadual na semana passada, no podcast EM Entrevista, ao defender que a coexistência de um palanque ao governo alinhado à direita com uma candidatura ao Senado apoiadora de Lula poderia gerar ruído entre os eleitores.
Segundo ele, apesar da boa relação institucional com o ministro, a configuração eleitoral traria risco de incoerência política. Ainda assim, ressaltou que o tema “nunca foi colocado em discussão” formalmente dentro do partido.
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No campo progressista, além de Marília, também manifestaram interesse na disputa a deputada federal Duda Salabert e a ex-deputada federal Áurea Carolina, que oficializou sua pré-candidatura pelo PSOL em dezembro. “Hoje eu volto a dizer em voz alta: estou pronta para disputar o Senado em 2026. É um chamado que nasce do coletivo, das mulheres que marcham comigo e dos movimentos que me sustentam”, afirmou Áurea, ao anunciar o retorno ao partido.
