Domingos Caldas Barbosa. Eis o nome completo de um brasileiro ainda pouco conhecido em sua terra natal, mas que fez imenso sucesso em Portugal no século 18. Poeta, padre, músico e dramaturgo, com a língua afiada nas críticas sociais, ele nasceu escravizado no Rio de Janeiro e emigrou, aos 21 anos, para o país europeu, indo estudar em Coimbra. Agora, mais de dois séculos depois, a vida e a obra de Caldas Barbosa (1742-1800) se iluminam com o lançamento de “Papagaio de açúcar” (Penguin Clássicos), dos pesquisadores mineiros Bruna Kalil Othero e Filipe Dias Vieira, doutorandos na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos.

Entrevista: Filipe Dias Vieira e Bruna Kalil Othero: "Domingos Caldas Barbosa é um personagem singular na história brasileira"

O grande chamariz da obra, que chega às livrarias no fim de novembro, está no fato de incluir 29 poemas inéditos do autor, filho de um português e uma escravizada resultado de estudos incessantes de Bruna e Filipe. Nas buscas, os dois fizeram ainda descobertas sobre as origens do inspirado carioca que soube unir, com maestria, os batuques à erudição do além-mar. Num misto de admiração, fascínio e quase devoção por Domingos Caldas Barbosa, os pesquisadores explicam, de início, o curioso título da obra e falam sobre os preciosos achados.

Bruna com a palavra: “Costumamos brincar que se trata de um lançamento de mais de dois séculos com poemas inéditos. Na verdade, este livro é nossa humilde contribuição para apresentar o poeta aos leitores contemporâneos. O título e essa imagem muito poética e instigante reúnem dois signos caros ao Domingos. Primeiro o papagaio, ave tipicamente associada ao Brasil. Nos primeiros mapas, o Brasil era a ‘Terra dos Papagaios’. É uma ave diferente, colorida, divertida, que imita o que ouve. Vejo isso como uma ideia precursora da antropofagia e do canibalismo do Oswald de Andrade (1890-1954) e dos modernistas, por ele estar ‘comendo’ a estrutura europeia e falando com sua voz de papagaio, imitando a forma europeia, mas colocando seu tempero e sotaque brasileiros”.

Filipe destaca a “brasilidade” de Domingos que, em vários poemas, se coloca como papagaio e não como uma ave europeia. “Ele fala: Não é do Tâmisa um cisne / Que quer soltar doce canto / Brasileiro Papagaio / De arremedo a voz levanto.” Usa a figura do papagaio para falar de si. Recusa o cisne branco dos europeus, abraça o papagaio brasileiro e assume o arremedo, a cópia, como ferramenta subversiva de construção poética. E de onde vem o “açúcar” do título, é preciso perguntar. “Bem, o açúcar é um dos produtos mais importantes da exploração colonial. Traz essa questão da doçura, de exportar a doçura do falar brasileiro, a malemolência”.


Palavras de línguas indígenas e africanas


Importante situar o tempo no qual viveu o afro-brasileiro Caldas Barbosa, comparável, hoje, a um artista performático. No Brasil de sua época, há o período do arcadismo (movimento literário no século 18, que valorizava a simplicidade, a razão e o equilíbrio), principalmente mineiro, representado pelos inconfidentes, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), Cláudio Manoel da Costa (1729-1789) e Alvarenga Peixoto (1744-1792). Já na Europa, existem importantes nomes na música, entre eles o austríaco Mozart (1756-1791), e na literatura o Marquês de Sade (1740-1814). “Imagine que Sade é contemporâneo de Caldas Barbosa!”, diz Bruna.

Para entender melhor aqueles tempos, os pesquisadores se valem de uma imagem contemporânea, especialmente o “slam”, competição de poesia falada e autoral realizada ao vivo diante do público. “As reuniões da Nova Arcádia ("as quartas-feiras de Lereno") eram batalhas poéticas em que homens de peruca tomando chá trocavam versos. Em ‘A Doença’, o poeta diz: ‘Nos certames poéticos temido, eu fazia calar-se arrependido, aquele que soberbo se me opunha, e disto é muita gente testemunha.’ Ele destruía os oponentes na rima! Isso se conecta diretamente com a cultura popular, a música brasileira e a força dos projetos artísticos afro-brasileiros que fundem raízes africanas, indígenas e europeias.”

Conforme Filipe, Caldas Barbosa usava palavras de línguas indígenas e africanas, antecipando o “pretuguês” conceituado mais tarde por Lélia Gonzalez (1935-1994). “É um poeta do século 18 extremamente atual que nos ajuda a reescrever a história desse período, mostrando que existia resistência e inovação.

Embora nunca retornando ao Brasil, Caldas Barbosa teve peças encenadas na Casa da Ópera, hoje Teatro Municipal de Ouro Preto (na Região Central de Minas), o mais antigo em funcionamento nas Américas. “Vila Rica (antigo nome de Ouro Preto) era um dos centros mais importantes do Império Português. Ele foi um dos precursores da ópera em língua portuguesa, trazendo contornos tipicamente brasileiros. ‘A Vingança da Cigana’ chegou a ser encenada em Ouro Preto em 1796, mostrando a circulação cultural entre Minas, Rio de Janeiro e Portugal”, conta Filipe.

“E essa ópera é uma das primeiras a apresentar personagens negros, denunciando o racismo e exigindo respeito”, afirma Bruna. “Outra conexão de Caldas com Minas é que, quando o segundo volume de "Viola de Lereno" foi publicado em 1826 (já póstumo), o livro vendeu intensamente. Encontramos jornais do século 19 anunciando sucessivas reimpressões esgotadas.”


A descoberta da certidão de batismo

Foi nos arquivos da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro que Bruna e Filipe fizeram uma importante descoberta. “A origem de Caldas Barbosa era um problema conturbado. Os pesquisadores apostavam no ano de nascimento dele como 1738, 1740. Tínhamos algumas orientações de que poderia haver um documento de nascimento na Cúria Metropolitana. Assim, procuramos, com o auxílio dos padres, e encontramos a certidão de batismo feita em setembro de 1742, e ele nasce um mês antes (4 de agosto)”, explica Bruna.

Mais tarde, eles encontraram, no “Livro dos libertos”, uma ratificação em 1745, três anos após o nascimento, quando o pai reconhece e alforria Domingos e sua mãe, Antonia de Jesus. “Então ‘esse primeiro brasileiro, esse primeiro grande poeta negro’, como o descreve Manuel Bandeira (1886-1968), nasce escravizado e depois forro”, acrescenta.

Nas escolas 


O desejo agora dos pesquisadores é que, após o período de “apagamento”, Caldas Barbosa seja conhecido nas escolas. “Será importante trabalhar sobre ele em sala de aula e círculos de debate a respeito de imigração, questão racial, colonialidade e decolonialidade. Vemos um poeta no século 18 criticando a monarquia e a estrutura escravocrata e de dominação, feridas coloniais que ainda trazem consequências imensas para nosso cotidiano no Brasil e em Portugal”, acredita Bruna.Filipe lembra que o texto do afro-brasileiro é tão forte que atravessou séculos e continua fresco. “O problema são as barreiras impostas pelas estruturas racistas. Brincamos que queremos usar nosso privilégio de estarmos vivos para dar voz a um poeta que já faleceu, mas cujos textos permanecem vivos. Este livro é um passo; sonhamos em ver esse ‘Papagaio de Açúcar’ voando nas escolas para que as crianças cresçam lendo um poeta afro-brasileiro do século 18. É um patrimônio histórico que nos foi negado, e todos os brasileiros merecem conhecer o Caldas Barbosa e o espaço que ele abriu. Como professores, levamos a obra dele para as salas de aula, palestras e congressos, mas o texto por si só tem uma força enorme”.

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“PAPAGAIO DE AÇÚCAR – O MELHOR DA POESIA DE DOMINGOS CALDAS BARBOSA”
• De Bruna Kalil Othero e Filipe Dias Vieira
• Penguin Clássicos
• 408 páginas
• Nas livrarias a partir de 30 de novembro

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