Domingos Caldas Barbosa: um personagem singular na história brasileira
Filipe Vieira e Bruna Othero detalham a ascensão do poeta frente ao preconceito; obra inédita resgata a genialidade do autor de Papagaio de açúcar
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Os pesquisadores Filipe Dias Vieira e Bruna Kalil Othero são fascinados pela história de Domingos Caldas Barbosa. Nos últimos anos, eles se dedicam, no Brasil e no exterior, a estudar vida e obra do poeta carioca, com empenho máximo para grandes descobertas. Entre elas, está a certidão de batismo, lavrada em setembro de 1742, encontrada nos arquivos da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Também, já em Portugal, do caderno de poemas inéditos que deu origem ao livro “Papagaio de açúcar”.
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Nesta entrevista, Filipe e Bruna contam sobre seu despertar para o universo de poemas, críticas sociais, polêmicas, versos eróticos, preconceitos e ingresso na vida religiosa de Domingos. Eles detalham a “volta por cima” dada, na corte portuguesa, pelo negro brasileiro, certeiro ao tirar de letra os olhares enviesados e seguir em frente, senhor do seu talento e da sua arte. E o entusiasmo do casal ao narrar suas descobertas contagia também seus interlocutores.
Quem foi Domingos Caldas Barbosa e como ele surge na vida de vocês?
Bruna – Domingos Caldas Barbosa é um poeta. Fiz letras, graduação, mestrado, e não tinha ouvido falar sobre ele antes de irmos, Filipe e eu, aos Estados Unidos para estudar, fazer o doutorado. Tudo começou a partir do professor Heitor Martins, mineiro também, um grande escritor, professor, ensaísta, pesquisador. Nasceu em Belo Horizonte, fez graduação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e emigrou para os Estados Unidos, nos anos 1960, para ser professor de português e ensinar lá os charmes da nossa cultura. Heitor fundou o programa de português na Universidade de Indiana, onde fazemos pós-graduação, e foi lá que nos conhecemos... ele já aposentado, professor emérito, e nós chegando. Nos unimos devido a Minas Gerais e começamos a conversar até que falou: "Bruna, Filipe, vocês precisam ler o Domingos Caldas Barbosa".
Filipe – O professor Heitor pesquisa o Domingos Caldas Barbosa há décadas, mais de 50, 70 anos, por aí. E apontava sempre o Caldas Barbosa como um grande precursor no Brasil, só que super esquecido. E essa era uma ânsia dele, ficava nos incentivando muito a procurar saber mais. Inclusive, foi a pessoa que nos deu orientações sobre ser possível haver ainda muitos arquivos sobre o Caldas, afirmando: "Ele produziu muito, foi pouco publicado, pouco divulgado."
Bruna – Além do incentivo, o professor Heitor nos deu dicas. Então começamos nossa busca por informações. Ganhamos uma bolsa da Fundação Luso-Americana de Desenvolvimento, instituição que patrocina pesquisas, em Portugal, feitas por estudantes nos Estados Unidos. Fomos para Portugal em 2022 e seguimos os passos de Caldas Barbosa, que nasceu no Rio de Janeiro, emigrou para Portugal e estudou em Coimbra. E aí falamos: Vamos ver então os arquivos em Lisboa, em Coimbra.
Podem situar o período histórico em que viveu Caldas Barbosa?
Bruna – No Brasil, temos o período do arcadismo (movimento literário no século 18, que valorizava a simplicidade, a razão e o equilíbrio), principalmente mineiro, puxado pelos inconfidentes, a exemplo de Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Alvarenga Peixoto. Na Europa, temos nomes importantes na música, entre eles o austríaco Mozart (1756-1791), e na literatura, o Marquês de Sade (1740-1814). Imagine que Sade é contemporâneo de Caldas Barbosa!
Domingos Barbosa vinha de um universo completamente diferente. Podem detalhar o que sabem sobre a origem dele?
Bruna – A origem era um problema conturbado até agora, porque não se sabia ao certo. Os pesquisadores apostavam no ano de nascimento dele como 1738, 1740, sempre muito nebuloso.
Mas aí vocês fizeram uma descoberta absolutamente inédita, certo? Algo que muda o próprio conhecimento da história do Caldas.
Filipe – Exatamente. Não sabíamos a data do nascimento, nada. E então descobrimos um arquivo na Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Tínhamos algumas orientações de que poderia haver um documento de nascimento lá. Assim, procuramos com o auxílio dos padres e encontramos a certidão de batismo feita em setembro de 1742, e ele nasce um mês antes (4 de agosto). Posteriormente, encontramos, no “Livro dos libertos”, uma ratificação em 1745, três anos após o nascimento, quando o pai reconhece e alforria Domingos e sua mãe, Antonia de Jesus. Então “esse primeiro brasileiro, esse primeiro grande poeta negro”, como o descreve Manuel Bandeira (1886-1968), nasce escravizado e depois forro.
Como foram seus passos após essa descoberta?
Bruna – Na Universidade de Coimbra, onde Domingos chegou a estudar, localizamos um caderno com poemas inéditos dele e também a assinatura dele no livro de matrículas, que significa uma fonte primária importantíssima. Só que assim que ele começa a estudar, seu pai morre. Sem recursos, começa a tocar vila nas ruas para sobreviver. E, assim, chama a atenção das pessoas. Os nobres o veem, ficam apaixonados e muitos demonstram a vontade de levá-lo para Lisboa a fim de se apresentar para o rei, a corte. E é assim que ele vai subindo até chegar a tocar para o rei de Portugal.
Filipe – As pessoas que veem Domingos na rua são condes e marqueses. Ficam realmente abismados ao vendo tocando modinha. Porque o que ele produz ali na época, a modinha, era bem diferente do que então existia. Domingos pega a experiência estética europeia e a mistura com o que sabe, com o que aprendeu no Brasil. Faz a fusão dos gêneros europeu e brasileiro, claro, com influências afro-brasileiras, criando algo novo.
O que vocês consideram mais fascinante na vida de Caldas Barbosa?
Filipe – Há vários aspectos fascinantes. É um personagem absolutamente singular na história brasileira. Aliás, não estamos falando apenas da cultura brasileira, porque ele já faz uma fusão de duas áreas muito fortes: a música popular e a poesia. Ele é forte em ambas, sem contar o fato de buscar a fusão da cultura europeia com o berço dele brasileiro, trazendo as matrizes africanas.
Bruna – Eu o considero muito caleidoscópico. Mostra uma camada, depois outra. E esses novos poemas também iluminaram algumas facetas dele que são ainda mais interessantes. Cada um de nós tem um interesse pessoal nele, sua própria pesquisa, e o Caldas Barbosa é o ponto de convergência. Particularmente, dois aspectos me fascinam. Primeiro, essa faceta dele de intérprete do Brasil. Acho interessante porque, ao mesmo tempo em que é intérprete, também é criador do que a gente entende como imagem de Brasil, brasilidade, identidade nacional que vai ser divulgada mundialmente. Ele se reconhece como brasileiro justamente porque sai do Brasil, vai para Portugal, mas o sotaque o denuncia. Ele se coloca ali como brasileiro antes mesmo da Independência. Isso me fascina. E a segunda está no fato de ser um padre escrevendo poemas eróticos, o que acho absolutamente maravilhoso.
Por que o título “Papagaio de açúcar”?
Bruna – Este livro é nossa humilde contribuição para apresentar o poeta aos leitores contemporâneos. O título e essa imagem muito poética e instigante reúnem dois signos caros ao poeta. Primeiro o papagaio, ave tipicamente associada ao Brasil. Nos primeiros mapas, o Brasil era a "Terra dos Papagaios". É uma ave diferente, colorida, divertida, que imita o que ouve. Vejo isso como uma ideia precursora da antropofagia e do canibalismo do Oswald de Andrade (1890-1954) e dos modernistas, por ele estar comendo a estrutura europeia e falando com sua voz de papagaio, imitando a forma europeia, mas colocando seu tempero e sotaque brasileiros. Tem um humor e uma ironia nessa voz do papagaio, uma subjetivação de um animal que se coloca como personagem ativo. E o açúcar...
Filipe – Em vários poemas, Domingos se coloca como papagaio. Ele fala: “Não é do Tâmisa um cisne / Que quer soltar doce canto / Brasileiro Papagaio / De arremedo a voz levanto.” Usa a figura do papagaio para falar de si. Recusa o cisne branco dos europeus, abraça o papagaio brasileiro e assume o arremedo, a cópia, como ferramenta subversiva de construção poética. E o açúcar é um dos produtos mais importantes da exploração colonial. Traz essa questão da doçura, de exportar a doçura do falar brasileiro, a malemolência.
Ele sofreu muito preconceito?
Bruna – Infelizmente, muitos. Vocês acham que os poetas brancos portugueses gostaram de ver um poeta negro brasileiro, vindo da colônia com sotaque, em Portugal no século 18? Claro que não! Várias críticas e poemas de Bocage, Filinto Elísio e outras pessoas do arcadismo debocharam do Caldas de forma abertamente racista, chamando-o de bode, orangotango, enfim, animalizando-o.
Como ele reage?
Bruna – Ele começa publicando no momento da inauguração da Estátua Equestre do rei Dom José I. Trata-se de uma situação solene, pois é um poeta oficial, e ali vai colocando, nas entrelinhas sutis, críticas à colonialidade, principalmente no poema sobre a África, no qual faz parte de um desfile dos continentes em homenagem ao soberano. Domingos Caldas faz um poema para cada continente e, no poema sobre a África, usa a voz do próprio continente como eu lírico e termina dizendo: "Ofereço, te ofereço dons muito mais humanos: aceito o coração dos africanos." É o Caldas dando voz a esse continente tão explorado pela Coroa portuguesa. Depois, publica a recompilação dos sucessos da História Sagrada em versos, aproximando-se da Igreja Católica, o poema autoficcional "A Doença" e contribuições para o "Almanaque das Musas".
Filipe – Usando pseudônimos, a exemplo de outros poetas da época. Bocage, por exemplo, era Elmano Sadino. Mas quando fomos olhar os manuscritos, vimos que em alguns poemas ele assina no final "Domingos Caldas Barbosa". Foram sete poemas. Comparamos com a assinatura dele no registro de passaporte e vimos que era a mesma grafia. O arquivo é de 1794, período em que ele estava vivo em Portugal.
E esses poemas nunca haviam sido publicados?
Filipe – Essa foi nossa surpresa. Olhamos o manuscrito com aquela letra do século 18, bonita, mas difícil de ler, fomos transcrevendo e não reconhecemos os textos. A Bruna, muito boa de memória, checou na hora as edições da "Viola de Lereno", de 1798, e nada. Suamos frio, pois esses poemas não existem nas obras publicadas.
O que chama atenção nesses poemas?
Bruna – Caldas era famoso por tratar de temas delicados, como raça e colonialismo, dentro de modinhas e poemas, mas nesses textos inéditos as críticas são mais explícitas. São poemas de ocasião, homenagens e aniversários onde ele insere críticas diretas ao colonialismo e às questões raciais.
Funcionam como crônicas do cotidiano do tempo dele. Um detalhe interessante é que ele usa o próprio nome como verso, porque "Domingos Caldas Barbosa" tem exatamente sete sílabas poéticas, a métrica da redondilha maior que, mais tarde, será a estrutura da música popular. Ele já estava antecipando isso.
Filipe – Um dos exemplos que mostram a crítica dele às elites europeias é: "Aprenda a gente orgulhosa / a ser grata como é grato / Domingos Caldas Barbosa." E outro trecho, que está na quarta capa do livro, traz essa exaltação racial marcante: "Não há tal, eu sou o mesmo / enquanto assim vivo for: / não mudarei de caráter / como não mudo de cor."
A poesia de Caldas Barbosa atravessou séculos e, para nosso tempo, o que ela tem a dizer? Quais são as questões que emergem junto a essas descobertas?
Bruna – Ele é um poeta excelente para trabalhar nas escolas e em círculos de debate sobre imigração, questão racial, colonialidade e decolonialidade. Vemos um poeta no século 18 criticando a monarquia, a estrutura escravocrata e de dominação, feridas coloniais que ainda trazem consequências imensas para o nosso cotidiano no Brasil e em Portugal.
Filipe – O texto dele é tão forte que atravessou séculos e continua fresco. O problema são as barreiras impostas pelas estruturas racistas. Brincamos que queremos usar nosso privilégio de estarmos vivos para dar voz a um poeta que já faleceu, mas cujos textos permanecem vivos. Este livro é um passo; sonhamos em ver esse "Papagaio de açúcar" voando nas escolas para que as crianças cresçam lendo um poeta afro-brasileiro do século 18. É um patrimônio histórico que nos foi negado, e todos os brasileiros merecem conhecer o Caldas Barbosa e o espaço que ele abriu. Como professores, levamos a obra dele para as salas de aula, palestras e congressos, mas o texto por si só tem uma força enorme.
Como foram os últimos dias do poeta?
O fim da vida dele é um pouco obscuro. Sabemos que publicou, em 1798, a “Viola de Lereno”, mas, por já estar velhinho (para a época), ficava mais recolhido ao pequeno cômodo em que morava no Palácio do Conde de Pombeiro. Sabemos também que ele morreu em 9 de novembro de 1800 e foi enterrado na Igreja dos Anjos, em Lisboa. O caderno de inéditos vai até 1799, e nesse ano ele publica sua última obra em vida, a descrição da Quinta de Belas (propriedade do conde), que frequentava muito. No fim da vida, era bastante referido como padre Caldas ou abade Caldas.
VERSOS DE DOMINGOS CALDAS BARBOSA
Trechos de poemas inéditos
Não há tal: eu sou o mesmo,
E enquanto assim vivo for;
Não mudarei de caráter,
Como não mudo de cor:
Na força matemática eu confio
Nos gênios Brasileiros me esperanço
Não é só de Poeta um desvario.
A muitos mais agouros me abalanço
Gênio do mundo novo as asas bate
A enriquecer a Europa em seu descanso.
Virá quem destas coisas melhor trate
Crescem ao novo mundo novas penas
Sempre que há um Herói lhe nasce um vate.
Trechos de poemas já publicados
Nos certames Poéticos temido
Eu fazia calar-se arrependido
Aquele que soberbo se me opunha
E disto é muita gente testemunha.
(“A doença”, 1777)
Não é do Tâmisa um Cisne,
Que vai soltar doce canto,
Brasileiro Papagaio
De arremedo a voz levanto.
(“Almanak das musas”, 1793-1794)
Se não tens mais quem te sirva
O teu moleque sou eu,
Chegadinho do Brasil
Aqui está que todo é teu.
(“Viola de Lereno”, 1798)
“Caldas era famoso por tratar de temas delicados, como raça e colonialismo, dentro de modinhas e poemas, mas nesses textos inéditos as críticas são mais explícitas.”
Bruna Kalil Othero
“Domingos pega a experiência estética europeia e a mistura com o que sabe, com o que aprendeu no Brasil. Faz a fusão dos gêneros europeu e brasileiro, claro, com influências afro-brasileiras, criando algo novo.”
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Filipe Dias Vieira