Autor do conceito de “presidencialismo de coalizão”, que se tornou referência para compreender o funcionamento do sistema político brasileiro, Sérgio Abranches volta a examinar as raízes e os impasses da democracia no país. Mineiro de Curvelo, bacharel e mestre em Sociologia pela Universidade de Brasília e mestre e doutor em Ciência Política e Sociologia Comparada pela Cornell University, o cientista político, sociólogo, escritor e colunista do Estado de Minas construiu trajetória dedicada à análise das instituições, das desigualdades, da crise climática e das transformações tecnológicas que reordenam a vida contemporânea. É autor, entre outras obras, de “Presidencialismo de coalizão: raízes e evolução do modelo político brasileiro” (que acaba de ganhar nova edição), “A era do imprevisto: a grande transição do século 21”, “O tempo dos governantes incidentais” e de romances como “O intérprete de borboletas” e “A franja do fim do mundo”

Em entrevista ao Pensar, Abranches apresenta as ideias do novo livro, “A terceira margem do Ipiranga: povo, democracia e futuro” (Companhia das Letras). No ensaio, ele relaciona  racismo, patriarcado e autoritarismo à persistência da “mentalidade da casa-grande” no país. Segundo ele, essa herança naturaliza hierarquias e violências, reage aos avanços de inclusão e mantém mulheres, negros e indígenas afastados do centro do poder. 

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“O que me levou ao livro foram os ataques ao que chamam, erroneamente, de ‘identitarismo’, considerado antidemocrático. Os movimentos negro antirracista e feminino antipatriarcal, considerados o centro do identitarismo, são afirmações de identidades e de um protagonismo sequestrados pela dominância branca e masculina”, aponta Abranches, em entrevista ao Pensar.

Em um dos capítulos mais inspirados do novo livro, “O tronco conservador-autoritário: Raízes e frutos”, Sérgio Abranches mostra como a literatura brasileira conseguiu externar a mentalidade da casa-grande e de patriarcado em obras de autores como José de Alencar, Guimarães Rosa, Bernardo Élis, Jorge Amado, Mário Palmério, Hernâni Donato e Itamar Vieira Junior. “Em todos esses relatos o que aparece é o povo desconstituído. O povo civil barrado de direitos, e o povo institucional que se aventura pelas áreas de expansão do domínio agropastoril com seus direitos sonegados à força e com violência”, observa.

O autor também discute “as vias tortuosas da democracia”, os riscos trazidos pela formação de uma “geração do ressentimento” e as consequências da metamorfose socioestrutural em curso: a revolução digital, a inteligência artificial e a mediação algorítmica podem ampliar exclusões, alimentar frustrações e fortalecer uma extrema direita adaptada às plataformas. “Há uma pergunta existencial que desafia todas as nações do mundo: que sociedade elas pretendem ser após a metamorfose global na qual estamos?”, indaga.

Ao final de “A terceira margem do Ipiranga”, o sociólogo identifica como maior desafio do país “deixar para trás o passado que carregamos como fardo: racista, patriarcalista e com pulsões autoritárias recorrentes.” Adiciona a necessidade de atualização da política brasileira para acompanhar a dinâmica da sociedade global. É enfático ao apontar “a borda, a terceira margem, que tem sido excluída e maltratada” como a melhor possibilidade de futuro para nossa nação. “É lá que está o povo sonegado do usufruto integral dos direitos democráticos e republicanos e que ainda não foi ouvido integralmente. Ela representa um extraordinário estoque de criatividade, experiências e perspectivas que ainda não foi de todo incorporado”, acredita, destacando ainda a necessidade de explorar o potencial de bioeconomia e de energia limpa na Amazônia, no cerrado e na caatinga, “a terceira margem do nosso território”.

Abranches vislumbra perspectiva de futuro ao país por meio da transformação para  chegar a uma “sociedade verdadeiramente democrática” e com o desenvolvimento de uma economia digital carbono zero. “O Brasil ainda está em condições de saltar com ousadia e superar etapas nas quais anda atolado há décadas, mas em breve pode perder essa capacidade e a população jovem não terá mais escalas para grandes saltos”, alerta, antes da última constatação: “Vivemos um momento crítico para nossas escolhas coletivas.”       

Leia, a seguir, a entrevista de Sérgio Abranches ao Estado de Minas.

O que o levou a escrever “A terceira margem do Ipiranga”?

Os temas do livro me desafiam há muitos anos. Passei todo esse tempo, que se conta em décadas, lendo, pesquisando e refletindo sobre eles. São três vertentes: o escravismo/racismo, o patriarcado e o autoritarismo. Fiz uma pesquisa e escrevi dois longos artigos sobre as origens do autoritarismo na Espanha. Na minha tese de doutoramento, estudei o Estado brasileiro e o autoritarismo. O que me levou ao livro foram os ataques ao que chamam, erroneamente, de “identitarismo”, considerado antidemocrático. Os movimentos negro antirracista e feminino antipatriarcal, considerados o centro do identitarismo, são afirmações de identidades e de um protagonismo sequestrados pela dominância branca e masculina. O que procuro mostrar no meu livro é que, ao contrário, o racismo, a dominação da mulher e o autoritarismo têm o mesmo berço e são siameses inseparáveis. Todos nasceram no ventre da primeira instituição a se constituir no Brasil, ainda no período colonial: a casa-grande. A casa-grande foi muito mais do que simplesmente a residência dos senhores de escravizados. Foi uma ordem social escravocrata, sede do modo dominante de produção escravista, que subordinava a política, a Justiça, a polícia e a Igreja. Era uma instituição patriarcal e autoritária.

De onde vem a pulsão autoritária da sociedade brasileira?

Vem da persistência da mentalidade da casa-grande no tempo, para além da sua existência material. Ela desaparece como entidade presente, mas sobrevive como a mentalidade dominante. Os excluídos e confinados à terceira margem nunca se acomodaram e jamais aceitaram esse domínio cruel. As pulsões autoritárias crescem toda vez que a terceira margem se levanta, reivindica, protesta. Elas são parte inerente a esse sistema de poder e à mentalidade da casa-grande.

Como essa mentalidade, que resulta de um “feixe concreto de interesses”, ajuda a perpetuar violências e a consolidar a exclusão de boa parte da população?

Ela condiciona automaticamente os comportamentos. A escola sem negros, no início só para meninos e depois só para meninas, guardando enorme diferença entre o que ensinavam; a casa de família em que negros só entram como serviçais; a ausência das mulheres em posições de mando e sua presença volumosa em posições subalternas. Todas essas experiências cotidianas, algumas felizmente eliminadas da vida nacional, dizem aos negros que seu lugar é na terceira margem. Ensinam as mulheres a aceitar a supremacia masculina. Dão aos homens brancos a segurança de que seu lugar é no topo, mandando. Mentalidades são isso: enquadramentos que nos impedem de ver o outro lado e naturalizam comportamentos que criam e cristalizam o domínio e as desigualdades. Quando essa mentalidade é contestada, a onda autoritária chega para lavar a insubordinação. Quando falo de autoritarismo e repressão, não falo apenas de política. As pulsões autoritárias incorporadas a essa mentalidade, a essa matriz social, vão desde o autoritarismo de Estado, político, até as microtiranias da vida doméstica. A violência contra a mulher e o feminicídio são formas brutais de repressão autoritária. O nosso cotidiano está repleto de comportamentos autoritários e repressivos que são a expressão mais violenta dessa mentalidade, da mesma forma que está cheio de racismo e machismo. Para se livrar dessa mentalidade, é preciso, primeiro, ter consciência dela. Em segundo lugar, é necessário um exercício permanente de descondicionamento dos homens brancos, com a autorregulação de comportamentos e atitudes que achávamos naturais. Mulheres e negros também podem ser portadores dessa mentalidade da casa-grande. Daí negros se aliarem a políticos racistas e mulheres se orgulharem de “servir” e obedecer aos maridos. Serviçal vem de servir. Do latim servire ao português servir, daí serviço e serviçal.

Por que as crises da democracia no Brasil estão associadas às duas “fundações-mestras” da nossa sociedade, a escravidão e o patriarcalismo?

Primeiro, porque escravizar e subordinar são ações autoritárias. São formas repressivas de exercer poder, autoridade e superioridade. O senhor, escravocrata e patriarcal, tem direito absoluto sobre o corpo, a mente e a vida dos escravizados e das mulheres brancas. Segundo, porque são estruturalmente indissociáveis. A escravidão e o patriarcado se apoiam na força e no autoritarismo para impor seu poder de mando. Toda dissidência é reprimida com violência, prisão, em cárcere privado ou público, ou morte. Terceiro, porque, toda vez que se tenta redefinir papéis e dar presença, voz e protagonismo à terceira margem, temos um golpe ou uma tentativa de golpe. A reforma agrária imaginada para acompanhar a abolição e dar espaço econômico autônomo aos libertos da escravidão levou à aliança entre os donos de terras e de escravizados e os militares no golpe republicano de 1889. Sou republicano, mas queria que nossa República nascesse das revoluções republicanas, como as da Bahia e de Pernambuco, e não como reação a uma mudança justa e necessária representada pela libertação dos escravizados.

Quais os alarmes mais recentes a soar no painel de controle da democracia no Brasil?

Todo o movimento em torno de Jair Bolsonaro, que, desde o início, foi movido pela mentalidade da casa-grande e pelos interesses historicamente ligados a ela, acendeu todo o painel de riscos à democracia. Se eu tivesse que escolher momentos marcantes, diria: as palavras racistas de Bolsonaro na Hebraica Rio, quando equiparou negros a animais de carga, cujo valor se estima pelo peso em arrobas. Ainda hoje, no campo, vende-se gado por arroba. O fato de isso ter ocorrido em uma organização judaica, sendo os judeus vítimas do implacável racismo nazista, sem que houvesse vozes de protesto, torna todo o episódio ainda mais assustador. Posteriormente, a Confederação Israelita do Brasil criticou o convite. Outro momento simbólico foi o desfile de 7 de setembro de 2022, em Brasília, já durante a campanha de Bolsonaro pela reeleição, quando os tratores do agro autoritário desfilaram ao lado dos tanques do Exército. Era o retrato explícito do ressurgimento da aliança que deu o golpe republicano de 1889 e o golpe de 1964, que instalou a ditadura militar.

A partir do que olhou para o passado, como enxerga o futuro do país em um quadro de “metamorfose socioestrutural e global”? 

Começo o argumento do livro a partir dessa perspectiva de futuro. O mundo todo passa por uma metamorfose socioestrutural. Depois dela, nada será como antes. Não podemos levar para esse novo momento histórico da humanidade o fardo pesado da mentalidade da casa-grande. A terceira margem não pode ser mantida apartada da nova ordem global que se seguirá à metamorfose. Enquanto estamos no casulo, vivendo as fases da transformação radical do que somos como sociedade, técnica e território, temos que nos livrar desse peso e dessas chagas do nosso passado. Precisamos da terceira margem incluída para sermos mais livres, mais iguais e mais criativos.

Quem são os excluídos pela grande transformação que o mundo atravessa?

Pois é. Se mantivermos os padrões de exclusão impostos pela mentalidade da casa-grande, deixando à parte a maioria das mulheres e dos negros, e se mantivermos a destruição dos territórios e dos corpos indígenas, teremos os excluídos de agora somados aos deslocados pela revolução digital. A substituição de grande número de ocupações, em todos os níveis de habilitação e especialização, pela IA, por robôs e pelo aprendizado de máquina vai gerar a expulsão de uma grande massa de pessoas dessas funções: gente com educação primária e também com formação superior, universitária. Não teremos meios para estender redes de proteção social a todo esse contingente; seremos mais desiguais, teremos maiores níveis de pobreza e viveremos em permanente instabilidade social e política. Temos que começar já a preparar a sociedade para essas transformações, criando espaços mais abertos e criativos de educação e treinamento e extirpando a mentalidade da casa-grande de nossas vidas.

Como a mentalidade autoritária do país se reflete em obras da literatura brasileira?

A fabulação está frequentemente ancorada na observação do mundo à nossa volta e nas experiências vividas por romancistas, contistas e poetas. É possível tratar do comportamento escravista, por exemplo, por meio da poesia de Castro Alves. Os romances, em particular, expressam o espírito da época de seus criadores, o Zeitgeist. Ao fazerem isso e trazerem para as narrativas observações e memórias do real, dão-nos uma forte indicação da probabilidade de ocorrência histórica, na vida real do país, de fatos similares aos narrados. A melhor descrição que encontrei do cotidiano da casa-grande e de sua potência para criar uma mentalidade que as classes dominantes pudessem perpetuar está em “O tronco do ipê”, de José de Alencar, defensor militante da escravidão, que já a via como uma instituição. E a casa-grande era mesmo uma instituição social, política e econômica privada, pilar sobre o qual se ergueu a nação brasileira e que se tornou portadora da mentalidade que a expressava culturalmente. O conflito de terras e a jagunçagem, precursora das milícias, estão magistralmente registrados em “Grande sertão: veredas” e em outras obras de Guimarães Rosa, bem como nos romances de Hernâni Donato (“Chão bruto”) e Bernardo Élis (“O tronco”), por exemplo. São obras marcantes da literatura brasileira que não merecem ser classificadas como regionalistas. Tratam da ordem dominante em todo o país na época em que se passam. São gerais e universais.

Quais as consequências do que você chama de “contradição entre uma democracia analógica e uma sociedade digital”? Como a contradição influi na visão política do cidadão?

É uma contradição insanável: não há como representar a sociedade pelos meios analógicos da democracia convencional. A sociedade digital e a democracia analógica fazem parte de universos culturais distintos. Os meios da sociedade digital são mais poderosos e invadem a democracia analógica, distorcendo a representação e sequestrando a voz, o voto e, às vezes, até mesmo a consciência dos cidadãos. Essa contradição influi na visão política do cidadão, enquadrando tudo o que ele vê, lê e escuta no quadro de valores de quem domina esses meios. Além disso, a mediação algorítmica filtra o que o cidadão acessa e controla a oferta de informação. O letramento digital dos cidadãos é essencial. A regulação democrática das plataformas torna-se imprescindível, mas só funcionará quando adotar a lógica e os meios digitais. Além disso, será necessário socializar uma parte desse território digital para que a democracia possa adotar mecanismos digitais de representação e participação. Esses elementos constitutivos da democracia digital não podem estar sob controle privado nem ser regidos por algoritmos que sigam a lógica proprietária.

“As desigualdades múltiplas geram uma resposta raivosa, antipolítica, mais do que de mobilização para a política. Sem identificar um responsável direto por suas dores, o povo é tomado pelo ressentimento. A extrema direita sabe explorar esses sentimentos”, você escreve no livro. De que forma esse ressentimento tem sido explorado em campanhas políticas recentes no mundo e nessas eleições presidenciais brasileiras? 

O ressentimento é explorado o tempo todo pela direita digital, poderíamos dizer, pelo partido digital da extrema direita. Como ela não tinha espaço para amplificar sua voz na política analógica, encontrou no meio digital uma forma de fazê-lo. E ganhou, dessa maneira, espaço digital e analógico. Ela usa a mentira e a filtragem permitida pelos algoritmos para manipular esses ressentimentos. Há muita gente, em todo o mundo, com medo dos deslocamentos sociais trazidos pela revolução digital, que ainda está em seus primórdios. A extrema direita explora esses medos, condensando todos os sentimentos em ódio, e aponta os “outros” como responsáveis pelos processos que estão gerando esses sentimentos tristes e negativos. Quem são os outros? Os que estão na terceira margem: as feministas, os imigrantes e os progressistas, que eles classificam como comunistas, denominação que facilita a rejeição. Muita gente não se vê mais representada na democracia analógica, e a extrema direita digital promete representá-la. Mas não a representará, porque sua agenda é muito mais estreita e seus interesses não coincidem com os daqueles que se sentem excluídos e ameaçados pela sociedade digital. Além disso, ela busca no passado respostas para o presente-futuro, o que é ilusório e enganador.

“Vivemos um momento crítico para nossas escolhas coletivas”, você conclui. A que atribui esse momento crítico? Como enfrentá-lo?

Todas as respostas estão no presente. O passado passou, e nosso presente terá cada vez menos passado. O futuro não existe: ele se materializa como presente e é gerado pelas escolhas que fazemos hoje, amanhã e depois. Como estamos iniciando a metamorfose estrutural, que nos levará a outra sociedade, impossível de ser inferida de nosso passado recente, precisamos ter consciência de que as decisões, os adiamentos e as ilusões do presente estão construindo o futuro possível.

Para enfrentá-lo, precisamos, primeiro, compreendê-lo. É preciso tomar consciência de que ainda somos guiados pela mentalidade da casa-grande e de que, para afastá-la de nós, são necessárias disciplina cívica e moral. Temos que reconhecer que nossa linguagem rotineira, nossos impulsos, nossos comportamentos e nossos automatismos estão dominados por essa mentalidade. O homem branco precisa se perguntar por que se acha superior, por que imagina não ter identidade, como se isso fosse coisa de negro, mulher, indígena e pessoas com identidades de gênero divergentes. A branquitude e a virilidade, que definem a identidade do homem branco, são tidas como naturais e não precisam ser reivindicadas. É preciso estar atento para não deixar que essa mentalidade comande suas e nossas ações. Também precisamos não temer o digital, mas regulá-lo e assumir o controle e o protagonismo criativo. Hoje, já executamos tarefas que não éramos capazes de realizar sozinhos na sociedade analógica. Temos mais acesso a línguas, culturas, experiências e interações impensáveis na vida analógica. Temos que aceitar que já somos seres figitais, físicos e digitais, e que o “físico” vai criando tal simbiose com o digital que deixa de ser analógico e passa a usar a lógica digital. Como cidadãos da sociedade digital, precisamos ter controle democrático dos meios de produção dessa sociedade.

“A terceira margem do Ipiranga: Povo, democracia e futuro” 

De Sérgio Abranches

Companhia das Letras

344 páginas

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