Literatura

Como Virginia Woolf fez da instabilidade da linguagem um método literário

No livro "Virginia Woolf entre gêneros", Davi Pinho analisa como a escritora britânica fez da ficção um espaço de resistência intelectual

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Davi Pinho - especial para o Estado de Minas 

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Em 15 de novembro de 1919, na tradução de Ana Carolina Mesquita, Virginia Woolf se pergunta em seu diário: “Será assim para sempre? Será que sempre irei sentir essa superfície de mercúrio na minha linguagem, & estarei sempre sacudindo-a, para que mude de forma?” (Woolf, 2022, p. 139). Oscilando entre o seu tempo e o nosso, “Virginia Woolf entre gêneros” investiga como sua escrita toma a superfície da linguagem como uma matéria tão instável quanto o mercúrio, sacudindo sua estrutura para que mude de forma. Quando Woolf encontra um método, ela escreve e passa a outro. Em seus diários, ela brinca com o nome dessas formas para sua ficção, e se pergunta como poderia nomear seus romances — “Entre os atos” poderia ser “peça” ou pageant, “As ondas”, uma “peça-poema”, “Ao farol”, uma “elegia”, “Flush” e “Orlando” têm como subtítulo uma biografia, “Os anos” nasce da ideia abandonada de um “romance-ensaio” (“The Pargiters”), e o ensaio que sai dele, “Três guinéus”, ficcionaliza à maneira do romance, como “Um quarto só seu” e tantos que viriam antes e depois… Por isso Woolf chega ao ponto de se referir aos seus livros como my so-called novels, “meus ditos romances”, em “Um esboço do passado. Sua escrita procura interrogar os espaços entre ensaio e romance, ou biografia e ficção, ou tragédia e comédia, ou história e filosofia, entre outros intervalos, que se tornam sítios de sua procura pela verdade da literatura, via literatura. Não importa o nome. O que se procura é por métodos para narrar a vida, fazendo a ficção entrecruzar os gêneros.

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Um corpo que é também literatura

Ao longo de “Virginia Woolf entre gêneros”, enquadro cenas em que, como na entrada de diário datada de 15 de maio de 1940, Virginia Woolf fez da escrita uma forma de pensar para além do campo de violência: “Esta ideia me tomou de assalto: o exército é o corpo: eu sou o cérebro. O pensamento é minha luta” (Diary 5, p. 285, tradução própria). Desde cedo, Woolf fará a ficção funcionar como uma instância que resiste à militarização do pensamento, seja ao enlutar seu mundo, seja ao rir de seu funcionamento. Se o exército é o corpo — vale anotar que, nessa entrada de diário, Woolf registra uma briga com Leonard em torno do desejo de seu marido de tomar armas, como se passasse a participar desse corpo-exército e de suas políticas de morte durante a Segunda Guerra Mundial —, é o movimento do pensamento que pode insistir na vida, no corpo que vive em relação, mesmo que seja sítio de disputas entre formas autorizadas e dissidentes dele mesmo. Trata-se de um corpo que é também literatura

Em diálogo com a crítica especializada, ao longo dos últimos anos busquei desfazer as periodizações institucionais que tomam o modernismo como um momento histórico bem definido, como um tipo de delírio formal que se abstrai do mundo real, como um campo de investigação estética em que a política se reduz ao individual, ou como o registro de desejos ora utópicos, ora anárquicos pela redenção da história. Assim, o “modernismo” passa a ser lido como cenas diversas e contraditórias que duvidam da modernidade enquanto projeto. No caso de Woolf, justamente por ser uma mulher de seu tempo que interroga esse tempo, essas dúvidas vão se articular a uma descrença na própria construção histórica do gênero enquanto forma de nomeação binária para as possibilidades do corpo humano. Se as investigações em torno dos limites e possibilidades da palavra produzem uma porosidade dos gêneros literários em sua cena modernista, essas confusões de genre se tornarão análogas às confusões de gender que procura produzir. Em uma dupla desconstrução de gêneros, Woolf faz do pensamento uma luta, um combate outro, queerizando sua cena. 

Se continuamos tentando nomear as crises em torno da crença no progresso, das formas de uso ou descarte da tradição, dos limites do Estado democrático de direito, da autossuficiência do indivíduo e da nação, ainda nos perguntamos também o que a literatura pode fazer frente a essas crises. Aqui, em fricção com nosso tempo, Woolf pode ser uma contemporânea problemática no melhor sentido dos termos. Resistindo a categorias que projetam um fora para confirmar o pertencimento do eu a um dentro, Woolf faz da literatura uma forma especial de se ocupar justamente desse fora constitutivo de qualquer dentro. Em direção a esse entendimento, juntei ensaios e organizei o livro, em saltos entre tempos, espaços, línguas e gêneros.

Atravessar fronteiras de gêneros 

Os capítulos reunidos em “Virginia Woolf entre gêneros” compõem um longo ensaio em torno da leitura como um intervalo incondicional entre o eu e o não eu, da escrita como uma redestinação desse eu, da literatura woolfiana como uma procura incessante por formas de atravessar fronteiras de gêneros e da ficção como uma instância que busca criar nós em um futuro sempre deferido, adiado para quem lê. Há um momento célebre em “As ondas”, romance que Woolf publica em 1931, em que Bernard, noivo, à beira de aderir a alguns dos nomes que demarcam sua posição como homem, se pergunta: “Quem irá dizer que significado há em qualquer coisa? Quem irá predizer a trajetória de uma palavra? É um balão que veleja por sobre a copa das árvores. Falar de conhecimento é fútil. Tudo é experimento e aventura. Estamos sempre nos misturando com quantidades desconhecidas” (Woolf, 2021, p. 91), traduz Tomaz Tadeu. Em um tempo de disputas acerca do melhor método para “fazer o novo”, Bernard registra aqui um dos sentidos que Woolf dá à ficção como instância de pensamento que resiste à fixação: experimento, aventura, a produção de encontros, em si, com outros eus em quantidades incalculáveis. A ficção escreve essa abertura para quem lê, daí o risco. Com “Virginia Woolf entre gêneros”, vou ao encontro de algumas dessas quantidades, me ocupando de suas fricções entre gêneros. Who is to foretell the flight of a word? 

DAVI PINHO é professor de Literatura Inglesa da UERJ, pesquisador do CNPq, da Faperj e do Prociência. Este artigo foi adaptado da apresentação do livro “Virginia Woolf entre gêneros”

“Virginia Woolf [entre gêneros]: ensaios woolfianos”

De Davi Pinho

Nós Editora

352 páginas

R$ 110 

Depoimento

“Autora incontornável para pensar o presente”

Simone Paulino - Especial para o Estado de Minas

A publicação do livro “Virginia Woolf [entre gêneros]”, do professor Davi Pinho, abre uma nova constelação na Nós em torno de Virginia Woolf. Depois de editarmos 18 títulos, incluindo os três primeiros volumes dos “Diários Completos”, ensaios fundamentais e até então inéditos, como “Um esboço do passado”, sua única peça de teatro, “Freshwater”, além de contos e romances, este agora é o primeiro livro de ensaios woolfianos contemporâneos que a editora publica acerca dessa que é seguramente uma autora incontornável para pensar o presente. 

Virginia Woolf sempre foi uma escritora à frente do seu tempo. Não apenas como escritora, mas também como editora, já que sua “pequena, porém influente” Hogarth Press, uma editora independente nos termos que conhecemos hoje, publicou livros de escritores-chaves do modernismo, como T.S. Eliot e Katherine Mansfield, além de ter chamado para si o desafio gigantesco de publicar a obra completa de Sigmund Freud em inglês.

Com a genialidade e clarividência que lhe eram características, Woolf antecipou em sua obra, e poderíamos dizer, em sua vida, muitos dos temas e pensamentos que hoje em dia dominam os debates públicos, como o feminismo e os estudos de gênero, influenciando gerações e gerações de mulheres e homens. 

Quando em 1928, praticamente um século exato atrás, ela escreve “Orlando”, sua biografia amorosa, criada sob o fascínio que ela tinha por Vita Sackville-West, Virginia está prefigurando toda uma imensa produção artística e filosófica que virá depois para discutir as questões de gênero, a transexualidade e toda a “Teoria Queer”.  

Sem contar toda a sua reflexão desenvolvida em textos que de certa maneira “antecipam preocupações planetárias”, na linha do que hoje se entende por “Antropoceno”. De modo que o trabalho de Davi Pinho transporta o pensamento de Woolf para o hoje, iluminando a compreensão da importância política e filosófica que ela representou e representa no contemporâneo. 

Ler Virginia Woolf pelos olhos de Davi Pinho renova em quem ama a obra da autora a impressão de que as camadas dos textos que ela nos legou é realmente infinita e sua grandeza se renova a cada nova leitura, feito que só os legítimos clássicos conseguem alcançar.

Simone Paulino é editora da Nós 

Trecho

(Do ensaio “Do valor do riso e do humor andrógino”, no capítulo “Para rir com Virginia Woolf — em busca da verdade entre comédia e tragédia”)

(...)

É o riso das/os mais vulneráveis, dos marginais, que preserva nosso senso de realidade e nos abre para a possibilidade de um humor outro, que leio aqui no contexto das críticas à modernidade e às suas instituições que Woolf faria ao longo da vida. Se a comédia é um “espelhinho”, como aqueles fragmentos de Miss La Trobe, ela é operada pelo antídoto feminino descrito por Woolf: o riso. Desse modo, Woolf dá à mulher de seu tempo uma alternativa bastante concreta (ria dos homens!), mas dá a todos uma alternativa 255 igualmente transformadora (riam de si mesmos!), criando assim uma sociedade literária na qual mulheres e homens desfariam qualquer binarismo de gênero para ocupar jun tos, por meio de uma precariedade comum, o humor, entre comédia e tragédia, entre feminino e masculino. Aí, então, se sugere um humor andrógino, entre gêneros. Não há limites para o riso, já que ele nada comunica a não ser o fato de que há riso, de que há linguagem, de que há uma força vital comum e vulnerável correndo entre os animais humanos. Woolf celebra o fato de os cachorros não poderem rir, ou então perceberiam as terríveis limitações de ser cachorro (Woolf, 2014, p. 37): perceberiam a vulnerabilidade e o desamparo como angústia de morte. 

Flush, o cachorro que Woolf biografa em seu romance de 1933, sabe que não sabe o que o riso comunica. Em Florença, Flush, menos esnobe, se mistura à vida da cidade e conhece o amor puro com diferentes cadelas. Como consequência, fica cada vez mais pulguento, ao ponto de ser estigmatizado por humanos como sarnento. Aqui, então, tem seu pelo tosquiado. Quando, ao se olhar no espelho, se sente desfigurado, vulnerável, esse espelho lhe diz que ele não é nada sem sua pelagem, e é como se, na tradução de Jorio Dauster, “os poderosos espíritos da verdade e do riso estivessem murmurando qualquer coisa” em suas orelhas agora despidas dos pelos encaracolados que as vestiam (Woolf, 2020, p. 127). Mas logo Flush aceita “ser nada”, sai dançando em suas pernas aparentemente finas, despeladas, pois se essa mudança lhe faz perder a insígnia esnobe de ser um Cocker Spaniel, era isso também que lhe permitiria gozar de Florença livre das pulgas. Simples assim. Aqui, então, interpretando uma das cartas de Elizabeth Barrett Browning, a voz narrativa sentencia: “O verdadeiro filósofo é aquele 256 que perdeu a pelagem mas ficou livre das pulgas” (Woolf, 2020, p. 128), com sofrimento, mas sem lágrima. 

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Desde cedo, ao lado de Elizabeth Barrett em Wimpole Street, tanto as lágrimas quanto o riso da poeta são manifestações de algo que lhe escapa, pois ele “não sentia cheiro nenhum, não ouvia nada”, mesmo que experimentasse “estranhas sensações” nesse elo com Elizabeth (Woolf, 2020, p. 66). O riso excêntrico de 1905 comunica isso que confunde Flush em 1933. Ao contrário da angústia de morte, ao sentir os anos pesarem, o que Flush procura é a companhia de vozes ao redor, e especialmente a companhia de Elizabeth, mesmo em silêncio, no conforto da intimidade. Dorme e sonha, e a voz narrativa investiga o conteúdo desses sonhos: alguma aventura, ou o sonho de estar dormindo em uma floresta primeva, como se só precisasse sentir seu pertencimento naquilo que fica. Ao final, após seu último sonho, Flush corre para morrer ao lado de Elizabeth, como se voltasse para fincar sua vida naquela relação. E o evento vem, naturalmente, sem nenhuma grande catástrofe: “Ele sofrera uma mudança extraordinária. ‘Flush!’, ela gritou. Mas ele estava em silêncio. Tinha estado vivo, agora estava morto. Nada mais que isso. A mesa da sala de visitas, curiosamente, permaneceu totalmente imóvel” (Woolf, 2020, p. 143).

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