LITERATURA

'Domingos de amêndoa' reúne a maior seleção de Katherine Mansfield no país

Em artigo para o Pensar, a tradutora Talissa Lopez apresenta coletânea da neozelandesa que revolucionou a arte do conto no início do século 20 e era a única escritora que Virginia Woolf invejava

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Talissa Ancona Lopez - Especial para o Estado de Minas

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Apesar de ter sido bastante traduzida para o português, parece que Katherine Mansfield ainda não alcançou a fama literária brasileira que ela merece. Estamos falando de um dos nomes mais relevantes da escrita de língua inglesa, é verdade. Foi conhecida por ter revolucionado a arte do conto. Foi admirada e invejada pela célebre Virgínia Woolf. Tratou de temas muito cabeludos para aquele começo do século 20: violência contra a mulher, tensões de classe, guerra, angústias de gênero. Mas seus contos não tiveram – ainda! – a devida circulação entre os leitores e leitoras daqui. 

É por isso que “Domingos de amêndoa” trouxe essa grande seleção de seus contos, a maior já publicada no Brasil: para apresentar ao público leitor uma boa dose de Mansfield, um mergulho mais fundo, para que ela possa ser conhecida de verdade. Os contos dessa edição atravessam todo o período de sua vida profissional, tentando abarcar a complexidade da totalidade de sua obra, tão diversa e tão atual. 

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Katherine Mansfield nasceu na Nova Zelândia em 1888. Mas viveu boa parte de sua vida na Europa, deslocando-se principalmente entre Inglaterra, França, Itália, Alemanha e Suíça. De todo modo, ela não era exatamente uma escritora europeia. Apesar de ter convivido com os famosos ciclos literários londrinos da época, havia algo de outsider em sua voz, um pouco como a figura do viajante que vai do interior à grande cidade, buscando encontrar ali o susto de vida que as comunidades intelectuais prometem (mas nem sempre entregam). Sua trajetória foi marcada por esse desejo de sair de seu país natal para finalmente fazer parte desses grupos - mas, pouco tempo depois, foi tomada pela vontade de estar cada vez mais distante deles, acreditando enfim que a vida literária era uma coisa “falsa e perturbada” (como afirma em carta para Sarah Gertrude Millin, em março de 1922). e que seria importante reencontrar a beleza das coisas simples de seu país natal, poder recontá-las, revivê-las. 

Sua vida profissional foi muito intensa. Ao sair da Nova Zelândia, Katherine Mansfield deixou de constar no testamento de sua família e passou a receber apenas uma ínfima mesada de se pai (muito menos do que o suficiente para viver bem), então dependia de seu trabalho como escritora para sobreviver. Além de publicar seus próprios contos, ela também vendia resenhas para revistas londrinas, editava outras, fazia traduções. Foi por isso, também, que se aproximou de Virginia Woolf – eram duas mulheres extremamente dedicadas e comprometidas com a escrita como trabalho. 

Aos 30 anos, ela recebe o triste diagnóstico da época: tuberculose. É quando passa a viver cada vez mais distante e mais isolada, deslocando-se frequentemente em busca de um ambiente agradável para seu tratamento. Ela escreve muito durante essa época, como se não houvesse muito tempo a perder. E não havia mesmo. Aos 34 anos, não resiste a uma crise de tosse e morre em uma clínica de tratamento no sul da França. 

Em vida, publicou três livros – “In a German Pension” (1911), “Bliss and other stories” (1920) e “The Garden Party and other stories” (1922). Depois de sua morte, seu marido e editor publicou outros dois livros da autora: “The Doves’ Nest and other stories” (1923) e “Something Childish and other stories” (1924). Em “Domingos de amêndoa”, percorremos um pouco de cada um desses livros, trazendo contos de todas as suas fases. 

É por isso que lemos temas tão diversos nesta coletânea. Seus contos trazem muitas vezes cenas aparentemente cotidianas e banais – uma festa no jardim, um dia comum de trabalho de uma faxineira, uma mulher que faz uma viagem, um jantar entre amigos. Mas sua astúcia como escritora se revela ao desdobrar essas cenas tão comuns em grandes reflexões e aflições que denunciam injustiças e questões de sua época. Pois atrás da festa no jardim na verdade há morte e desigualdade. Entre as tarefas diárias da faxineira há angústia, solidão e tragédia. A mulher que viaja sozinha pode enfrentar violência sexual. E um simples jantar pode ser, também, a revelação de desejos difíceis de se assimilar àquela época. 

A escrita de Mansfield ganhou muito destaque entre seus pares. Não à toa, Virginia Woolf disse que a escrita de Mansfield era a única que ela invejava. Além da qualidade de suas invenções narrativas, seu estilo também chama muita atenção. Para ela, era fundamental que sua escrita soasse bem, que tivesse uma espécie de qualidade sonora. Ela desejava, na verdade, que seus contos fossem lidos em voz alta, desejava recitar sua escrita. Essas são dicas importantes para quem traduz. No caso, busquei trabalhar com seus textos de forma a exaltar a importância sonora e rítmica de suas escolhas. Não à toa o título ficou assim: “domingos de amêndoa”, uma frase que mais parece um verso, retirada de um dos meus contos favoritos, “Miss Brill.”

E o que seria um domingo de amêndoa, afinal? É preciso ler o conto para experimentar essa sensação. Mas posso dizer que são domingos raros, especiais, recheados de uma alegria secreta e simples. Como um domingo em que se lê um bom livro e há uma certa sintonia no ar. E Mansfield fez isso com maestria: mostrar para nós o êxtase secreto de certos dias comuns através de sua escrita corajosa e intensa.

TALISSA ANCONA LOPEZ é escritora, tradutora, pesquisadora na Unicamp e uma das fundadoras do Grupo Latino-Americano de Estudos em Katherine Mansfield. Na pesquisa acadêmica, traduziu cartas de Mansfield e estuda o laço entre escrita de mulheres e escrita epistolar. Selecionou e traduziu os contos de “Domingos de amêndoa” (Autêntica).

  

“Domingos de amêndoa”

De Katherine Mansfield

Tradução de Talissa Ancona Lopez

Autêntica

376 páginas

R$ 87,90

Depoimento

“Ela fez do conto o seu tabuleiro de xadrez”

Schneider Carpeggiani

“Pensar numa seleta gigante de contos, como é o caso de ‘Domingos de amêndoa’, da Katherine Mansfield, é também refletir sobre a importância das narrativas curtas, num universo editorial que tanto valoriza o romance em detrimento ao conto – e isso acaba levando muitos escritores a atropelaram o gênero do conto na sua produção, já que as editoras acabam se interessante menos por ele. Penso nisso, por exemplo, quando vejo o número pequeno, quase ínfimo, de clubes de leitura que se voltam à leitura de contos, perdendo assim o pote de ouro da produção de grandes autores. É o caso de Lygia Fagundes Telles: acho um erro a insistência no seu romance ‘As meninas’, quando o melhor de Telles está justamente nas suas narrativas curtas, que facilmente estão entre o melhor que o século 20 produziu do gênero. Assim, é uma alegria oferecer ao leitor um nome que jamais produziu um romance e fez do conto o seu tabuleiro de xadrez, ao brincar com nossas expectativas e traumas. Ler ‘Domingos de amêndoa’ é (re)encontrar uma peça-chave do modernismo de língua inglesa falando ainda de forma tão atual com a gente.”

SCHNEIDER CARPEGGIANI é editor da Autêntica

“Como se houvéssemos de repente engolido um pedaço luminoso daquele sol de fim de tarde”

Leia o início de “Êxtase”, um dos contos mais celebrados da obra de Katherine Mansfield

Mesmo com trinta anos, Bertha Young ainda vivia momentos como esse em que queria correr em vez de caminhar, fazer pequenos passinhos de dança pela calçada, brincar com um aro, atirar algo para o alto e pegar de volta ou ficar quieta e simplesmente – simplesmente rir – à toa.

O que se pode fazer quando se tem trinta anos e, ao virar a esquina de sua própria rua, de repente somos tomadas por um sentimento de êxtase – êxtase absoluto! – como se houvéssemos de repente engolido um pedaço luminoso daquele sol de fim de tarde e ele queimasse dentro do peito, espalhando uma pequena chuva de faíscas em cada partícula, até os dedos dos pés e das mãos?…

Mas haveria como explicar isso sem soar “bêbada e confusa?” A civilização é mesmo tola! Para que ter um corpo se é preciso mantê-lo preso dentro de uma caixa como um violino muito, muito raro?

“Não, essa história de violino não é bem o que eu queria dizer”, Bertha pensou enquanto subia correndo os degraus e vasculhava sua bolsa em busca da chave – ela havia esquecido, como sempre – e remexia a caixa do correio. “Não é bem o que quero dizer porque – obrigada, Mary” – entrou no hall. “A babá já voltou?”

“Sim, senhora.”

“E as frutas já chegaram?” “Sim, senhora. Já chegou tudo.”

“Traga as frutas para a sala de jantar, está bem? Quero fazer um arranjo antes de subir.”

Estava escuro e um pouco frio na sala de jantar. Mesmo assim, Bertha se livrou de seu casaco; não conseguia suportar aquele fecho apertado; sentiu o ar frio cair em seus braços.

Mas em seu peito estava ainda aquele ponto luminoso – aquela chuva de faíscas irradiando. Era quase insuportável. Ela mal ousava respirar, temendo que aquilo circulasse mais e, ainda assim, ela respirava profundamente, profundamente. Sequer ousara olhar para o espelho frio – mas olhou, sim, e ele lhe devolveu uma mulher radiante, com lábios sorridentes que tremiam, olhos grandes, escuros, e um ar de quem escuta, espera que alguma coisa… divina aconteça… ela sabia que deveria acontecer… sem falta.

Mary trouxe as frutas em uma bandeja junto com uma tigela de vidro, e uma louça azul muito linda que tinha um brilho estranho, como se tivesse sido mergulhada no leite.

“Acendo as luzes, senhora?”

“Não, obrigada. Consigo ver bem.”

Havia tangerinas e maçãs manchadas pelo rosa dos morangos. Algumas peras amarelas, macias feito seda, uvas brancas cobertas por uma fina camada prateada e um cacho enorme de uvas roxas, que Bertha comprara para combinar com o novo tapete da sala de jantar. Sim, aquilo parecia um tanto excessivo e absurdo, mas era esse o motivo pelo qual ela havia comprado as uvas. Quando estava na loja, pensou: “Preciso dessas uvas roxas para trazer o tapete até a mesa”, o que fez bastante sentido naquele momento.

Quando finalizou o arranjo, duas pirâmides com as formas redondas, ela se afastou da mesa para sentir o efeito – e era de fato curiosíssimo. Porque a mesa escura parecia se dissolver na escuridão da sala e a louça de vidro e a tigela azul flutuavam no ar. Naquele estado de espírito, é claro, aquilo era tão absurdamente lindo. Ela desatou a rir.

“Não, não. Estou ficando histérica.” Agarrou a bolsa, o casaco e correu para o quarto do bebê. (...)”

Outros êxtases

 Pela Hogarth Press, editora que fundou com o marido, Leonard, Virginia Woolf lançou em 1917 o conto “Prelúdio”, o mais longo de Katherine Mansfield. A própria Virginia compôs o texto, manualmente, com tipos móveis, para impressão. “Prelúdio”, baseado em episódios da infância de Katherine na Nova Zelândia, foi incluído em “Bliss e outras histórias”, publicado em 1920 e que ganhou edição no Brasil da Nós. “Nossa edição não faz um apanhado de contos de Katherine: temos aqui a obra que a colocou no panteão do modernismo britânico, tal como ela a concebeu”, destaca a apresentação da editora, lembrando que a ordem dos 14 contos de “Bliss” foi idealizada por Katherine Mansfield, que era também violoncelista. “musicalmente em termos de intensidade e ritmo”. 

Com 208 páginas, a edição da Nós traz apresentação do professor Davi Pinho (especialista no modernismo britânico e autor de “Virginia Woolf entre gêneros”) e tradução, introdução e notas de Ana Carolina Mesquita. 

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A editora Antofágica também publicou recentemente uma edição de “Bliss”, com 320 páginas e cinco contos selecionados e traduzidos pela escritora Nara Vidal: “Êxtase”, “Aula de canto”, “As filhas do falecido coronel”. “A vida de Ma Parker” e “Festa no jardim”. A escritora mineira também assina um dos posfácios. As artes são de Giulia Bianchi.

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