LITERATURA

Leia trecho do livro de contos de Beatriz Magalhães

"A narradora Generosa", com 15 histórias pontuadas por referências a Clarice Lispector, Drummond e Cyro dos Anjos, tem lançamento neste sábado na Vila 211, em Belo Horizonte

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“O amanuense na gaveta”

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Tolice. Não sei até onde irá esta fantasia de amanuense ocioso. No fundo, a culpa é da Seção do Fomento, que não fomenta coisa alguma, senão o meu lirismo.

Cyro dos Anjos

No pavimento superior do Palácio da Liberdade, a mente erudita do oficial de gabinete do dirigente do estado de Minas Gerais paira. Flutua em cogitações muito acima dos despachos e ofícios rotineiros. Há razões de sobra para tal: estará o governante interventor por mais dois meses desencravando obra paralisada de importante iniciativa de interesse nacional, enorme hotel com cassino numa estação de águas termais curativas do interior; o alto funcionário pretende, em seu cargo de confiança, mais profundamente se concentrar nas pautas tocantes ao seu estado e ao seu trabalho. Diga-se, de passagem e a bem da verdade: deseja dedicar-se de modo exclusivo e em tempo integral ao seu estado pessoal e ao seu trabalho extraoficial, já que, por ora, ora bolas, nada se decide mesmo. Muito ao contrário do esperado, em se tratando de razões, no momento não são as de natureza política e econômica que estão em questão, e sim as de teor literário e estilístico, tão ou mais prementes na ordem humana das coisas. Urge sondar as pascalianas razões do animal coração de certo amanuense, desvelar o seu mais profundo palpitar, destrinçar o que lhe vai nos átrios e ventrículos, o que implica conceder habeas corpus a si próprio, o que tem feito. A práxis está em andamento. Consiste em largar o expediente, soltar-se no meio da tarde, não só em espírito, mas de corpo físico, descer em desabalada a passadeira vermelha da monumental escada, pisada por reis da estranja, pôr os pés nos territórios da Liberdade, onde já se semearam alpistes instantâneos o bastante para iludir tais majestades, sair em sôfrega demanda de todas as liberdades para vivenciar in loco e na própria pele aquele intenso amor, talvez mais do que cortês, por uma donzela. Talvez mais do que donzela seja aquela que o amanuense teima em ocultar sob epíteto sacrificial, Arabela, em suas evidentes raízes latinas significando “altar formoso”, quando, de fato, é Carmélia Miranda, nome e sobrenome que, também no idioma original, ao pé da letra, formam frase completa: “vinha divina a ser admirada”. Elevada legenda, em particípio futuro passivo, denotando apenas possível enlevo a distância, e que, por sua vez, esconde a identidade, em verdadeira grandeza, da musa inspiradora de carne e osso. Mas isso se deixe para lá, é de foro íntimo dele, não tange ao amanuense. Se bem que ainda esteja aprimorando o método, já o vem exercitando diariamente, e está mais uma vez a caminho do estúdio secretíssimo, a pretexto de levar em mãos, enrolado e preso por um fitilho, o papel ofício com o memorando, adrede redigido por ele mesmo, que em pessoa o leva e traz para lá e para cá, quando em circunstâncias normais seria mister do contínuo do gabinete.

Percorre a alameda lateral direita da Praça da Liberdade a tartamudear, em sua proverbial implicância com babações bairristas. “Qual roseira Mil Maravilhas! qual nada! Qual Acrópole das Rosas! qual nada!” Olha à direita, para atravessar, lá vem um automóvel. “Stop! Bom que não foi a vida que parou… Ih, lá vem mais um!” Escapa do bólido que passa voando. Soma ao susto do poeta gauche itabirano o alívio do bardo pauliceu: “Vvvvvvv… passou”. E dele saboreia a gostosa modernice: “Belo Horizonte é uma tolice”. E segue a conjecturar o que diria o vate forâneo em vilegiatura se aqui voltando topasse com a recente secretaria, ainda que tardia, agora, bem à frente: fulgura à luz do dia, posta entre o palacete torreado da esquina de trás e a antes solitária secretaria da próxima. Uma tolice mais moderna que as outras? Uma toliçona pesadona, isso sim, mas condizente em volume com o conjunto. De longe, deve ressalvar. Sim, porque pôde ver outro dia toda a praça, os cinco palácios dispostos como bolos na esplanada nascida da degola do Alto dos Lobos, bem do cimo do Morro dos Pintos: esteve perambulando por lá a pretexto de verificar um trâmite governamental, quando de fato estava em gazeta preparatória, para efeito da atual providência literária. Tarefa que deve apressar antes que o mal cresça, a ideia se desvaneça e tudo vire uma burocracia só. Como a que seu colega, cronista que se disfarça de índio nos jornais, pintou em romance satírico com alvo na pedagogia buscada na Europa pelo estado em missão de lustrar e ilustrar Belo Horizonte. Livro avolumado pela gramatura elevada do papel do miolo, grosso papelão. Semelha um tijolo, não só pelas dimensões, mas pelo vermelho da capa, onde firma não como Pajé Tupiniquim, mas com o nome e o sobrenome próprios. Quando abriu, viu o colofão de cabeça para baixo, assim como a última página… Se começa no fim, pensou, vai acabar no começo; logo o fechou. Na capa de trás, ao alto, vinha: preço $ 5,00, mas de cabeça para baixo.

Em todo e por tudo uma blague, livro virado. Da pá-virada, o autor. De humor nada clemente, como o do irmão poeta, andrades egressos da cidade que não é mais Queluz, ficou sem o brilho deles e com graça de gente ajuizada, de conselheiro de lá… Não é que deram de hoje lhe vir à mente andrades de enfiada, carlos, mário, moacir, djalma, primos por parte da literatura? Só faltou o oswald e um antepassado romântico, moderno avant la lettre, com aquela de fazer palavra-valise com seus sobrenomes, acrescentando um chapéu: sousândrade. Divertido com esses pensamentos erradios, chega ao prédio da esquina e sobe a escadaria de acesso. Espia o pátio ao céu aberto, como de hábito vazio, pega a escada interna; no andar almejado percorre decidido o corredor. Adentra a última sala da Seção de Fomento Animal da Secretaria de Agricultura, Indústria, Comércio e Trabalho do Estado de Minas Gerais.

“A narradora Generosa”

De Beatriz Magalhães 

Autêntica Contemporânea

160 páginas 

R$ 68,90

Lançamento neste sábado (19/9), a partir das 11h, na Vila 211 (Rua Professor Estevão Pinto, 211, Serra) em Belo Horizonte

 

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Sobre a autora e o livro

Beatriz Magalhães (foto) é autora de livros como “Regiztros efêmeros” (Matéria Plástica, 2021), “Caso oblíquo”, vencedor da Bolsa Programa Petrobras Cultural de Ficção 2007 (Autêntica, 2009), e “Sentimental com Filtro” vencedor do I Prêmio Nacional Vereda Literária, categoria Romance, UNIBH/Autêntica 2002 (Autêntica, 2003). Também escreveu o estudo “Belo Horizonte: um espaço para a República” (UFMG, 1989) e participou de antologias como “Quando não estávamos distraídos” (Sinete, 2023) e “Feliz aniversário, Clarice” (Autêntica, 2020). O novo livro traz 15 histórias que funcionam como pequenos ensaios narrativos, com referências que vão de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Jean-Paul Sartre, Cyro dos Anjos (no conto “O amanuense na gaveta”, reproduzido parcialmente nesta página) a cantigas de roda. 

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