POESIA
Primeira leitura: 'Tomar parte no enxame', de Mônica de Aquino
Autora de "Fundo falso", vencedor do prêmio Cidade de Belo Horizonte, lança novo título em setembro na Livraria Quixote
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29/08/2026 04:00
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“Acreditar nas feras”
depois de Nastassja Martin
enquanto mordia minha cara
vi a escuridão da sua boca
sem poder penetrar o túnel
estreito
e misturar-me
como Jonas, dentro da baleia
o animal é a extensão do oceano
uma fera é também questão de proporção
e densidade
um urso que me engolisse seria
uma fuga temporária
como Jonas, conhecer o recuo
diferente da mandíbula do urso
que se fecha sobre a minha
dente por dente
antes deste golpe de faca
que a rasga novamente
em grito
e ele pensa na baleia
que não sabe de Jonas, mas o retém
flutuar pelo mundo inconsciente
das presas que evoca
apenas abrir a boca
“Batismo”
Favos elásticos decoram a parte superior do vestido.
A técnica de bordado desenha pequenas células
minúsculos corações
que esticam e voltam
a menina veste sua primeira colmeia
Abelhinha que zumbe na igreja
derruba as flores
confunde os anjos de pedra
Vai integrar a grande comunidade dos homens
que creem e temem
será parte do enxame
Pequena abelha que ignora, ainda, o trabalho
que é tramar a própria casa
para depois purgá-la:
ungida em mel e em néctar,
brinca, por enquanto
zumbe
junto ao coro
O mel escorre
mancha o vestido
preenche os alvéolos
brancos
doceamargo
inunda tudo
“Outra geometria”
a partir de Brígida Baltar
Não espero a chegada da caixa de abelhas.
O apiário que agora invento, nasce em meu corpo.
É ele que ofereço como vácuo
fabrico novas celas e úteros, atraio as abelhas
que partem em direção ao futuro.
Sou a colmeia, tateio o que há dentro
(secreto o mel da ficção de uma casa)
sinto o ruído branco na vibração dos músculos
cada vez mais imóvel: árvore
ossos, flores e mel
“Céu submerso”
Vira-se para a luz,
girassol noturno
mas sabe, persegue estrelas mortas
que enfrentam a escuridão
até ela
reverberar um passado
anterior à Terra, olha para si
talvez também seja reflexo
de algo que já se extinguiu
ou a origem
de outra coisa nebulosa
que vai atravessar
gerações de humanos
e de constelações
suas pétalas-fantasmas
o céu é uma composição de tempos:
corpos extintos,
sol que se estende na lua futura.
A luz reaparecerá em algumas horas.
Olho o relógio, outra estrela se afoga.
Antes, lança-se para a frente,
até algum homem distante
anos-luz de você, de mim
ele olha o céu.
Olha para este dia
como olhamos os primeiros.
SOBRE A AUTORA E O LIVRO
Nascida em 1979 em Belo Horizonte, Mônica de Aquino (foto) publicou os livros “Sístole” (Bem-Te-Vi), “Fundo falso” (Relicário, vencedor do prêmio Cidade de Belo Horizonte de 2013 e finalista do Jabuti de 2019), “Continuar a nascer” (Relicário) e “Linha, labirinto” (Macondo). Sobre “Tomar parte do enxame”, dividido em quatro seções e integrante da coleção Círculo de Poemas, a autora revela: “Os primeiros poemas deste livro começaram a ser escritos em 2020, dentro das oficinas dos poetas Dirceu Villa e Carlito Azevedo. Agradeço aos dois pelas trocas e pelo espaço tão importante quando estávamos isolados – e a poesia, mais do que nunca, era um caminho de encontro.”
“Tomar parte no enxame”
De Mônica de Aquino
Círculo de Poemas
104 páginas
R$ 74,90
Lançamento em Belo Horizonte no dia 12 de setembro (sábado), às 11h, na Livraria Quixote.