LITERATURA

Livro reúne ensaios de Leonardo Fróes sobre natureza e literatura

Variedade dos textos reunidos em único volume mostra a abrangência dos interesses que ocuparam o poeta durante mais de cinco décadas: a tradução,  a poesia, a ecologia, a literatura de língua inglesa e, principalmente, a magia da leitura e o poder encantatório da literatura

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Prisca Agustoni - Especial para o Estado de Minas

Após a publicação, em 2021, da aguardada “Poesia reunida” de Leonardo Fróes (1941-2025), a Editora 34 acaba de lançar a reunião de seus textos críticos e ensaísticos, sempre sob a cuidadosa organização do editor e também tradutor Cide Piquet. Se Fróes sempre foi um poeta admirado pelos seus contemporâneos de geração, assim como pelas gerações imediatamente posteriores à sua, a publicação de “Poesia reunida” contribuiu significativamente para voltar a colocar em circulação todos os seus livros (muitos dos quais já esgotados) e, principalmente, fazer com que seus versos se tornassem mais conhecidos entre as gerações mais novas, despertando nestas uma grande admiração, não somente voltada para seus poemas, mas também para o pensamento poético e ecológico subjacente à obra. 
 
 
De fato, a poesia de Fróes se estabelece a partir de um ordo amoris vinculado à natureza e com um descentramento antropocênico do olhar e do sentir, que decorre de um movimento interior de atenção que antecede o próprio gesto da escrita, e que constitui o coração pensante de sua obra. Mais do que isso, há uma aderência ética muito grande no universo literário de Fróes, uma vez que sua trajetória de vida foi caracterizada pela escolha, quando ainda jovem, de mudar-se da cidade do Rio de Janeiro para estabelecer-se entre Petrópolis e o sítio em Secretário, cercado pela presença dos viventes da Mata Atlântica, reflorestando o pedaço de terra onde decidiu morar, e de viver da escrita e de tradução.
 
 
É nesse contexto que a publicação de seus escritos, ou “textos” – como ele próprio comenta, na breve introdução ao volume, quando diz que “nunca entendi nem pratiquei com clareza a divisão da literatura em gêneros, [porque] para mim tudo são apenas textos, ou palavras ao vento” (p.16) – se inscreve como mais um braço nesse corpo total e totêmico que é seu pensamento poético e sua relação encantada com as palavras. Isso porque, justamente, Fróes fez da relação com a palavra tanto seu meio de sobrevivência, quanto uma forma de reestabelecer uma relação horizontalizada, gentil, com os viventes e com o conhecimento. 
 
Seus escritos, reunidos agora em livro, revelam com clareza o cuidado e a gentileza de abordagem dos temas e de suas “obsessões”, como, por exemplo, a literatura de língua inglesa (da qual foi um importante tradudor), ou o “sentimento da Natureza”, por ele assim nomeado no belíssimo ensaio dedicado à poesia de Alberto Caeiro, intitulado “Uma aprendizagem de desaprender – Fernando Pessoa e a natureza”. Sua maneira sutil e elegante de argumentar não se serve do rigor crítico, ainda que presente e necessário ao homem das letras que ele foi durante toda a vida, como mero instrumento a serviço de uma erudição centrada na ostentação de um saber paralisante. Ao contrário: seus argumentos desenham relevos, curvas e saltos vertiginosos, que às vezes permitem enxergar o homem simples, atravessado pelas dúvidas, sentado à mesa, atrás da máquina de escrever, como no comovente “As últimas leituras da noite – René Daumal (1908-1944)”, que encerra o volume.
 
Respeitoso com seus leitores e com as palavras, pelas quais ele confessa ter sido seduzido desde a infância, a variedade dos textos agora reunidos em volume mostra a abrangência dos interesses que ocuparam Fróes durante mais de cinco décadas, em publicações que estavam espalhadas em jornais, revistas, prefácios e posfácios de outros autores, e que vão do Romantismo europeu, passando pela epopeia indígena do  Popol Vuh, pelas lendas e parlendas sobre as fábulas de Esopo, à poesia como arte gestual na China, ou ao teatro de Tolstói, só para citar alguns dos ensaios presentes no livro.
Como observa o organizador Cide Piquet, os textos se parecem mais com diálogos cuidadosamente arquitetados com seus leitores imaginários: “de fato, os ensaios têm certo tom de conversa: numa prosa fluida e cristalina, ele tece comparações as mais livres, dá saltos no tempo e no espaço e faz digressões pessoais que tornam os textos mais vívidos e a leitura, mais prazerosa” (p.11). 
 
Divididos em capítulos que reagrupam livremente os temas, permitindo algum ruído interno entre eles, os 38 artigos que compõem o volume desenham um painel rico de reflexões sobre inúmeros assuntos caros ao poeta, como a tradução, a natureza, a poesia, a ecologia, a literatura de língua inglesa e, principalmente, a magia da leitura e o poder encantatório da literatura. Mais do que isso, os 38 textos representam um importante registro de um tempo (os últimos cinquenta anos) e de um modo como foi possível, e ainda é possível, pensar e fazer cultura no nosso país. 
 
Um destaque especial, para quem ama a poesia de Fróes, vai para o ensaio de abertura: “Um detalhe na paisagem – A paz do campo na poesia americana”. Nele, ao escolher alguns poetas americanos como modelos para exemplificar o vínculo que estes estabeleceram com  o campo e com a natureza, indiretamente Fróes entrega uma declaração de sua própria poética, preciosa e fundamental para entrarmos em seu universo poético, onde ecoa, para além da voz do poeta, do ensaísta e do tradutor, a voz do homem comum e único que foi – e continua sendo – Leonardo Fróes.  
PRISCA AGUSTONI é poeta, professora e crítica literária 

Trechos 


“Embora eu goste da poesia meio zen de Gary Snyder, não foi pelo valor literário, mas por me sentir atraído por suas experiências prosaicas, que ando agora nas pegadas desses poetas do campo. Seguindo-os, creio achar mais sentido em resumir-me a um “detalhe da paisagem” do que em viver amedrontado numa “floresta de nervos” onde eu talvez me perdesse, torturando-me com fabulações egocêntricas. Pelas trilhas que eles abrem, sinto o infinito prazer de estar no mundo, mas não ser apenas eu. Noto enfim que os trabalhos manuais, longe de me degradarem, me ajudam a manter o necessário equilíbrio entre corpo e mente. Pensando bem, lavar a louça que usamos talvez não seja um suplício.” 
(Do ensaio “Um detalhe na paisagem – A paz do campo na poesia americana”)

*

“[...] A lição de Caeiro é cristalina. Os humanos, com um peso enorme de conhecimento racional nos ombros [...], precisam submeter-se a um “estudo profundo”, dando-se a “uma aprendizagem de desaprender”, para tornarem-se capazes [...] de ascender a uma espécie de conhecimento afetivo que lhes permita aceitar e incorporar o que tem existência e nos confronta, porém à margem de nossas categorias e valores. Na contemplação da Natureza, segundo o testemunho de Caeiro, o pensamento se congela, porque pensar, nesse momento, atrapalha, e é também conveniente que nossos sentimentos se mantenham à parte, tendo-se em vista que o que há neles de ilusório e mutável pode contaminar a apreensão do real. 
 
Onde e quando terá Pessoa se encontrado diante de algum cenário verde – fossem matas exuberantes ou campos paradisíacos – que lhe permitissem vivências bem profundas para incutir em Caeiro essa dispensa de raciocínio e o respeito taxativo pela integridade das formas naturais? Eis aí uma pergunta de resposta quase impossível. Poucas vidas de poeta serão tão apagadas, tão desprovidas de grandes acontecimentos notáveis, quanto a desse cultor de um turbilhão de fatos mentais que transcorriam somente, com um pudor dos mais sóbrios e um distanciamento invulgar, nas alamedas do seu interior.” 
(Do ensaio “Uma aprendizagem de desaprender – Fernando Pessoa (1888-1935) e a natureza”)

*

“A noção de que o ritmo (o sopro) é o princípio de tudo, e de que ele servirá de sintaxe para interligar os sentidos, confere à poesia da China seu caráter de arte gestual. É a caligrafia que dá corpo ao poema, tendo ela em si, já na feição que os traços assumem, a capacidade de fixar estados de espírito: na mão do poeta, enquanto ele raciocina em palavras que têm de adaptar-se a uma forma, o pincel vai circular entre relaxamento e tensão, delicadeza e vigor, para constituir seu dizer. Subordinando-se ao ritmo primordial, do qual se faz um instrumento, o poeta “captará assim o que há gerações espera por seu pincel”, como escreveu um autor do século III, Lu Ji (261- 303), famoso por descrever as nuvens como folhas de jade. Poesia, caligrafia e pintura são a rigor faces da mesma arte, não estando as três compartimentadas, e às vezes um mesmo artista, caso de Wang Wei, se destacou como mestre em todas.” 
(Do ensaio “A poesia como arte gestual – China”) 

*

“Ao traduzir na máquina de escrever as cartas de Freud e Jung – 722 páginas em alemão, 650 em inglês, mais de 700 laudas e um calo no dedo em português – eu vacilei muitas vezes e acabei bancando o analista para vislumbrar em mim mesmo os resíduos de uma forte deturpação cultural. Por mais claras que as palavras fossem, custava-me admitir que Freud chamasse Stekel de porco (Schwein) ou que Jung dissese que um adversário, ao escrever um artigo, voltava a vomitar (übergeben ), rotulando-o algum tempo depois de mentiroso e palhaço. Xingamentos dessa ordem [...] são bastante frequentes na correspondência mantida ininterruptamente de 11 de abril de 1906 a 27 de outubro de 1913. E isso de fato não combina, à primeira vista, com a imagem circunspecta desses dois “grandes homens” que devassaram nossa alma obscura e tentaram apontar [...] os problemas que motivam uma atitude agressiva contra os outros.
 
Mas, passado o espanto, vê-se que a grandeza das cartas é justamente devolver aos gênios os toques de pura humanidade que a idolatria histórica, acrítica por definição, se encarregou de ofuscar. Imersos em seu trivial glorioso, Freud e Jung são de novo duas criaturas vivas, e não dois monstros empalhados, que cedem à força dos impulsos, pensam no dinheiro e na fama, gastam verve e inteligência para falar da vida alheia, maldizem e gozam a própria clientela neurótica; e que em determinados momentos, por mais que se analisem mutuamente, cometem alguns desses pequenos deslizes a que qualquer um de nós está sujeito.” 
 
(Do ensaio “Melindres e galanteios – A correspondência de Freud (1856-1939) e Jung (1875-1961)”)

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