'Filhos da mãe gentil' é uma comédia de (maus) costumes
Com trama engenhosa, romance de estreia do jornalista e editor Roberto Feith utiliza a ironia para satirizar a crônica político-policial brasileira
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Geraldo Carneiro - Especial para o Estado de Minas
Desde o título, “Filhos da mãe gentil” sugere que é um livro escrito na clave da ironia. Esclareço, para os distraídos, que o título cita a letra do Hino da Independência”, composto pelo Imperador Pedro I, e também o “Hino Nacional brasileiro”, cujo texto é cheio de palavras estrambóticas que as crianças, coitadas, são obrigadas a decorar sem compreender nem mesmo quem é o sujeito do primeiro verso. Quanto aos “filhos da mãe”, o leitor não precisa que se esclareça o duplo sentido.
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A trama do livro de Roberto Feith, jornalista e editor que estreia como romancista, é engenhosa. Engendra conexões inesperadas entre o filho de um bicheiro da Baixada fluminense, uma jovem executiva negra e um jornalista decadente, além de vigaristas e escroques de todas as bandeiras. Com direito a cenas em paraísos grotescos como o Balneário Camboriú, essa Dubai suburbana onde gorjeiam tantos tubarões do nouveau-richismo made in Brazil.
De certa maneira, o livro de Roberto Feith se inscreve na tradição das sátiras e novelas picarescas. Seu elogio às avessas de alguns protagonistas faz lembrar o romance “O Conde de Abranhos”, de Eça de Queirós, em que um secretário meio cretino escreve para celebrar as supostas proezas do patrão e acaba por revelar suas mutretas e patranhas. Para compor o elenco de sua sátira, Roberto Feith escolhe seus figurantes em meio à escória da criminalidade deste país pitoresco e extravagante, cujo nome começa com a letra b, de bye-bye. Bicheiros, parlamentares, ministros de diversas cortes, trogloditas envolvidos em tentativa de golpe de estado, todos espécimes deletérios da vida brasileira. Verdade que o narrador às vezes finge que tem simpatia por suas criaturas, mas raramente resiste a reduzi-los à caricatura. E o melhor – e também o pior - é que suas criaturas se parecem muito com a nossa paisagem humana.
O leitor familiarizado com o elenco da nossa vida política com certeza vai se deleitar decifrando quem são os personagens da vida real a quem o autor se refere em sua sátira. Sempre à clé, como dizem os franceses, com o cuidado de ocultá-los por trás de nomes quase sempre farsescos. Entre eles, numa premonição notável, Feith menciona um bambambã que, para favorecer suas falcatruas, é capaz de promover festinhas de embalo para comprar muitos dos próceres da republica, gregos e baianos.
Para descrever, por exemplo, a cronologia imobiliária da corrupção, o autor conta a história de uma casa às margens plácidas do lado de Brasília e enumera seus moradores. O primeiro é um almirante da reserva que foi para capital no tempo da ditadura militar para fazer negócios escusos. Depois veio um paulista dono de corretora com a disposição de abocanhar os bilionários fundos de pensão das empresas públicas. Depois um bispo da Assembleia Universal dos Pastores de Deus, que promovia encontros de reverendos de todo o Brasil “celebrando as alegrias da vida com um grupo de colegas e de moças vistosas.” Faltou levar às últimas consequências seus dons proféticos para mostrar o atual morador da casa, comprada a preço de banana com financiamento de banco público, promovendo sessões em seu cineminha privado para exibir o trailer de um épico biográfico sobre as façanhas de um aventureiro de extrema-direita.
Não bastasse esse painel que às vezes adquire o tom da chanchada, o livro distribui bordoadas a torto e a direito. Por exemplo: “Quando um político de esquerda fatura um benefício fora das quatro linhas, dá a maior parte para o partido e bota um troco no bolso. Já o de direita, bota a maior parte no bolso e dá um troco para o partido.”
Em suma, “Filhos da mãe gentil” é uma versão ácida e jocosa de nossa crônica político-policial. Uma comédia de (maus) costumes. E, como toda novela picaresca, o livro traz em seu cerne forte tempero de pessimismo, com a convicção de que esses desmandos são uma espécie de fatalidade antropológica. Mas talvez guarde, pelo menos como miragem, a esperança de que, se os deuses conspirarem a favor, possa-se um dia fundar no Brasil uma civilização.
GERALDO CARNEIRO é poeta, tradutor, dramaturgo e ocupa a cadeira n.24 da Academia Brasileira de Letras (ABL)
“Filhos da mãe gentil”
De Roberto Feith
Editora Intrínseca
352 páginas
R$ 79,90
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E-book: R$ 39,90