Ele é norte-americano do Texas, mora numa casa construída em 1600 em Utrecht, nos Países Baixos, e tem profunda ligação literária com o Brasil. O escritor Benjamin Moser, de 49 anos, se tornou mais conhecido por aqui ao lançar “Clarice, uma biografia”, obra na qual contou ao mundo sobre Clarice Lispector (1920-1977), eternizada em livros como “Perto do coração selvagem”, “A hora da estrela”, “A paixão segundo G.H” e outros. Agora, Moser chega às mãos e aos olhos do leitor com “O mundo de ponta-cabeça – Encontros com os mestres holandeses” (Companhia das Letras).
À primeira vista, parte do título não poderia ser mais atual: quem, em sã consciência, ainda não pensou que este mundo está realmente de “cabeça para baixo”? Mas não se assustem: o que vem pela frente se completa, linha após linha, em prol do conhecimento, e se encontra permeado de sensibilidade, emoldurado pela beleza e envolto em breu e luzes, claros e escuros, talento e ousadia, morte e vida – não necessariamente nessa ordem.
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A partir da obra de grandes pintores do século 17, a exemplo de Rembrandt (1606-1669) e Vermeer (1632-1675), Moser traz à cena questões importantes da história da arte, incluindo ato da criação, significados da beleza, gênese de um artista. Na introdução, indaga, entre outros aspectos: “Por que fazemos arte, e por que precisamos dela? Quem e o que é um artista? O que significa ter talento, e como desenvolver aquilo que se recebeu? Um artista pode ser um seguidor ou precisa ser original?
Então, ele responde, e fala das duas décadas dedicadas a esse trabalho e dos primeiros lampejos sobre as formas da arte em sua vida: “Nenhuma dessas perguntas tinha resposta, ou, pelo menos, uma resposta satisfatória – e foi assim que percebi que tinha encontrado um grande tema. Não sabia que ele acabaria me consumindo por vinte anos, o tempo que levei para escrever este livro. Mas não comecei com essas perguntas nem com a intenção de escrever um livro. Comecei com a mesma empolgação que senti ainda menino, quando parei em frente ao esqueleto de um dinossauro ou quando vi pela primeira vez a Pedra de Roseta: aquela emoção de estar numa sala cheia de coisas antigas e misteriosas”.
VIDA NA EUROPA
Aos 25 anos, Benjamin Moser se mudou para a Holanda, movido por uma razão amorosa, desembarcando num país cuja língua não dominava – tudo era novo e diferente no cenário, com luzes, sombras e canais, em cidades como Haarlem, Delft e Amsterdã. Nos intervalos da vida em outra paisagem, passou a visitar grandes museus do país, primeiro por curiosidade, depois com sentimento de devoção.
Diante das telas da chamada Idade de Ouro holandesa, o autor também de “Sontag”, sobre a intelectual norte-americana Susan Sontag (1933-2004), “encontrou não apenas a herança de um esplendor artístico, mas um espelho de suas próprias inquietações”, conforme divulgado pela editora. Em meio a nomes definitivos, mestres do seu tempo, entre eles Rembrandt, Vermeer, Frans Hals (1582-1666) e Albert Eckhout (1610-1665), autor de pinturas do Brasil Holandês, o texano descobriu um universo de artistas sublimes. Sobre Eckhout, ressalta que “pintou os holandeses do Brasil em formatos usualmente reservados à realeza”.
A respeito do livro, resumiu numa frase o escritor irlandês Colm Tóinbin: “Um guia essencial sobre pintura holandesa”, enquanto a multiartista Laurie Anderson não poupou elogios. “Com uma escrita profunda e intensamente viva, Moser aborda a vida e as obras desses grandes pintores e conecta suas próprias experiências como escritor com reflexões poderosas sobre o significado da arte”.
Ricamente ilustrado, “O mundo de ponta-cabeça” representa um mapa essencial sobre arte holandesa e uma exploração apaixonada de um dos momentos mais espetaculares da história da arte e da humanidade. Ao longo das 384 páginas, o leitor terá muitos momentos de “deliciosas” reflexões. Nas páginas 54 e 55, o autor pergunta: “Qual você preferiria olhar todos os dias? E mostra a mesma cena, “O sacrifício de Isaac”, criado pelas mãos de Rembrandt, o “mestre da sombra”, e por seu discípulo, Ferdinand Bol (1616-1680).
HISTÓRIA PESSOAL
Uma obra de arte nos permite muitas voltas pelo mundo, com partidas e chegadas em memórias, pensamentos, experiências. Cada um tem, nas lembranças, uma tela da qual sempre se lembra, de um verso repetido em forma de oração, mantra ou guia espiritual, da cena de um filme prestes a se concretizar no dia a dia, de um acorde tão longe, tão perto. Eu, particularmente, tenho uma história com Rembrandt – e a leitura da obra de Moser “iluminou” ainda mais a relação.
Há muitos anos, numa viagem a Amsterdam, fui a uma exposição e comprei um cartaz com o rosto do artista. Coloquei num quadro, pendurei na parede do corredor de casa. Para resumir, o artista, como se fosse um silencioso visitante, passou a fazer parte da rotina. Não raro, acordo, dou de cara com o holandês e falo de homem para homem: “Bom dia, Rembrandt!”
“O MUNDO DE PONTA-CABEÇA – ENCONTROS COM OS MESTRES HOLANDESES”
• De Benjamin Moser
• Companhia das Letras
• DBA Editora
• 384 páginas
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• R$ 129,90 (livro físico) e R$ 49,90 (e-book)
