Marcia Tiburi - Especial para o Estado de Minas

Quando Patrícia Espírito Santo lançou “Há um lugar para mim na casa do meu pai”, a literatura brasileira contemporânea ganhou uma reflexão dolorosa e necessária sobre o abrigo, a busca por pertencimento e as fraturas da identidade diante do desamparo. Era um livro que interrogava o espaço do afeto e a possibilidade de pouso em meio às intempéries da existência. Agora, em seu novo e impactante “Onde deságua o desengano” (Autêntica), a autora expande essa investigação poética e, igualmente, ética para uma dimensão ainda mais radical, onde a busca já não é apenas por um lugar simbólico, mas pela sobrevivência elementar do corpo e do espírito.

Construído a partir do acúmulo de memórias, observações e depoimentos colhidos durante três temporadas como voluntária no sul de Madagascar, entre os anos de 2023 e 2025, o livro recusa o rótulo fácil do diário de bordo ou do relatório humanitário. Patrícia realiza uma operação bem mais complexa e delicada: transforma a experiência do trabalho voluntário em uma literatura de resistência, equilibrando-se com maestria na linha tênue entre o olhar documental e a elaboração estética refinada. A autora se recusa a assumir a postura do salvador ocidental ou do turista da dor alheia. O seu gesto é o da escuta qualificada, da presença humilde e do registro comprometido.

Essa postura metodológica e ética estabelece um diálogo inevitável com o trabalho da Nobel de Literatura Svetlana Aleksiévitch. Assim como a autora bielorrussa revolucionou o jornalismo literário ao recolher e costurar as narrativas silenciadas de mulheres soviéticas na Segunda Guerra - dando voz ao detalhe miúdo da vida que a historiografia oficial insiste em apagar -, Patrícia constrói sua narrativa a partir de uma polifonia da dor e da dignidade. Onde Aleksiévitch escutava os escombros da história política para registrar a dimensão humana da tragédia, Espírito Santo escuta as fissuras do abandono social no Sul Global. Em ambas, o centro do relato não é o evento grandioso ou a estatística, mas a verdade íntima de quem carrega a história no próprio corpo.

A obra mergulha na crueza cotidiana vivida pelo povo Antandroy, habitante de uma das regiões mais áridas do planeta. A fome é retratada na sua dimensão concreta. Uma frase emblemática sintetiza o ritmo daquela existência: “Se chove, comemos; se não, passamos fome”. Trata-se de uma dependência visceral da terra e do clima, um estado de alerta perpétuo em que a vida é medida em ciclos de precipitação pluviométrica. Com uma prosa precisa e desprovida de artifícios espetaculosos, a autora nos conduz por um cenário onde a escassez dita o valor do tempo e dos corpos.

Um dos pontos de maior força da obra reside na exposição da invisibilidade civil que assola aquela população. A ausência de registros oficiais de nascimento transforma milhares de indivíduos em fantasmas perante o Estado. São vidas que nascem e se apagam sem jamais terem existido para o papel. Ao dar nome, voz e espessura humana a essas pessoas, Patrícia realiza um ato político de restituição de dignidade. O texto funciona como um documento contra o esquecimento, registrando existências que o mundo parece fazer questão de ignorar.

Dentro desse panorama de aridez, destaca-se a figura central das mulheres. À maneira das testemunhas de Aleksiévitch, as mulheres Antandroy surgem como as guardiãs da memória e da sobrevivência. São elas que carregam nos ombros o peso desmedido da manutenção da vida na seca extrema. O livro dedica capítulos de extrema delicadeza a examinar esse protagonismo feminino. A força dessas mulheres não é romantizada. Não há a armadilha de transformar a dor em heroísmo. A teimosia diária contra a morte, tecida no trabalho incansável e no cuidado comunitário, é uma lição para quem evita olhar para o sofrimento do mundo.

Outra camada profunda da narrativa é a apreensão da espiritualidade Antandroy. Longe de ser tratada sob o prisma do exotismo, a dimensão sagrada surge no livro como um pilar de resistência psíquica. Diante do colapso das estruturas materiais e da falência do amparo estatal, a fé e os ritos funcionam como o único tecido protetor capaz de evitar a desintegração da psique individual e coletiva. A espiritualidade é o refúgio onde a humanidade daquele povo se preserva intocada.

Tanto em “Há um lugar para mim na casa do meu pai” quanto em “Onde deságua o desengano” as dores da intimidade e as condições históricas e sociais do mundo exterior são tratados com rigor ético e delicadeza lírica. A prosa de Patrícia é ágil, seca quando precisa ser, mas profundamente poética. Sobressai o rigor ético na escolha de cada palavra: não se exagera o sofrimento para arrancar a lágrima fácil, mas também não se doura a pílula de uma realidade devastadora.

O título da obra provoca uma indagação central: afinal, onde deságua o desengano? Se o desencanto com as promessas de um mundo globalizado parece inevitável diante da miséria extrema, o livro de Patrícia Espírito Santo demonstra que o desengano não precisa desaguar na apatia. Ele deságua na consciência, na alteridade e no compromisso com o outro. É uma leitura urgente para os dias atuais, pois nos obriga a confrontar os limites do que se considera “humano”. Trata-se de uma obra visceral, cujo eco permanece ressoando muito tempo após o fechar da última página.

MARCIA TIBURI é escritora e artista visual, autora de livros como “Ninfa morta”, “Mundo em disputa” e “Quatro passos sobre o vazio”

“Onde deságua o desengano”

De Patrícia Espírito Santo 

Autêntica

168 páginas

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