“Transposição” (1969), “Helianto” (1973), “Alba”(1983), “Rosácea”(1986), “Teia”(1996). Bastaram cinco livros para a paulista Orides Fontela inscrever seu nome na poesia brasileira, ainda que sem a mesma popularidade de outras autoras e autores da segunda metade do século 20. Quase trinta anos depois da morte de Orides, que nasceu em São João da Boa Vista em 1940 e morreu em Campos do Jordão em 1998, o reconhecimento deve ganhar um novo impulso com uma série de relançamentos que chegam às livrarias para marcar a homenagem da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a ser realizada de 22 a 26 deste mês na cidade histórica do Rio de Janeiro.
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Entrevista: Rita Palmeira: 'Orides cria imagens fortes com poucas palavras'
“O que me chama atenção na poesia da Orides é a força das imagens que ela cria com tão poucas palavras. E que ela consiga com um número tão pequeno de versos dizer tanto”, afirma Rita Palmeira, curadora da Flip, ao comentar a escolha da poeta como a escritora homenageada desta edição. “Além disso, a capacidade que ela teve de transformar o tanto que leu (os modernistas, os concretos, os filósofos) e sua observação do mundo em uma poesia tão singular”, analisa, em entrevista ao Pensar do Estado de Minas.
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Responsável pela publicação da obra de Orides Fontela, a editora Hedra acaba de publicar novas edições dos cinco livros da autora, organizadas por Ieda Lebensztayn, com textos críticos de nomes como Antonio Candido e Augusto Massi. “Um dos diferenciais dos novos volumes é que o estabelecimento do texto incluiu o cotejo com a primeira edição de todos os livros de poesia e com o volume ‘Trevo’(1969-1988), edição que reuniu as quatro primeiras obras de Orides. Com esse processo minucioso, foi possível fazer alguns ajustes na nova edição”, conta Ieda, na divulgação dos relançamentos.
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A editora lançará na Flip outras obras relacionadas a Orides. “Conversas: Escritos e entrevistas de Orides Fontela”, organizado por Ieda Lebensztayn, Mário Alex Rosa e Augusto Massi, inclui entrevistas, depoimentos e ensaios da autora sobre o fazer poético. “Eu não quero enrolamento, não. Acho que chateia, muito enrolamento. Já sou xingada de hermética, metafísica, não tentando isso, não tentando complicar”, afirmou, em 1995. “A conclusão é que eu estou dando uma confusão na cabeça dos críticos. Enfim, eu não estou na grande linha da poesia brasileira de jeito nenhum”, disse a Michel Riaudel, professor emérito da Sorbonne e tradutor de Guimarães Rosa e Milton Hatoum.
Na entrevista, originalmente publicada na França em 1998, ela também faz uma avaliação da própria obra: “Quando escrevi ‘Transposição’, eu estava distanciada da vida real. Esse livro é uma coisa incrível. É muito bom, forte. Talvez eu nunca tenha escrito alguma coisa tão forte assim. Depois desse acho que o melhor que eu escrevi foi ‘Alba’. Agora eu não sei. Capaz de eu ter piorado um pouco”, afirmou a Riaudel.
BIOGRAFIA GANHA NOVO CAPÍTULO
A Hedra também envia às livrarias a segunda edição de “O enigma Orides: uma biografia”, do professor universitário Gustavo de Castro. Escrito para contar como a poeta “experimentou intuitivamente o mundo”, o ensaio biográfico ganha um novo capítulo e caderno de fotos com material inédito. “Para Orides, a poesia consistia não só em forma de pensamento, mas em forma de vida - ao passo que usava a filosofia para tentar compreender a realidade, para operar com as ideias de impossível, sensível e indizível”, afirma, no prefácio, o professor de Estética da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB).
“No entanto, sua linguagem poética não representa simplesmente uma leitura da realidade: ela recriava seu mundo, ao mesmo tempo que transformava o sujeito que a enunciava. Nesse contexto, a relação entre poesia, filosofia e vida aparece como uma dinâmica de experimentação. Há na poesia de Orides uma tensão permanente entre subjetividade e objetividade, emoção e razão, corpo e pensamento, uma experiência humana que não pode ser reduzida a um único plano. Vida, poesia e filosofia convergem como modos de investigação da existência”, complementa o biógrafo: “Para mim, Orides continua a ser a expressão máxima dessa “poesia vivida”e radical, aquela que busca no instante os sinais da eternidade”.
A homenagem a Orides na Flip se inicia com a conferência “Entra furtivamente a luz”, a ser proferida por Augusto Massi, crítico, poeta e amigo de Orides, no dia 22 (quartafeira), às 19h30, seguida por uma performance da poeta Marília Garcia.
Nos outros dias da Flip, haverá uma série de eventos com críticos, poetas, tradutores, ilustradores e editores em torno da obra de Orides. Um dos encontros, “Ressonância Orides”, reunirá poetas influenciados pela autora, entre eles Prisca Agustoni, Mônica de Aquino, Patrícia Lavelle, Paulo Henriques Britto, Tarso de Melo e Edmilson de Almeida Pereira.
SEGUNDA EDIÇÃO DE ‘O NERVO DO POEMA’
Os autores citados acima estão reunidos nos versos dedicados à homenageada em “O nervo do poema: antologia para Orides Fontela”, publicado pela Relicário em 2018, que ganhou segunda edição. Organizado pelos poetas e professores Patrícia Lavelle e Paulo Henriques Britto, o volume tem novos paratextos dos organizadores. “A ideia era mostrar que a obra de Orides irriga, instiga e inerva a poesia do presente. Procuramos assim esboçar um panorama das retomadas e releituras da poeta (ou de caminhos por ela indicados) em diferentes poéticas contemporâneas”, afirma Lavelle. “O sofisticado trabalho métrico de Orides disfarça por trás de uma mancha gráfica que nos faz pensar, erroneamente, em verso livre”, observa o poeta e tradutor, integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL).
“Orides lê interrogando e dialogando, transforma o lido ao dar forma ao poema, relê escrevendo. Alguns de seus poemas se apresentam explicitamente como releituras, outros deixam as leituras implícitas. Em todo caso, sua experiência poética da leitura é sempre releitura, trabalho de inversão e reinvenção na escrita: metamorfose, ironia e diálogo”, acreditam os organizadores de “O nervo do poema”. A editora mineira também levará para a Flip “Poesia e filosofia – homenagem a Orides Fontela”, compilação de textos de pesquisadores brasileiros apresentados em simpósio em 2018 e organizados por Lavelle, Henriques Britto, Henrique Estrada e Pedro Duarte.
Lançamentos, relançamentos, homenagens, encontros e reencontros. Tudo em nome da autora de poemas “que estão bem à margem, entre o já falado e o jamais dito”, como definiu José Miguel Wisnik na apresentação de “Rosácea”: “Orides Fontela, de nome singular como ela mesma, é zen, pré-socrática e pré-tudo.”
POEMAS SELECIONADOS
“Transposição”
Na manhã que desperta
o jardim não mais geometria
é gradação de luz e aguda
descontinuidade de planos.
Tudo se recria e o instante
varia de ângulo e face
segundo a mesma vidaluz
que instaura jardins na amplitude
que desperta as flores em várias
coresinstantes e as revive
jogando-as lucidamente
em transposição contínua.
(Do livro “Transposição”)
*
“Rosácea”
Rosa primária quíntupla
abstrato vitral
das figuras do ser.
Ritmo em círculo, cinco
tempos de um mesmo ponto
interno, que se acende
no infinito. Rosa
não rosa: arquitetura
conforma do possível.
Abstrato vitral
das figuras do ser.
(Do livro “Helianto”)
*
“Alba III”
Ó rosa face
emergente:
puro gosto de luz
branca.
(Do livro “Alba”)
*
“Da metafísica (ou da metalinguagem)”
O que é
o que
é?
(Do livro “Rosácea”)
*
“Vésper”
A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume.
A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima:
depois dela só há
o silêncio.
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(Do livro “Teia”)
