Rafael Fava Belúzio - Especial para o Estado de Minas
Quando morava em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Orides Fontela (1940-1998) escrevia poemas e os guardava em um grande fichário preto. Era professora da rede pública, vinha de família humilde e divulgava textos em jornais locais. Com 27 anos e com apoio de seu conterrâneo Davi Arrigucci Jr., ela se muda para a capital, cursa Filosofia na USP e expande suas relações. Começa, então, a construir um percurso editorial que, em 2026, chega a um novo movimento: a autora é homenageada pela Flip e os cinco livros poéticos da escritora paulista ganham relançamento pela editora Hedra.
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Tudo se recria em variações contínuas. As publicações originais de “Transposição” (1969), “Helianto”(1973), “Alba”(1983), “Rosácea”(1986) e “Teia”(1996) são hoje raridades. Dimensionam o prestígio dessa caminhada: o terceiro e o quinto volumes contam, respectivamente, com prefácios de Antonio Candido e de Marilena Chauí, dois dos maiores intelectuais brasileiros do século 20 em Literatura e Filosofia. Quanto ao primeiro volume, tem capa de tonalidade creme e de mínimos elementos, traços alinhados à estética oridiana e a marcar o trajeto iniciado.
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Em 1988, uma primeira compilação junta os quatro títulos iniciais em “Trevo (1969- 1988)”. Está no selo Claro Enigma, organizado por Augusto Massi na Livraria Duas Cidades. A coleção sinaliza a proximidade decisiva entre autora e editor, e é importante para a poesia nacional das décadas de 1980 e 1990. No volume oridiano, em particular, as orelhas têm considerações de Antonio Candido; e a encadernação “clean”, em papel kraft claro, é afinada à poética que ilustra.
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Pela editora Hedra, em 2015, com uma encadernação amarela, vem a lume a “Poesia completa”, que inclui uma seção com cerca de 30 composições inéditas localizadas pelo pesquisador Gustavo de Castro. Mais ou menos a partir dessa época, aliás, a bibliografia sobre a sanjoanense obtém impulso em diversas regiões do país, com ênfases na USP e na PUC-Rio. Isso se vê no ensaio de Ivan Marques para a Ciranda de Poesia, bem como nos trabalhos presentes em “Poesia e filosofia: homenagem a Orides Fontela”, capitaneados por Patrícia Lavelle e Paulo Henriques Britto. A dupla ainda organiza, em 2019, o livro “O nervo do poema: antologia para Orides Fontela”, no qual vários escritores tecem versos à criadora de “Teia”. Aparecem, por exemplo, textos elaborados pelos organizadores, por Marília Garcia e por Edimilson de Almeida Pereira. Assim, o círculo em torno da autora de “Rosácea” vai abrindo sua espiral.
Com a escolha de Orides Fontela pela Flip deste ano, a antiga guardadora de fichários alça voos no cânone. Seus cinco tomos são republicados pela Hedra, individualizados, dispostos em capas limpas e em cores que interagem com os trajetos editoriais e com os conteúdos dos textos. Observe, especialmente, o uso do amarelo em “Helianto”(sinônimo de “girassol”) repetindo, com diferença, designs anteriores. Além disso, o degradê (diminuição progressiva da cor) é comparável a um recurso frequente nos poemas oridianos, a dessonorização (diminuição progressiva do som). Nessa safra de livros, organizada por Ieda Lebensztayn e em diálogo com Augusto Massi, cabe destacar a reavaliação dos originais e as consultas a arquivos, ocasionando modificações certeiras em alguns versos.
Outro diferencial está nos paratextos recheados por materiais fotográficos, históricos e críticos. Os estudos incluídos propiciam tanto um olhar retrospectivo quanto avanços nos debates. Constam entrevista de Davi Arrigucci Jr. sobre sua colega de São João da Boa Vista; prólogo de Antonio Candido a “Alba”; ensaios já clássicos de Alcides Villaça, Augusto Massi e Ivan Marques; artigos de Paulo Henriques Britto e Patrícia Lavelle encontrados em livro; produções inéditas de Viviana Bosi e Nathaly Alves.
Essa espécie de balanço e abertura arquitetados pela recente coleção da Hedra se faz notar, ainda, nas orelhas das obras. Tais espaços dispõem de apresentações feitas pelos poetas-críticos Fabio Weintraub, Marília Garcia, Edimilson de Almeida Pereira e Veronica Stigger, além do anterior prefácio escrito por Marilena Chauí. Aliás, ao deslocar a introdução da pensadora – das primeiras páginas de “Teia”, em 1996, para a orelha de “Teia”, em 2026 – são emaranhados os fios de literatura e filosofia – tensão consoante à poética oridiana. É poesia, e basta. No entanto, é também convite à filosofia – ou a própria nervura do verso raciocinando
“o que é
o que
É?”.
Nesse pequeno poema está uma pergunta pelo infinito. Parte da expressão infantil e amplia a indagação: o que é tudo que existe? Ademais, os versos realizam transposições da questão por meio das quebras das linhas, gerando degradê de palavras, como se fizessem uma seta – por meio da dessonorização e da mancha gráfica na página – para o ponto específico, a sílaba “é”. E há longos brancos na folha. O ser e o nada.
No estilo do que ocorre acima em “Da metafísica (ou da metalinguagem)”, a poética oridiana possui aguda autoconsciência e, por meio de concisões estéticas, aborda, sobretudo, ontologia e epistemologia. Como o percurso editorial, a literatura mobilista de Orides Fontela está em transposição contínua: nos cinco livros relançados, essa produção se recria segundo caminhos consolidados e desperta novos ângulos.
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RAFAEL FAVA BELÚZIO é doutor em Estudos Literários (UFMG), com graduações em Letras (UFV) e Filosofia (UFMG). Publicou artigos acadêmicos sobre Orides Fontela e inventariou a autora para o Memorial Poético dos Anos de Chumbo. É pesquisador pós-doc FAPES/IFES.
