Diálogo com a contemporaneidade, superação dos estereótipos de gênero e, claro, a força de uma poesia capaz de dizer muito com poucas palavras. Eis algumas das razões da escolha de Orides Fontela como escritora homenageada na 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). É o que conta a curadora literária da Flip, Rita Palmeira, em entrevista ao Pensar do Estado de Minas. “Orides ajuda a eliminar os estereótipos de gênero (que ela própria, porém, assimilava) e mostra que as mulheres podem, afinal, escrever sobre qualquer assunto. O que hoje é uma obviedade, sessenta anos atrás, quando ela escrevia seu primeiro livro, não era”, lembra a curadora.
Leia Mais
Doutora em Literatura Brasileira pela USP e mestre em Teoria Literária pela Unicamp, Rita Palmeira trabalhou na curadoria do acervo da Livraria Megafauna, participou da criação do Festival Poesia no Centro e foi uma das curadoras da segunda edição do Festival Literário do Museu Judaico de São Paulo, em 2023. Ela media mesas no programa principal da Flip desde 2017. “Com sólida carreira no meio literário, Rita vem desenvolvendo um trabalho muito cuidadoso e atento ao cenário atual da literatura no Brasil e no mundo, revelando sua capacidade de colocar em diálogo as diversas sensibilidades da leitura”, afirmou o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, ao justificar a escolha da sucessora de Ana Lima Cecílio, curadora das duas últimas edições da Flip.
Na entrevista, além de analisar aspectos da obra de Orides Fontela e indicar leituras da poeta paulista, Rita Palmeira comenta a escolha de quatro nomes de Minas Gerais para a programação principal, antecipa os temas que devem ser debatidos às mesas e conta que um autor mineiro pode ser homenageado em uma das próximas edições da Flip. “Impossível ignorar um estado de onde saíram nomes como Pedro Nava, Carolina Maria de Jesus e Murilo Mendes”, lembra
Como as suas experiências na curadoria do acervo da Livraria Megafauna e na criação do festival Poesia no Centro se refletiram na montagem da programação da Flip?
De muitas maneiras, mas não só a experiência na Megafauna e no Festival Poesia no Centro. Posso dizer que meu trabalho reúne as marcas de todos os lugares por que passei profissionalmente. Fui também cocuradora da segunda edição do Festival Literário do Museu Judaico de São Paulo, em 2023. Fui editora de livros, editei revista acadêmica, dei aulas, fiz pesquisa, apresentei podcast. Tudo isso aparece na curadoria de alguma forma porque são formas diferentes de se aproximar dos livros. Assim como aparece a minha experiência como mediadora na Flip e, antes disso, como público da Festa.
No que diz respeito especificamente à Megafauna, posso dizer que a preocupação com a bibliodiversidade, que é um pilar importante do projeto da livraria, é algo que levo comigo. Em relação ao festival Poesia no Centro, são experiências muito diferentes. A Flip é um festival que em 2027 completará 25 anos, faz parte do calendário cultural do país, tem formato consolidado. O Poesia no Centro era uma página em branco e foi uma experiência incrível desenhar nessa página, colaborar com o grupo que deu forma a esse jovem festival. Então, acho que uma das maiores contribuições que a minha experiência no Poesia no Centro deu à curadoria da Flip deste ano foi entender como era possível “desenhar” em uma página que vem sendo escrita com enorme sucesso há 24 anos.
Para você, o que mais chama atenção na poesia de Orides Fontela? Como dialoga com a produção contemporânea?
O que me chama atenção na poesia da Orides é a força das imagens que ela cria com tão poucas palavras. É que ela consiga com um número tão pequeno de versos dizer tanto. Além disso, a capacidade que ela teve de transformar o tanto que leu (os modernistas, os concretos, os filósofos) e sua observação do mundo em uma poesia tão singular.
Acho que a Orides dialoga com a produção contemporânea de várias maneiras, mas eu destacaria a concisão, a ideia de, com o mínimo, dizer tanto. Isso não significa dizer que os poetas contemporâneos são necessariamente concisos, mas que todo leitor aplicado de Orides, ao escrever seus versos, vai pensar se não dá para cortar alguma coisa ou mudar uma palavra que resuma as três que usou antes.
Além disso, como gesto político, ao apostar numa poesia não confessional por uma percepção (hoje discutível) de que isso seria associado às mulheres, ao apostar numa poesia que trata dos chamados “grandes assuntos”, Orides ajuda a eliminar os estereótipos de gênero (que ela própria, porém, assimilava) e mostrar que as mulheres podem, afinal, escrever sobre qualquer assunto. O que hoje é uma obviedade, sessenta anos atrás, quando ela escrevia seu primeiro livro, não era.
No Podcast 451 MHZ, da revista QuatroCincoUm, você chama Orides de “uma estranha no ninho”. Por quê? Como essa condição influenciou a produção da autora?
Não me lembro a que situação eu me referia, mas imagino que fosse à classe social de Orides. Ela vinha de uma família pobre, com pais analfabetos, mas que cursou uma boa escola pública e depois se graduou na prestigiosa Universidade de São Paulo. A Orides é um caso de ascensão social pelos estudos e pelo talento literário. Seu livro de estreia, “Transposição” (1969), é muito bem recebido pela crítica, que viu imediatamente a força do que ela escrevia. Na faculdade, aproximou-se de figuras como Marilena Chaui e Olgária Matos. Ela frequentava a livraria e editora Duas Cidades, importante ponto de encontro de intelectuais ao longo de décadas, teve livro publicado por lá. Tornou-se amiga de alguns dos maiores críticos literários do país. Dois de seus livros foram premiados, teve compilação de sua obra feita em vida. Ela era uma poeta reconhecida, frequentava os círculos letrados de São Paulo, compostos em sua maioria por gente com muito mais posses do que ela. Orides se dizia a “poeta proleta”. Queria viver só da sua poesia, mas, como não tinha nascido em berço de ouro, precisava de salário. Então, ela vivia entre dois mundos: o seu de origem e aquele que, adulta, passa a frequentar, mas que nunca sente como verdadeiramente seu.
Agora, é difícil dizer como essa condição influenciou sua obra porque os livros da Orides têm pouquíssimo de biográfico. Sua trajetória, de certa instabilidade emocional e precariedade material, é o oposto da sua poesia, absolutamente organizada.
Tem um poema bonito da Orides chamado “Herança”, que está em “Rosácea”, seu livro de 1986, e diz o seguinte: “Da avó materna:/uma toalha (de batismo).//Do pai:/um martelo/um alicate/uma torquês/duas flautas.//Da mãe:/um pilão/um caldeirão/um lenço”. Este é um dos poucos poemas em que aparece a família, e ela é contada através dos objetos deixados, da materialidade, que, ao mesmo tempo, tudo revela. Então, se quisermos extrapolar um pouco, daria para dizer que, se a origem social de Orides influenciou sua produção, foi ao saber transformar a economia de recursos em tanto. Mas é possível que eu esteja forçando um tanto a interpretação apenas para conseguir te responder.
Qual livro de Orides indicaria a quem não conhece a obra da escritora? Poderia citar um de seus poemas favoritos da autora?
Olha, eu gosto muito dos cinco livros da Orides. Talvez “Teia”, o último livro dela, seja uma boa forma de chegar até a poesia da Orides para quem ainda não a conhece. Mas, se for para indicar apenas um livro dela, eu sugiro o “Rosácea”, que eu citei na resposta anterior, e onde estão poemas como o “Herança” e também este outro bem curtinho, que adoro. Chama-se “Kant (relido)” e diz o seguinte: “Duas coisas admiro: a dura lei/cobrindo-me/ e o estrelado céu/dentro de mim”. Acho que esse poema mostra a força das imagens criadas por Orides e que provocam enorme impacto em seus leitores.
Em uma Flip que homenageia uma poeta brasileira, qual a importância de trazer dois grandes nomes da poesia em língua portuguesa, a angolana Ana Paula Tavares e o português José Tolentino Mendonça? O que marca a obra de cada um deles?
Eu queria que a Flip em homenagem à Orides tivesse poetas de peso. E deu certo. Não só pelos dois nomes internacionais a que você se referiu, mas pela presença dos brasileiros também. E um detalhe curioso: há, entre os autores convidados, vários que vêm falar de seus romances ou livros de contos, mas que têm livros de poesia publicados.
Então, há mais poetas do que se pensa à primeira vista. Sobre Paula Tavares e Tolentino, entendo que são duas presenças que complementarmente retomam Orides em dois aspectos: Tolentino pela espiritualidade (não é segredo que Orides buscava a transcendência, e nem sempre pela filosofia), Paula Tavares por sua poesia em que o feminino está reposto de maneiras variadas. Além disso, são dois enormes poetas que falam português, isso era algo que me interessava também.
Há quatro nomes de Minas na programação principal da Flip. Poderia dizer quais aspectos das obras de Edimilson de Almeida Pereira, Maria Esther Maciel e Flávia Péret a levaram a convidá-los para esta edição? Ainda falando sobre a presença mineira, o que espera da participação da ministra Cármen Lúcia?
Cada um deles virá à Flip por uma razão diferente. Edimilson é, além de um de nossos principais poetas, um homem de enorme erudição, dono de um ouvido atento, alguém do tempo da delicadeza. No fim do ano passado, a Mazza lançou uma caixa com 28 livros seus, e isso é apenas parte do que ele escreveu. A presença do Edimilson não deixa de ser uma homenagem a sua trajetória.
Maria Esther é uma escritora e pesquisadora de imensa sensibilidade. Seu último romance, “Essa coisa viva”, que saiu pela Todavia dois anos atrás, promove algumas rupturas com sua produção anterior e teve destaque muito menor do que merecia, dada a qualidade enorme da obra. Essa é uma Flip que tem algumas mesas em que a família está no centro das conversas e ninguém melhor do que a Esther que, com esse livro, trata de uma relação bastante conturbada entre mãe e filha, para compor uma dessas conversas.
A Flávia escreveu uma beleza de livro sobre Alzheimer, um assunto que tem assombrado muitas famílias, e com um ponto de vista muito cuidadoso ao falar da avó.
Finalmente, o convite à ministra Cármen Lúcia se deve a ela estar lançando um livro sobre democracia e voto. Fez-se a oportunidade perfeita para ouvi-la falar desses assuntos e de outros tantos, como o papel que desempenha sendo a única mulher no STF.
Pelos convidados de não-ficção incluídos na programação principal, quais temas da atualidade estarão em evidência na Flip?
Os temas da atualidade aparecem não só nos livros de não ficção, e isso, posso dizer, foi algo desejado por mim no processo de montagem das mesas da programação. É possível falar de guerras, ditaduras, imigração, autoritarismo, ou de doenças tropicais, de cidades, de feminicídio (e menciono aqui temas que estarão em destaque na programação), também através da ficção. Essa foi uma escolha deliberada. As mesas de não ficção são poucas e falarão de democracia e ascensão da extrema direita. Mas dizer que a Flip destacará esses temas em detrimento dos assuntos tratados nos livros de ficção seria criar um retrato inexato da edição, porque os temas da atualidade estão presentes em todas as mesas.
Você media mesas na Flip desde 2017. Como um mediador pode contribuir para estabelecer o diálogo entre os participantes e deles com o público? E o que não deve fazer?
O mediador tem função central nas mesas. Ele precisa evitar qualquer desejo de protagonismo (a mesa, afinal, não é sobre ele), mas deve saber conduzir a conversa de modo a extrair o melhor dos autores convidados. É fundamental saber se comunicar com o público, dando informações suficientes para que os espectadores possam acompanhar a conversa mesmo se ainda não tiverem lido os livros ali discutidos. Ele precisa se preocupar em facilitar a compreensão do público sem ser condescendente com ele e banalizar a conversa entre os autores, tomando a produção de cada um com a seriedade exigida pela situação e pelo público. Ao mesmo tempo, o mediador precisa saber dosar gravidade e humor, e sobretudo saber a hora de encerrar uma mesa. O melhor elogio que um mediador pode receber é, no momento em que anuncia que a mesa está chegando ao fim, ouvir da plateia um lamento pelo encerramento da conversa. É sinal de que a mesa deu certo. Por outro lado, quando a mesa não dá certo, raramente se atribui a responsabilidade ao curador ou aos escritores, a culpa será sempre do mediador, o que pode ser uma enorme injustiça, mas mostra a importância dessa figura para o sucesso de uma mesa.
Dos livros que leu dos convidados deste ano, há algum em especial que a impressionou e foi decisivo para o convite?
Ah, vários. Só convidei escritores que, de alguma maneira, me impressionaram. Dos que li antes de assumir a Flip, posso citar “Boulder”, da Eva Baltasar, e “O retorno”, do Hisham Matar. Da leva que li por causa da Flip, eu mencionaria “Audição”, da Katie Kitamura, “O aniversário”, do Andrea Bajani, entre outros. Isso foi bem legal na montagem das mesas: li muita coisa a partir da sugestão das editoras, eu não cheguei com a lista pronta (ainda que eu tivesse uma lista prévia). E era um prazer receber sugestões, ler os livros e então, junto ao diretor artístico da Flip, o Mauro Munhoz, decidir pelo convite. A Flip fará 25 anos em 2027. Qual o impacto dela na atividade literária e editorial do país? Acho que o impacto da Flip é enorme. Dá para mencionar sua importância na formação de leitores, no que representa para o mercado editorial, na proliferação de festivais literários desde o seu surgimento. A Flip construiu uma relação sólida de parcerias dentro e fora do Brasil, contribuiu para divulgar autores nacionais e internacionais por aqui. Isso para não falar da importância da Flip na vida de Paraty, com ações que vão muito além dos dias da Festa. A Casa Azul, associação que faz a Flip, está em Paraty o ano todo, em ações urbanísticas, educativas, de toda ordem. Essa é uma parte menos visível da Flip, mas muito importante.
Considera que um nome da literatura mineira pode ser homenageado em uma das próximas edições da Flip?
Impossível ignorar um estado de onde saíram nomes como Pedro Nava, Carolina Maria de Jesus, Murilo Mendes. Como disse o já homenageado Drummond, “Minas há e haverá sempre”.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
MINEIROS EM PARATY
Nomes de Minas no programa principal da 24ª edição da Flip
EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA
- Mesa 2 – “Saber de cor o silêncio”
- Encontro do poeta de Juiz de Fora, que teve sua obra reunida pela editora Mazza em “Poesia & agora”, com o português José Tolentino Mendonça. Mediação de Sofia Mariutti.
- Quinta-feira (23/7), às 10h.
MARIA ESTHER MACIEL
- “Mesa 5 – a infância volta devagarinho”
- Autora de “Essa coisa viva” conversa com o italiano Andrea Bajani, que também lançou romance sobre fissuras irreparáveis em relações familiares: “O aniversário”. Mediação de Anabela Mota Ribeiro.
- Quinta-feira (23/7), às 17h.
FLÁVIA PERET
- Mesa 11 – “Como revelar-te se me revelas?”
- Autora de “Coisas presentes demais” estará em mesa sobre memória e ficção com a argentina Julieta Corrêa (“Por que são tão lindos os cavalos?”) e mediação de Natalia Timerman.
- Sexta-feira (24/7), às 15h.
CÁRMEN LÚCIA
- Mesa 10 – “Estado de sítio, estado de sido, estase”
- Ministra do STF fala sobre o livro recém-lançado “Pela mão do povo – Democracia e voto no Brasil”, com mediação de Paula Miraglia.
- Sexta-feira (24/7), às 13h30
- A ministra também participará da mesa “Literatura e História: Sempre um papo 40 anos, Grande Sertão, 70 anos”, com Conceição Evaristo, Miriam Leitão e mediação de Afonso Borges na Casa Brasil de Histórias no sábado, dia 25, às 15h.
Todas as mesas do programa principal serão transmitidas pelo canal da Flip no YouTube
