Com habilidade e sem clichês, "Ressalga" apresenta saga feminina na Bahia
Uma das atrações da Flip, Bethânia Pires Amaro narra, no primeiro romance, a história de três gerações marcadas por múltiplas violências
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Edma de Góis - Especial para o Estado de Minas
Toda visita ao centro histórico de Salvador, inevitavelmente, incluirá uma passagem pela Rua Chile, desde o encontro com a imagem do poeta Castro Alves, no alto da praça com seu nome, seguindo até a ponta em que se avista o Museu da Misericórdia. A rua, considerada a primeira do país, é o coração de um amplo projeto de requalificação do centro da capital baiana. Em seu avesso, sem badalação nem investimentos e, curiosamente, podendo ser vista de outro ponto turístico, o Elevador Lacerda, está a Ladeira da Montanha. Ela é o principal cenário do romance “Ressalga”, de Bethânia Pires Amaro, um dos nomes da programação principal da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2026. Bethânia estará na mesa “E perdura, apesar”, com a franco-mauriciana Nathacha Appanah (autora de “Trópico da violência” e ganhadora do Femina 2025), na sexta-feira (24/7), às 17h. Ambas escreveram livros que têm mulheres como protagonistas e personagens vítimas de violência.
O primeiro romance de Bethânia Pires Amaro cria uma constelação de personagens e tipos sociais para contar a saga de três gerações de mulheres marcadas por múltiplas violências. Elas atravessam geografias importantes da Bahia, começando pelo sertão do Estado, passando pela cidade de Cachoeira, na cabeceira do Rio Paraguaçu, cujas quedas lhe rendeu o nome ainda no fim do século 17, e chegando à capital. Em “Ressalga” cruzam-se os destinos da avó Janaína, expulsa de sua cidade após um escândalo envolvendo o pároco da região, a mãe Graça, metamorfoseada em diferentes nomes até se tornar a lendária dona de bordel Graça Preta, e Flora, a narradora em busca do paradeiro de sua mãe, cujo desaparecimento encontra outro mistério, a andarilha Mulher de Roxo, figura mítica da cultura soteropolitana, que por mais de trinta anos foi vista na rua Chile sem que sua verdadeira identidade fosse conhecida.
A ficção ganha musculatura exatamente quando os fios da história e dos mitos locais se entrelaçam, remontando passagens importantes da história do Brasil, porém ajustadas pelas lentes da Bahia: a realidade das profissionais do sexo da primeira para a segunda metade do século 20, as grandes enchentes que quase apagavam cidades inteiras como Cachoeira nas décadas de 1940 e 1950, e a ditadura civil-militar e o cenário artístico dos anos de 1970. As passagens que flertam com o realismo mágico, procedimento que aliás tem sido bastante utilizado por autoras contemporâneas da América Latina, evidenciam o desejo da autora de construir personagens mulheres marcadas por violências em razão de gênero, raça e classe, aproximando-as, dado o contexto, de figuras conhecidas na Bahia e no país. Assim, na narrativa encontra-se uma mulher cujos ossos são enfraquecidos por banhos, outra traz uma perna animal, alusões ao governador da Bahia por três vezes, Antônio Carlos Magalhaes, ao ex-presidente Getúlio Vargas e a artistas famosos do carnaval baiano como Dodô e Osmar, criadores do trio elétrico, o cineasta Glauber Rocha, além é claro de cantores e escritores do repertório nacional.
Desde “O ninho” (2023), livro de contos vencedor dos prêmios Jabuti, APCA e Sesc, Bethânia Pires Amaro tem dado provas de sua habilidade narrativa, seja na escolha das vozes, na manufatura de muitos personagens, e na pontuação, o que inclui parágrafos finalizados por vírgulas e outros longuíssimos, às vezes, de página inteira, assumindo a posição de contadora de causos que não dá ao leitor sequer tempo para respirar. Tudo no texto funciona como dispositivo para a leitura. O romance se ocupa da dicção baiana e de elementos da cultura da região, sem, contudo, deixar-se cair na estereotipia ou num regionalismo artificial. Também evita qualquer esforço para fazer das personagens modelos exemplares de quem oprime e é oprimida. Assim, a temática da maternidade, espinha dorsal dos contos de “O ninho”, e que reaparece com fôlego em “Ressalga”, rejeita vitimismo e redenção para mães ou filhas. Qualquer lembrança dos vagabundos e das putas de Jorge Amado, uma vez que o livro ocupa ruas e quartos de bordeis, a intimidade das prostitutas com homens ilustres, vale a atenção redobrada do leitor. Bethânia reconhece a tradição, mas não a replica. Em vez disso, muda a posição, aponta a câmera para personagens mulheres e entrega o artefato nas mãos de uma delas, a narradora, porque são essas personagens capazes de criar um novo ângulo de observação das violências perpetradas pelo machismo.
Um dos territórios mais cantados na música popular brasileira, a Bahia de Dorival Caymmi é vista agora como uma presença crescente na literatura, notadamente a partir de Salvador. “Ressalga” compõe a lista da nova safra de livros ambientados na capital baiana, como a novela “Ladeira da Preguiça” (2025), de Evanilton Gonçalves, que já ocupou a música de Gilberto Gil, “Coração sem medo” (2025), de Itamar Vieira Junior, em que se vê a Cidade Baixa, e do recém-lançado “Vapor de dendê não tem cor” (2026), de Lara Tironi, também ambientado na capital, para citar apenas os títulos publicados por editoras como Todavia e Patuá.
Na reta final do livro, a narradora Flora justifica a origem marítima do título, “o cheiro do vento que sopra de dentro do oceano, carregando consigo um frescor difícil de explicar”, mas a essa altura o romance já é do leitor, então é possível pensar também que o substantivo “ressalga” vira verbo no movimento da autora, ao reatualizar histórias de possíveis maternidades em condições sociais adversas. É também, no plano narrativo, a ressalga das personagens centrais da saga em relação aos padrões de violências as quais são submetidas cotidianamente, o que por vezes pode ser entendido pelas personagens como sina, destino e não resultado das estruturas sociais. Por fim, talvez possa ser a ressalga de uma imagem de Bahia, refeita pelas mãos dos escritores contemporâneos e mostrando os muitos territórios que a ocupam, o que aliás serve de espelho para se pensar todas as regiões do Brasil.
“Ressalga”
De Bethânia Pires Amaro
Editora Record
221 páginas
R$ 62,90
EDMA DE GÓIS é professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB) e jornalista. Coordena o projeto de pesquisa ‘Elas reescrevem o Nordeste: autoria de mulheres e imaginários para o país’.
Trecho
“Tudo passa. E ainda assim, ao lado daqueles prédios maltratados, segue o movimento interminável de ônibus, roncando ao trocar das marchas, o zunido dos carros e as cores dos varais pendurados nas janelas, esquecidos todo o esplendor e todo segredo guardado por trás das portas, esquecidas também as histórias de quem viveu ali, as tantas histórias de minha mãe, a Sherazade da Montanha. Um ambulante passa por mim, vindo do Elevador, pergunto se conheceu a Mulher de Roxo, ele faz que não sem interromper a marcha, das ausências não se fala mais, é como se não existissem. A Montanha fantasmagórica, uma rua desaparecida, toco suas paredes com a impressão de que se esfarelam debaixo dos meus dedos, de que é curta demais a memória de uma cidade.”
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