O escritor e jornalista pernambucano Raimundo Carrero morreu na madrugada desta terça-feira (16/6) no Recife, aos 78 anos. A família informou que a morte de um dos principais nomes da literatura brasileira foi em decorrência de um câncer.

“Ao longo de sua vida, Raimundo dedicou-se à literatura com paixão, sensibilidade e compromisso, construindo uma obra que marcou gerações de leitores e contribuiu de forma significativa para a cultura pernambucana e brasileira”, afirmou a família, em comunicado divulgado nas redes sociais do autor.

O autor inscreveu seu nome na literatura brasileira com livros como “As sombrias ruínas da alma”, vencedor do Prêmio Jabuti em 1999, e “A minha alma é irmã de Deus”, ganhador dos Prêmios APCA, Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional.

Em 2018, a editora Cepe lançou a edição definitiva de “Condenados à vida”, tetralogia formada pelos livros “Maçã agreste” (1989), “Somos pedras que se consomem” (1995), “O amor não tem bons sentimentos” (2008) e “Tangolomango” (2013). Definida pelo autor como "uma longa e corrosiva crítica social à elite nordestina em absoluta decadência”, a tetralogia tem mais de 700 páginas. A edição ganhou prefácio do crítico e escritor José Castello, um dos admiradores da obra de Carrero.

O velório de Carrero será realizado na Academia Pernambucana de Letras, da qual era integrante desde 2004. Em nota, a Academia lembrou que Carrero morreu no mesmo dia em que o mestre e amigo Ariano Suassuna completaria 99 anos. “Ele foi um dos mais importantes escritores de sua geração”, ressaltou o comunicado.

Nota de pesar pela morte do escritor Raimundo Carrero

Academia Pernambucana de Letras

Apaixonado pela escrita, Carrero ministrava oficinas literárias e sempre compartilhava suas convicções sobre a literatura com os colegas escritores e leitores.

“Para escrever, você tem que ler muito e aprender a pensar. Leitura e pensamento resultam em bons textos. Leitor é muito importante, mas não vale se preocupar com o que o pai e mãe vai ler. O que vale é se jogar no texto e escrever o que quer”, declarou Raimundo Carrero, em entrevista ao Jornal do Commercio. “Literatura, para mim, é descobrir o que está entre a pele e o suor.”

O jornalismo e a “Perna Cabeluda”

Nascido em dezembro de 1947 na cidade de Salgueiro, no sertão pernambucano, Carrero viveu no Recife, onde fez carreira como jornalista. No Diario de Pernambuco, onde começou a trabalhar em 1969, foi crítico literário e editor. “Em 1975, ao ouvir uma história de uma mulher que havia sido atacada por uma perna cabeluda em São Lourenço da Mata, Carrero teve a inspiração para escrever o que se tornaria uma das lendas urbanas mais conhecidas do Recife, que ganhou as telas de cinema recentemente com o filme 'O agente secreto’”, lembrou o jornal pernambucano, ao publicar na manhã de terça-feira (16/6) a notícia da morte de Carrero.

O autor havia retomado recentemente a colaboração com o Diário de Pernambuco por meio da Coluna Diário Cultural, publicada no caderno Viver nas edições de fim de semana: “Estou muito feliz com essa coluna, bastante entusiasmado para compartilhar várias ideias com o leitor. Minha história no Diário é gigantesca, tanto de presença quanto de ausência. Posso dizer, sem vaidade nenhuma, que será um retorno triunfal”, afirmou no último mês de abril.

Em uma das últimas colunas, a partir da criação da Biblioteca Virtual do Governo Federal (“decisão revolucionária, porque altera completamente o hábito da leitura no Brasil”), contou que recebia muitas mensagens com a indagação: a literatura está morrendo? E assim respondeu: “Livros e literatura estão bem vivos… Em veículos diferentes, é verdade, mas vivos. Menos papel… E mais tecnologia”, pontuou.
Na mesma coluna, publicada em 25 de abril, Raimundo Carrero afirmou: “Viva, complexa e diversa, a literatura brasileira sempre seduziu um número inacreditável de leitores e de movimentos literários de profunda influência social, política e cultural.” E reafirmou a sua paixão pela literatura, “amor incontrolável que me faz viver horas e horas diante de um livro, ou mais, que me faz escrever histórias numa sequência de quase um livro por ano.”

As informações detalhadas sobre o velório e sepultamento do escritor ainda não foram divulgadas pela família.

Depoimento

Marcelino Freire, escritor

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A notícia chegou de manhãzinha. Assim que acordei nessa terça, 16 de junho. E estou ainda aqui, ao dar esse depoimento por escrito, via celular, sonado e abalado. Revirando e cutucando memórias... ave nossa! Conheci Carrero aos 19 anos. Na primeira oficina literária da qual eu participava. Meu eterno mestre. Carrero me ensinou a ler. Levou-me, com fervor, às entrelinhas de um texto, às sub-sombras de uma obra. Quanta paixão pela palavra, esparramada pelo seu corpo inteiro! Seus gestos largos eram de profunda devoção ao ofício da escrita. Quanta fé plantava em seus livros! Carrero era a verdadeira imagem de um escritor comprometido e apaixonado. Ele era grato à literatura por ter o salvado. Ele transmitia a nós esse legado. Tudo o que hoje eu sou tem Raimundo Carrero nessa construção. Esteve e estará sempre  em cada livro meu. Em cada leitura também estará a força de sua presença. Vai ser difícil (foi difícil) me levantar depois de notícia tão triste. Mas farei como ele: fincarei o pé na teimosia que é viver, que é escrever. Mas me erguerei, apesar de não ser fácil, assim, perder um amigo que escreveu livros tão definitivos: "Sombra Severa" e o mais recente "A Vida É Traição". Doído perder um amigo que me ajudou a ser e a escrever meus livros. Carrero morre no dia em que seu mestre maior, Ariano Suassuna, faria aniversário. Hoje Carrero foi recebido pelo abraço do Ariano e o abraço da Compadecida. Carrero foi um milagre que nos aconteceu. Ficam a saudade e a sua eterna luz em nossas vidas.

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