Há muito tempo, nas águas atlânticas do Brasil, apareceram corsários franceses que não eram nada além de piratas, nos mares, com autorização de sua Coroa. Entre os séculos 17 e 18, foram eles, ao lado dos navios e navegadores ingleses, os que mais frequentaram a costa da então colônia de Portugal. Essa e outras histórias, com relatos inéditos, estão presentes no livro “Navegantes franceses no Brasil Colônia: relatos de viagem, 1615–1767” (Chão Editora), organizado por Jean Marcel Carvalho França, escritor, professor titular de História do Brasil da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e membro da Academia Portuguesa de História. 

A obra traz 14 impressões de viagem, nenhuma delas, até agora, editada em língua portuguesa – e a maioria, 10, nem mesmo no idioma original, o francês. Segundo Jean Marcel, um texto foi publicado em 1615 e contou com uma reedição obscura no século 19, “dificílima de ser encontrada”, e três restantes foram transcritos e publicados há alguns anos. “Em português, são todos inéditos”. 

O organizador do livro informa que há centenas de diários de bordo, desse período, nos arquivos europeus, “diários que, num tempo em que a oferta desse tipo de escrito era enorme, sobretudo na França, Holanda e Inglaterra, foram condenados ao esquecimento”. Recentemente, ele encontrou um roteiro escrito, em 1711, por um corsário francês, de toda a costa atlântica da América do Sul – do Cabo de Santo Agostinho (Pernambuco) ao Cabo Horn (extremo Sul da América do Sul). “O manuscrito jazia, esquecido, na Academia de Ciências de Lisboa – deve ser publicado em breve. Há muita coisa do gênero para ser resgatada.” 

Ao longo de “Navegantes franceses”, o leitor vai conhecer o relato de Thomas de Lastre, pertencente ao século 17, e outros da segunda metade do século 18 sobre a viagem de circumnavegação capitaneada, em 1767, por Louis Antoine de Bougainville, que contou com uma ancoragem no Rio de Janeiro. A maioria, no entanto, foi redigida entre 1698 e 1720, período em que a Marinha francesa se esforçava para levar o comércio e o corso – a pirataria autorizada pela Coroa – aos ricos portos espanhóis do Mar do Sul, no Oceano Pacífico, percorrendo uma rota que previa ao menos uma passagem pela costa brasileira para reabastecer. 

Os pontos mais visitados eram o Rio de Janeiro e a Ilha Grande (RJ), que padeceu com os ataques corsários, antes de eles seguirem viagem até o Cabo Horn e daí para os cobiçados portos chilenos e peruanos. 

POVO DO LUGAR 

Como será que os estrangeiros viam o povo da colônia portuguesa na América? Nos textos, há observações sobre pessoas e lugares vistos na costa brasileira. Enquanto alguns se dedicavam a narrar a pirataria praticada, especialmente na Ilha Grande, outros destacavam fortes e fortalezas que guardavam os portos visitados. Há ainda aqueles que reclamavam dos governantes locais e da recepção pouco amável que as embarcações em que viajavam tinham nos portos brasileiros. 

Os franceses não pouparam críticas aos colonizadores e costumes locais. “O Brasil é habitado por portugueses, um povo muito dado ao prazer, extremamente preguiçoso, arrogante e ciumento. Os únicos serviçais de que dispõem são escravos negros, aos quais tratam pior do que aos cães, e sempre que se dirigem a eles é a porretadas. As mulheres também vivem na escravidão, não desfrutando de nenhuma liberdade; se um amigo do marido visita a casa, a esposa desaparece.”

ENTREVISTA

Jean Marcel Carvalho França 

Escritor, professor e membro da Academia Portuguesa de História 

“Não tínhamos muitos testemunhos da atividade corsária francesa na costa do Rio de Janeiro”

Como surgiu a ideia de escrever sobre os navegantes franceses no Brasil Colônia? 

“Navegantes franceses” é o último – pelo menos, por enquanto – de mais de uma dezena de livros que publiquei, ao longo das últimas duas, três décadas, dando a conhecer narrativas de viagem que mencionam o Brasil dos séculos 16, 17 e 18. Creio que totalizam quase uma centena de relatos traduzidos e editados. Os 14 contidos neste livro são antigos conhecidos meus, todavia, o fato de a maioria ser composta por manuscritos de difícil leitura e transcrição fez com que eu adiasse por anos a empreitada de traduzi-los e editálos. A ideia, pois, é antiga e surgiu ao longo do levantamento e tradução de outros relatos. 

Conte-nos, por favor, como se deu a pesquisa para organizar a obra. Como o senhor encontrou os textos agora publicados? 

O fato de conhecer os relatos – já ter lido menções à existência deles em estudos, catálogos bibliográficos e bancos de dados de arquivos – tornou as coisas mais simples. Quanto montei a estrutura inicial da obra, tinha cerca de 20 títulos de narrativas que provavelmente mencionariam a costa brasileira. De posse dessa lista inicial, da qual saíram as 14 do livro, tratei de localizá-los na internet; alguns deles, tive de obter pessoalmente, a maioria, no entanto, uma vez localizada, pôde ser obtida do conforto da minha casa. O prefácio traz um pequeno mapa dos caminhos que utilizei na pesquisa. 

São textos inéditos? Por que permaneceram tanto tempo sem conhecimento público? 

A maioria deles, dez, é inédita mesmo em francês: um foi publicado em 1615 e contou com uma reedição obscura no século 19, dificílima de ser encontrada, e as três restantes, relativas à viagem de Bougainville, foram transcritas e publicadas há alguns anos. Em língua portuguesa, são todas inéditas. Há centenas de diários de bordo desse período nos arquivos europeus, diários que, num tempo em que a oferta desse tipo de escrito era enorme, sobretudo na França, Holanda e Inglaterra, foram condenados ao esquecimento. Recentemente, encontrei um roteiro escrito por um corsário francês, em 1711, de toda a costa atlântica da América do Sul – do Cabo de Santo Agostinho ao Cabo Horn –, o manuscrito jazia, esquecido, na Academia de Ciências de Lisboa – deve ser publicado em breve. Há muita coisa do gênero para ser resgatada. 

Onde foi mais forte a presença dos franceses? 

O Rio de Janeiro e suas imediações (Cabo Frio e Ilha Grande, sobretudo) consistem, sem dúvida, no local mais frequentado pelos navegadores franceses ao longo dos séculos 17 e 18. E isso apesar da hostilidade que passaram a enfrentar por parte das autoridades e das populações da região depois do ataque do corsário francês René Duguay-Trouin, em 1711. 

O que não sabemos – e conhecemos neste livro – sobre a presença dos franceses no Brasil entre os séculos 17 e 18? 

Para além de um conjunto variado de perspectivas do Brasil e de suas gentes, creio que o mais curioso do livro é contar um pouco da atividade corsária – são piratas com carta de corso, com autorização de sua coroa – francesa na costa do Rio de Janeiro, sobre a qual não tínhamos muitos testemunhos. 

O senhor explica que os navios e navegadores franceses foram, ao lado dos ingleses, os que mais frequentaram a costa brasileira naquela época. Por quê? 

Para entendermos melhor, são todos corsários ou piratas, certo? A maioria é de corsários (piratas com carta de corso), mas o raciocínio é extensivo a todos os visitantes que andaram pelas costas e pelos portos brasileiros. A maioria esmagadora pertence às nações que dominavam os mares e o que dizia sobre os mares de então: Inglaterra, Holanda e, mais modestamente, França. Obviamente, os espanhóis, também andaram pelos portos brasileiros, mas não deixaram muitos registros. Os outros mencionados, ao contrário, foram grandes editores e divulgadores do gênero “narrativas de viagem”. 

Qual a impressão dos franceses sobre o Brasil Colônia? 

Em linhas gerais, o estrangeiro, por algumas razões que demandariam mais tempo para serem explicadas, tem uma opinião bastante repetitiva sobre a América portuguesa: tratava-se de uma terra prodigiosa e plena de potencialidades que, lamentavelmente, caíra nas mãos de um povo pouco obreiro, de sangue mais e mais misturado e de hábitos na sua maioria condenáveis, um povo que caminhava a passos muito lentos rumo à civilização, isto é, rumo a um modo europeu de se viver. 

É possível saber o inverso, ou como eram vistos pelos nativos e portugueses? 

Infelizmente, não. Não existe documentação para tal. É possível mapear como o colono vê a si próprio; tentei fazer isso num livro recente, intitulado “O Rio de Janeiro em língua portuguesa (1561-1808)”(Edufscar, 2024). Quanto à recepção que deram os brasileiros, melhor, uma intelectualidade que se reconhece como brasileira, às narrativas de estrangeiros sobre o Brasil, ela só vai aparecer no século 19. Fiz o mapeamento e análise dessa recepção num livro que está para ser publicado, “A caminho da civilização (1808-1915)”. 

Alguma passagem dos diários e registros o surpreendeu? 

A essa altura, depois de tantas traduções, já me acostumei com o modo de pensar e de se exprimir dos visitantes do período. Mas ainda encontro passagens curiosas, como a relativa ao assassinato do capelão da frota de Bougainville, envolvido em bebedeiras e intrigas amorosas. Ou a longa descrição da vida social pouco cristã do Rio de Janeiro, deixada pelo senhor Du Plessis. 

TRECHOS DO LIVRO 

“O Brasil é habitado por portugueses, um povo muito dado ao prazer, extremamente preguiçoso, arrogante e ciumento. Os únicos serviçais de que dispõem são escravos negros, aos quais tratam pior do que aos cães, e sempre que se dirigem a eles é a porretadas. As mulheres também vivem na escravidão, não desfrutando de nenhuma liberdade; se um amigo do marido visita a casa, a esposa desaparece. Os homens, desde jovens, são viciados em mulheres e, a partir do momento em que saem da concha, são compelidos a ter um caso de amor (...). As mulheres, por sua vez, são astutas e sabem como se vingar da infidelidade de seus maridos; pode-se mesmo dizer que não há na cidade uma única que não esteja metida em alguma intriga amorosa [...].” 

Outro oficial do Phelypeaux 

“Durante a nossa arribada, vimos um navio desembarcar duzentos negros vivos, entre homens e mulheres, e quase uma centena de cadáveres dos que morreram no mar de doença ou de tristeza. [...]. Todos foram levados para um grande armazém, onde são expostos, tal como num mercado, aos olhares daqueles que os querem comprar [...]. Os comerciantes costumam dar quinze dias de garantia em razão de uma doença a que estão sujeitos os recém-desembarcados, um inchaço que atinge as pernas e os dedos dos pés e que, muitas vezes, leva à morte em um dia. A causa do mal, mais do que qualquer outra coisa, é a tristeza.” 

Sr. Duplessis

“NAVEGANTES FRANCESES NO BRASIL COLÔNIA: RELATOS DE VIAGEM, 1615-1767”

Organização e posfácio: Jean Marcel Carvalho França

Chão Editora

232 páginas

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