O que o menino Joãozito imaginou, Guimarães Rosa, já escritor e diplomata, vivendo mais na Europa do que no Brasil, pôde ver bem de perto. Em 1952, conforme mostrado na reportagem “Um escritor entre seus personagens”, da extinta revista “O Cruzeiro”(edição de 21/6/52), ele partiu do Rio de Janeiro (RJ), onde morava, com destino ao Rio São Francisco. O objetivo era acompanhar uma boiada, pelo percurso de 40 léguas (cerca de 240 quilômetros), do distrito de Andrequicé, em Três Marias, até a Fazenda São Francisco, em Araçaí, cidade vizinha a Cordisburgo.
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Além de Guimarães Rosa, fizeram parte Manuelzão (capataz), Santana (vaqueiro mestre), o “guieiro” Zito, poeta e laçador, Sebastião de Morais, “olhando boi a vida inteira”, conforme anotou o jornalista Álvares da Silva, na legenda da foto de Eugênio H. Silva, e Chico Moreira, dona da boiada.
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Terá sido essa viagem fundamental para a criação de “Grande sertão: veredas”? Quem responde é o jornalista e historiador Leonencio Nossa, autor da recém-lançado “João Guimarães Rosa – Biografia”. Ele pesquisou vida e obra de Guimarães Rosa durante 20 anos. “As viagens de Rosa à região Central de Minas, em 1945, e ao Pantanal, dois anos depois, talvez tenham sido mais decisivas para a estrutura da obra. A primeira excursão ao interior mineiro com o amigo Pedro Moreira Barbosa, logo após a Segunda Guerra, foi um divisor de águas, com a fixação das veredas no romance e também nas novelas de ‘Corpo de baile’. A viagem de 1952, por sua vez, não rendeu tantos subsídios, embora tenha contribuído com registros de tipos humanos, plantas e bichos.”
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Leonencio explica que a reportagem entrou para o imaginário do meio literário devido à divulgação em “O Cruzeiro”. Quando a revista foi publicada, ele diz, o “Grande sertão” e as novelas de “Corpo de baile” estavam em preparação havia tempo. “Percebe-se que nos anos 1970 e 1980 a publicidade e o jornalismo supervalorizaram essa viagem.”
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A princípio, o “Grande sertão” era uma das novelas de “Corpo de baile”, obra de dois tomos que Guimarães Rosa preparava no tempo em que vivia em Paris, no pós-guerra. “Mas, no decorrer da escrita, ganhou forma independente, virou um romance. As primeiras menções ao ‘Grande sertão’são de 1949. O romance reúne memórias e descrições, em especial, do interior de Minas, do Pantanal e de Belo Horizonte, onde viveu a juventude. A capital mineira teve forte impacto na construção das bases do romance, ambientado fora dela, no sertão. Talvez seja a menos lembrada das ‘cidades rosianas’”.
