Cordisburgo – Da janela de casa, o menino vê o mundo. Se ficar na ponta dos pés, aprumando o corpo e segurando no parapeito, vai enxergar mais longe, tão longe que os olhos vão encontrar o horizonte – e parece ser esse o objetivo. Em seguida, na porta da venda de secos e molhados do pai, seu Fulô, o panorama se amplia e ganha movimento: no compasso da boiada tocada pelos vaqueiros, em sucessivos apitos do trem rumo à capital, na pisada em falso do homem de chapéu, no cachorro dono do território.
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Na casa onde João Guimarães Rosa viveu na infância, hoje Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, o repórter imagina a cena: o menino vislumbrando seu caminho. Ele descobre seu ofício. Aos 9 anos, Joãozito deixará em breve a cidade natal, no interior de Minas, distante 130 quilômetros de Belo Horizonte. Levará junto com a bagagem da família as lembranças dos verdes anos que futuramente, associados às vivências urbanas, estudos e descobertas, marcarão a genialidade do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967). Vai fazer história, escrever estórias que se tornarão expoentes da literatura brasileira, conquistar brasileiros e estrangeiros.
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Com tantas imagens na memória, só mesmo Guimarães Rosa poderia afirmar que “o sertão é do tamanho do mundo”, e “os olhos da gente não têm fim”. No devido tempo, cavalgando Brasil adentro e iluminado pelas conversas que teve com vaqueiros e seu Fulô, na venda de secos e molhados, mostrará ao mundo as entranhas do sertão. Terras irrigadas com o frescor das veredas, reminiscências particulares e relatos que os ventos não tiveram força para levar. Nas décadas de 1940 e 1950, fez viagens pelo interior que lhe deram elementos para os livros.
PORTA DE ENTRADA
Para quem ainda não leu “Grande sertão: veredas” e outros livros do escritor, a visita a Cordisburgo é ótima porta de entrada, e o Museu Casa Guimarães Rosa, excelente oportunidade para conhecer o filho mais velho, de seis irmãos, de Florduardo Pinto Rosa, o seu Fulô, e dona Francisca Guimarães Rosa. “É também como passar por um portal para entender melhor a trajetória do escritor, que foi também médico, diplomata e atuou como voluntário na Força Pública (atual Polícia Militar de Minas Gerais), sendo capitão-médico”, conta Ronaldo Oliveira, coordenador do espaço integrante da rede de equipamentos culturais sob gestão da Secult-MG.
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Ficaram dos tempos do menino Joãozito o fogão a lenha e o piso tabuado. No local onde a família cozinhava, há um painel com um trecho da novela “Buriti”, do livro “Corpo de baile”, de 1956: “Por tudo, eram fogueiras de se cozinhar, fumaça de alecrim, panela em gancho de mariquita, e cheiro bom de carne no espeto, torrada se assando, e batatas e mandiocas sempre quentes no soborralho”.
O aconchego preenche toda a casa de nove cômodos que, juntamente com o quintal, tem 272,7 metros quadrados. Depois da cozinha, a equipe do EM vai ao antigo quarto dos pais, com mobiliário, objetos e vestuário que pertenceram ao escritor. A frase que ilustra o ambiente é “Já fui mesmo rosa. Não pude ser mais tempo, ninguém pode. Estou na desflor”, de “A estória de Lélio e Lina”, em “Urubuquaquá, no Pinhém”, da obra “Corpo de baile”.
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O próximo impacto visual está na máquina de escrever usada por Guimarães Rosa. Sobre ela, há textos originais (ampliados em cartazes) com as correções feitas por ele. O visitante pode ainda acompanhar, no mapa, localidades citadas nas obras literárias e contemplar mais de 200 peças e 1,2 mil documentos, entre certidões, correspondências, discursos e originais manuscritos ou datilografados, bem como fotografias. Os olhos não se cansam de ver, de pertinho, pedaços da história que fascinam em palavras e criatividade.
Aos interessados em pesquisas, vale saber que os originais das obras de Guimarães Rosa se encontram sob a guarda do Arquivo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da Universidade de São Paulo (USP). Ainda segundo a assessoria da instituição de ensino superior, os livros e periódicos impressos que compunham a biblioteca do escritor são de responsabilidade da Biblioteca do IEB.
Entre as preciosidades expostas no Museu Casa Guimarães Rosa, em Cordisburgo, se encontra trecho do discurso proferido pelo escritor na sua posse na Academia Brasileira de Letras (ABL), em 16 de novembro de 1967. A cidade natal foi enaltecida; as palavras encantaram a plateia.
“Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das Fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais de estrelas, falava-se antes: ‘Os pastos da Vista Alegre’. Santo, um ‘Padre Mestre’, o Padre João de Santo Antônio, que recorria atarefado a região como missionário voluntário, além de trazer ao raro povo das grotas toda sorte de assistência e ajuda, esbarrou ali, para realumbrar-se e conceber o que tenha talvez sido seu único gesto desengajado, gratuito. Tomando da inspiração da paisagem a ‘loci opportunitas’, declarou-se a erguer ao Sagrado Coração de Jesus um templo naquele mistério geográfico. Fê-lo e fez-se o arraial, a que o fundador chamou ‘O Burgo do Coração’. Só quase coração – pois onde chuva e sol e o claro do ar e o enquadro cedo revelam ser o espaço do mundo primeiro que tudo aberto ao supra-ordenado: influem, quando menos, uma noção mágica do universo.”
No museu, há também cópia de carta datada de 6 de novembro de 1945, do Rio de Janeiro, do escritor para seu pai, demonstrando o desejo de visitar Belo Horizonte e Cordisburgo. Estão ainda em exposição as primeiras edições das obras do autor, com destaque para “Grande sertão: veredas”, com a dedicatória de Guimarães Rosa a seus pais.
Em visita à Casa Museu, a guia de turismo Tânia Assunção, de Belo Horizonte, destacou a importância do equipamento cultural para professores e estudantes. “Trabalho com turismo pedagógico, e vejo a Casa Museu como muito importante para programas que levam a sala de aula a outros locais”, afirmou Tânia, ao lado do também guia de turismo João Pedro Paim. “No nosso trabalho, estamos sempre aprendendo”, disse ele.
EM MOVIMENTO
Já onde havia a venda de secos e molhados de seu Fulô, Ronaldo Oliveira explica que, no espaço, o escritor ouviu muitas histórias, conviveu com vaqueiros e deu asas à imaginação para criar contos e romances. “Acredito que, nesta casa e nesta cidade, João Guimarães Rosa acendeu a centelha que irradiaria, ao longo da vida literária, a luz da criatividade.” Certo de que se trata de um ambiente profundamente vivo, Ronaldo conta que o museu foi inaugurado em 30 de março de 1974, “com uma cerimônia que reuniu uma multidão”. Na data, o então presidente da ABL, Austregésilo de Athayde (1898- 1993), e a filha de Guimarães Rosa, Vilma Guimarães Rosa Reeves (1931- 2022), estiveram presentes.
Agora, olhando a paisagem pela janela, Ronaldo observa que o menino Joãozito via dali a passagem do trem, o transporte que, um dia, levou a família para sempre de Cordisburgo. No âmbito pessoal, há forte conexão entre a obra literária e a vida dos moradores da cidade. “Foi aqui que eu, ainda adolescente, despertei para a cultura e a literatura rosiana. O museu é minha segunda casa, fez parte da minha formação intelectual, como educador e cidadão.”
Ele destaca a boa relação do museu com a cidade: “Em 1996, quando a doutora Calina Guimarães, prima de Guimarães Rosa, cria o Grupo Miguilim, a conexão ficou ainda mais forte”. O grupo é coordenado por Dôra Guimarães, Elisa Almeida e Fábio Barbosa.
PIA BATISMAL
A jornada pelas origens de Guimarães Rosa passa pelo Santuário do Sagrado Coração de Jesus, onde se encontra, perto do altar, a pia batismal na qual ele recebeu o primeiro sacramento – talhada em pedra calcária retirada da famosa Gruta do Maquiné. A Diocese de Sete Lagoas, à qual está vinculado o templo, informa que a pia continua sendo usada nas cerimônias de batismo. Em alguns momentos, fiéis acendem velas no interior para o santo de devoção – e os olhos do repórter viram o lume.
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Na cidade em que estabelecimentos comerciais são “batizados”com nomes de livros e contos do filho ilustre, vale fazer fotos e selfies no Portal Grande Sertão, inaugurado em 2010, criado e executado pelo escultor Leo Santana. Localizado na Praça Miguilim, o monumento traz a representação de figuras humanas, incluindo Guimarães Rosa, esculpidas em bronze. São seis vaqueiros, vestidos à moda sertaneja e montados a cavalo. De pé, o escritor saúda os sertanejos. A cena, emoldurada por um pórtico de chapa de aço, tem ainda um cachorro, animal sempre presente na obra do autor mineiro.
