Conexão entre literatura e crítica cultural, a revista Ouriço chega ao quarto número com lançamento marcado para 31 de março, na Livraria da Travessa de Botafogo, no Rio de Janeiro, reunindo poesia, ensaio e artes visuais em uma proposta de circulação entre linguagens. Em Belo Horizonte, o lançamento será no dia 9 de maio, na Quixote.

Coeditada pelas editoras Relicário e Macondo, com Ana Martins Marques, Daniel Arelli e Gustavo Silveira Ribeiro como editores, a publicação tem a respiração como eixo temático e imagem central. A inspiração veio do “Respirar o ar sujo de tudo”, último verso do último poema de “A regra secreta”, de Sebastião Uchoa Leite (1935-2003). “É um verso simultaneamente sujo e solar, movimento para fora, saída para o sol e para a sujeira do mundo”, afirmam os editores. 

Eles destacam a relação da poesia de Uchoa Leite com a experiência da doença. “O verso ‘respirar o ar sujo de tudo’ remete a uma outra experiência: aquela do sujeito que, tendo atravessado a doença, encarado a plena consciência do próprio corpo e seus limites que a doença desencadeia, movimenta-se para fora, para o exterior, reafirmando sua conexão com o mundo e a vida”, ressaltam.

O volume reúne autores de diferentes gerações e origens, como Adriana Lisboa, Angélica Freitas, Veronica Stigger, John Berger e Anne Carson, entre outros. A diversidade de colaboradores é um dos traços da publicação, que busca aproximar nomes consolidados e novas vozes.

Coeditor da revista, Gustavo Silveira Ribeiro afirma que a proposta é desacelerar o ritmo de circulação e leitura. “Propomos o tempo da leitura atenta e do encontro”, diz. A edição também mantém o investimento no projeto gráfico, pensado como parte da experiência de leitura.

Poemas selecionados 

Angélica Freitas

“Ilusão n. 81”

Um livro de grande luminosidade, você

só consegue abrir uma fresta, ele já te

cega, uma luz que sai e parece faca, vem

e vem pra dentro da córnea. Vai ter que

ler assim, uma ou outra palavra, segurar

uma radiografia como anteparo a este

magnífico evento solar. Somente os bem

cegos poderão nos explicar tudo o que

existe lá dentro, voltaremos às rondas de

leitura com óculos escuros ao redor da

fogueira. Mais uma vitória da literatura.

*

Danila Gonzaga

“Fronteiriça”

Atravessar em vão

a cortina metalúrgica

que me cerca

acompanhar com as mãos

o espaço no abraçar

dos dias corriqueiros

em que a água escorre: das folhas,

do chão, nas frestas

do globo ocular quando penso

e pensar é já estar

em par com o desejo

e com as fronteiras

que busco

colocar quando me deparo

com o profundo

descuido das feridas abertas

pela travessia que forço

na rasura do mundo.

*

Júlia de Souza

“Raposa, MA”

Mulheres sobre palafitas

palafitas sob mulheres;

a rampa na entrada da casa

a renda que os dedos difundem

sondando a almofada

com alfinetes que criam países,

ilhas, um novo atlas;

mulheres perto do mar, longe o bastante

do mar;

mãos crispadas

no alto, no vento

o couro batido

dos dedos que não pescam

não se deixam pescar.

*

Mônica de Aquino

“Você arranca uma pequena flor”

Você arranca uma pequena flor

presente súbito que traz todos os dias

para nós

flor-quase-mato, flor-quase-esquecimento

viveria talvez algumas semanas

pendendo sobre a calçada

flor que não sabe os pormenores de que resulta

florir, como você não sabe os detalhes

de que resulta este dia, você

entrega a flor arrancada, você corre

para o quarto

e me deixa a enorme responsabilidade

cultivar a planta morta

dias de espiga vermelha e pólen

dias de cálice roxo e estio

dias amarelo-em-casulo

dias rosa-nascimento

dias brancos sombra

dias sépala

Você atravessa, distraída

nossa existência

e me transforma, de novo, em útero.

Coloco-as para secar, protejo da gata

e das formigas,

das intempéries da casa

desenho um jardim seco

e portátil

Preciso começar um herbário,

prensá-las nas páginas

úmidas

nesta página úmida

escrever com folhas e pétalas

entre raízes de palavras

que você atravessa

interrompe

outro dia que abre a corola

*

“Ouriço – Revista de poesia e crítica cultural (vol. 4)”

Ana Martins Marques, Daniel Arelli e Gustavo Silveira Ribeiro (editores)

Relicário e Macondo (coedição)

196 páginas

R$ 99,90

Lançamentos no Rio de Janeiro na próxima terça (31/03), na Livraria da Travessa de Botafogo, e em Belo Horizonte no dia 9/5, na Livraria Quixote.

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